O futebol italiano abre-se a outras tendências. Por desejo ou por necessidade. A última ronda da Champions, com Inter, Juventus e Roma, cada qual no seu estilo, foi um bom exemplo. Não perderam o primado da táctica, mas o início do pensamento sobre o jogo já não fica encurralado 90 minutos na caixa negra defensiva.
A vitória da Juventus em Madrid teve, nesse contexto, outros princípios de jogo. Sem abdicar do seu 4x4x2 clássico, a diferença esteve numa pressão alta que, por si só, representa um avanço na abordagem do jogo. Mantém quase sempre nove jogadores atrás da linha da bola mas agora com o bloco mais subido, para que a sua linha defensiva de «4» colocar-se, com ou sem bola, quase sobre o circulo central do meio-campo. Não promove jogos de pares, mas nunca os receia, com um duplo-pivot pressionante onde Tiago é, ao lado de Sissoko, é um jogador renascido. E, depois, claro, existem os livres de Del Piero. Outro remate imparável, como em Turim, para bater Casillas. Pode ser das bolas novas (de facto, não há memória no passado ver uma bola descrever aquelas curvas sinuosas a caminho da baliza) mas cada remate daqueles tem quase vida própria.
O Inter é ainda uma equipa hesitante na construção de jogo e na segurança defensiva. Mourinho ainda não encontrou o onze base e isso compromete as transições num padrão de jogo que devolveu os extremos ao Calcio. Falta-lhe outro perfume criativo no meio-campo quando a bola entra na sua segunda linha, onde ora são médios de combate que entram de trás, ora é um avançado que recua. Uma necessidade de criação táctica que serve para mostrar como Ibrahimovic é muito mais jogador do que um simples goleador. O seu controlo de bola e visão de jogo, com precisão de passe, arrepiam pela classe fria como o faz.
Em Roma, a forma como Vucinic arrancou pelo flanco direito, comendo metros em posse e deixando de rastos Obi Mikel, antes de bater, com classe, Cech, é a imagem de como a Roma atropelou o Chelsea e deu nova vida a Spaletti, um dos treinadores italianos tacticamente mais progressistas, mas que esta época sofre na definição do jogar da equipa. Este jogo pode ser o ponto de viragem. Abandonou o 4x2x3x1 que deixava Totti sem saber se era médio ou avançado e, após testar sem êxito outros sistemas (4x3x3, 4x1x4x1) renasceu, por fim, num versátil 4x3x1x2 onde De Rossi e Pizarro equilibram as transições e dão consistência à passagem da primeira para a segunda zona de construção com Perrota e Brighi. Um núcleo que libertou Vucinic e Totti para dar vida às novas tendências do Calcio onde o 0-0 já não é visto como o corolário de um jogo sem erros. São tudo novas formas de aprender a falar italiano dentro de um relvado de futebol.