Seguir jogadores, em vez de seguir equipas inteiras. Pode ser uma boa estratégia para fugir ao lado cinzento de muitos jogos. Sem entrar nas estrelas, são poucos, porém, os que conseguem essa proeza. Um que tem esse efeito em mim é Gyan Asamoah, o ponta-de-lança do Gana. Acho que é um grande avançado. Rápido, joga metido entre os centrais sem com isso perder um centímetro de pode de desmarcação e, depois, remata sempre forte. Vejo-o com categoria para jogar em qualquer grande equipa. Está com 24 anos, cresceu em Itália e este ano, em França, fez 13 golos no Rennes.
No outro extremo, na defesa, aponto o nome de Suler, central da Eslovénia. Tem grande capacidade de corte. Lê bem os movimentos adversários, a linha (trajectórias) que a bola vai fazer e surge no seu caminho no momento certo. Joga na Bélgica, no Gent. Com 27 anos já tem a escola toda da posição. Também gosto de ver Holman, médio ofensivo que joga entre-linhas na Austrália. Tem a cultura de movimentos apreendida em oito épocas no futebol holandês. Está com 26 anos e muitas vezes não é titular no AZ.
Mas também há jogadores que deixam uma sensação incómoda. São os que pressente-se poderem ter ido muito mais longe. Ziani, médio criativo da Argélia, tem esse efeito em mim sempre que toca na bola. Esta época quase não jogou no Wolfsburg. Os seus melhores anos terão sido no Sochaux, há quatro épocas. Desde esse tempo, no Marselha passou a viver mais encostado a uma ala, como joga agora, aos 27 anos, na selecção argelina, e todo o seu repentismo imaginativo, com dotes de organizador, deixou de ter o impacto que deveria ter no jogo.
Acho engraçado o ataque do Japão. A forma como terminou contra a Holanda, soltando Okazaki, Tamada, Honda (com Nakamura atrás ou a cair na direita) pela frente de ataque em trocas posicionais, fez-me acabar o jogo a torcer por eles. Antes tinham jogado Okubo e Matsui, outros bons aromas nipónicos. Pode parecer estranho mas são jogadores assim que mudam o campo. É mais ou menos como se uns vivessem dentro de um relvado quadrado e outros, dentro de um…redondo. Prefiro, claramente, os de vocação circular.
De Donovan
a Altidore
Entre os enigmas, penso em qual a razão dos jogadores americanos, por, em princípio, não vingarem na Europa. Vendo jogar os EUA, bom futebol, ainda fico mais intrigado. Será uma questão mental. O futebol nos EUA está longe da pressão competitiva (mental e física) da Europa e, por isso, os seus jogadores sentem o impacto dessa mudança. Donovan é, claro, o caso mais perturbante. Porque tem o mais difícil: os fundamentos do «jogar bem». Ou seja, é um jogador que percebe o jogo e sabe sempre porque faz aquele movimento e não outro. Toma sempre, com técnica (e táctica) individual, as decisões certas, sem se meter em problemas no jogo.
Altidore é um ponta-de-lança que merece trabalho específico europeu. Vejo-o como um diamante em bruto. Potência física e arranque com bola. É um bicho. Ganha duelos em locais que doem ao adversário. Cativa-me também porque em geral surge sempre nos espaços certos para apanhar a bola criando desequilíbrios. Falta-lhe, porém, alguma técnica de execução. Melhorar a recepção (torná-la mais orientada) e afinar o passe curto, para também tabelar. Ainda tem só 20 anos, pelo que ainda há tempo para isso. Era bom que na próxima época encontrasse um treinador com a mesma opinião.