ARGENTINA: LOS PIBES MÁGICOS DE PEKERMAN

17 de Abril de 2001
Os poetas argentinos da bola chamaram-lhe o regresso do fútbol tierno. Tudo começou em meados dos anos 90, quando as equipas jovens de José Pekerman, profetas de um nobre idioma gestual, devolveram ao futebol argentino, então perdido, após Maradona, em picardias excessivas, o estilo perfumado, belo e tecnicamente puro que o tornou famoso. Pouco tempo depois, Júlio Grondona, Presidente da Assóciacion Argentina, via nele o homem capaz de resgatar as raízes mágicas e virtuosas de todas as estruturas do futebol das pampas. No carisma e nas teses artísticas de Pekerman mora o presente e o futuro do futebol argentino. Esta é a história de um futebolístico toque de midas.
Caleidoscópio de estrelas, o futebol argentino sempre foi um infinito viveiro de talentos, moldados por uma história política e militar intensa, que gerou desigualdades sociais enormes, onde o futebol se tornou para muitos dos inatos talentos de rua, a grande escola do fútbol gaúcho, um fantástico veículo de promoção social. Para muitos pibes descalços dos bairros pobres que percorrem o imenso território argentino, o seu primeiro brinquedo é uma bola, que custa pouco dinheiro. Mais do que um divertimento, a pelota é uma esperança. A esperança de fazer carreira, jogar perante milhares de pessoas, driblar a pobreza e ganhar muito, muito dinheiro É tendo em mente este universo alquimista, que muitos defendem que as grandes estrelas do fútbol argentino não se fabricam, descobrem-se. No inicio dos anos 90, no crepúsculo da geração Maradona, o fútbol argentino deparou-se numa encruzilhada estética e existencial que aos poucos tornara o seu estilo, outrora paraíso de virtudes técnicas, demasiado agressivo, por vezes violento até, e, apesar de alguns ténues ilusionistas, sem grandes requintes técnicos. Mais do que um problema de cúpula, era uma questão de base, bem expressa no estilo bélico, sempre de dentes cerrados e sobrolho carregado, das suas equipas jovens, intérpretes de um jogo onde a tradicional garra se transformara em dureza excessiva. Foi essa a imagem que, por exemplo, ficou da selecção alviceleste Sub-20, no Mundial de 1991, em Portugal, onde, orientada pelo duro Reinaldo Merlo, viu o seu legado artístico, perder-se na picardia indisciplinada de pibes como Esnaider, Pochettino e Pelegrino, então, apesar do seu talento, já hipotecados a essa nova tendência que ameaçava aprisionar o belo fútbol argentino. Foi para combater esta realidade que em 1994 a Associacion de Futbol Argentino decidiu lançar um programa federal de renovação de todo o fútbol base, nomeando como supremo responsável das selecções jovens, um homem de sorriso largo, que embora ilustre desconhecido para a maioria, era já famoso por lançar estrelas, antigo jogador do Argentino Juniores e Independiente de Medelín, até que uma lesão no joelho ditou o fim prematuro da carreira, e que, naquele momento estava : José Néstor Pekerman. Quando chegou, afirmou desde o primeiro momento, que a ideia fundamental é recuperar a identidade, a capacidade técnica, imaginação e a habilidade do futebolista argentino. Atributos que nos distinguem e que se foram perdendo. Seria ele o treinador, professor e pai, que iria revolucionar toda uma estrutura arcaica e caduca, e lançar a nova imagem do futebol argentino, desde as camadas jovens até á selecção principal, que, ciclicamente, nos últimos anos, vem recebendo os chamados Pekerman Boys, a nova geração do futebol argentino, que há poucas semanas venceu a Itália, em Roma, alinhando dois símbolos supremos do seu laboratório e de dois títulos mundiais Sub-20: Sorín e Aimar.

A CONSTELAÇÃO-PEKERMAN

Na senda de novas estrelas, chegaram á selecção principal de Marcelo Bielsa, durante o último ano, mais oito pibes gerados nas camadas jovens do alquimista de Villa Dominguez. Foram eles Milito, Crosa, Cambiasso, Castromán, Placente, Galletti, Cufré, e Romeo, para além de Bernardi, Manso, Falcón e Costanzo, que, apesar de chamados, não chegaram a jogar. Eles são a última casta de diamantes, na senda de outras, que desde 1995, Pekerman vem lapidando nas selecções jovens, que, desde a sua chegada, para além de exibir um futebol sedutor e atraente, também conquista títulos. O último foi o SulAmnericano Sub-20 em 1999, com Galletti Montenegro, Duscher e os idolatrados Pablito Aimar e Chuchu Cambiasso, vencedor dos 3 torneios Sub-20 que disputou, dois deles mundiais. As primeiras constelações de Pekerman, surgiram, porém, logo em 1995, nos Mundiais Sub-20 e Sub-17, onde foi primeiro e terceiro respectivamente. No onze campeão Mundial júnior, que 16 anos depois repetia a proeza de Maradona e Ramon Diaz, surgiram talentos como Sorín, Biagini, Guerrero, Coyette, Ibagaza e, entre outros, Chaparro, e. No mesmo ano, no Equador, em Sub-17 despertava uma geração fantástica, com Islas, Leandro Avila, Cambiasso, Trotta, Duscher, Roldan, La Paglia e o malabarista de cristal Pablito Aimar que, dois anos depois, surgiria, na Malásia, como a grande estrela da selecção Sub-20 que, reconquistaria o título mundial, num torneio onde o mundo descobriria o maestro Riquelme, o defesa Samuel e o genioso avançado Scaloni, ao lado de figuras como Cufré, Markic, Perezlindo, o central Placente, o lateral direito Serrisuela, Quintana e o ponta de lança Romero. Nesse momento, todos os exigentes analistas argentinos concordaram que os ensinamentos de Pekerman tinham salvo a génese técnica e bela do futebol argentino, que, para além de conquistar títulos, também vencia os trofeus Fair Play. Moldados por esta atmosfera, surgiram outros pibes mágicos que hoje atingem a maturidade futebolística, como Cordone, 25 anos, Gallardo, 25 anos, Solari, avançado, 22 anos, Claudio Husain, trinco, 24 anos, Dario Husain, avançado, 25 anos, Posse, avançado, 25 anos, e, entre outros, o avançado da Lazio, Crespo, com 25 anos. Uma geração de talentos que ganha eficácia táctico-competitiva num onze solidificado no meio campo pela passada larga de La Brujita Veron. Em Agosto de 1998, cinco anos depois de tomar o comando das selecções jovens, a Federação Argentina, finda a era-Passarela, reconheceu o chamado toque de midas de Pekerman e nomeou-o director geral de todas as selecções nacionais argentinas. A intenção era a de assegurar a transição de muitos desses seus pibes mágicos para a selecção principal, onde iriam encontrara uma outra geração já solidificada. Para mesclar essas dois tempos do futebol argentino e evitar que o talento das jovens estrelas se dilui-se, como muitas vezes sucede, no túnel que separa os torneios juvenis da dura competição profissional, era imperioso o dedo tutelar de Pekerman, que passaria a supervisionar o trabalho de Marcelo Bielsa, treinador da selecção principal, assente no seu projecto exibicional, recuperador da identidade e do estilo do fútbol argentino, enquanto que Hugo Tocalli passaria a sentar-se no banco das selecções jovens.

SAMUEL – SORÍN - RIQUELME - AIMAR: SILÊNCIO, VAI JOGAR O FUTURO!

Na actual selecção argentina de Bielsa, que há poucas semanas venceu a Itália, em Roma, coexistem, assim, duas gerações, duas formas de entender o futebol das pampas, expressa nos consagrados como Zanetti, Veron, Claudio Lopez, Ortega, Simeone e Batistuta, e nos chamados pibes de Pekerman, sobre os quais repousa o futuro do fútbol argentino, fiel á sua histórica e bela escola técnica. Como supremos guardiões desse tesouro destacam-se quatro magos: Walter Samuel, defesa central, revelado no Boca Juniores, é actual titular da Roma de Capello. Sorín é um lateral esquerdo moderno, jogador do Cruzeiro, que muitas vezes actua como médio ala, em sistemas de 3-5-2, cobrindo todo o sector canhoto, com garra, técnica e velocidade, com vocação ofensiva. Riquelme é um clássico nº10. Não tem a fantasia de Ortega, mas possui o personalidade dos grandes caudillos, líderes, do fútbol argentino. O seu estilo aguerrido, técnico e cerebral quase faz do futebol uma ciência exacta, tal a precisão dos seus passes Aimar, transferido em Dezembro para o Valência, onde se foi juntar aos guerreiros gaúchos Ayala e Kili Gonzalez, vindo do River Plate, é um artista puramente sul americano, intérprete de dribles e zigzags de encantar. Algo franzino, coloca-se a questão de saber como se irá adaptar ás marcações do futebol europeu de choque. Sorín, Samuel, Riquelme e Aimar. Quatro nomes a fixar e a não perder de vista nos próximos anos.

O CAMINHO DOS PIBES DE PEKERMAN

Ano Torneo Lugar Estrelas 1995 Sul-Americano Sub-20 Finalista 1995 Mundial Sub-20 Campeão Biagini e Sorín 1995 Sul-Americano Sub-17 Finalista Aimar e Duscher 1995 Mundial Sub-17 3º 1996 Toulon Sub-21 1ª Fase 1997 Sul-Americano Sub-20 Campeão 1997 Sul-Americano Sub-17 Finalista 1997 Mundial Sub-20 Campeão 1997 Mundial Sub-17 2ª Fase 1998 Toulon Sub-21 Campeão 1999 Sul-Americano Sub-20 Campeão 1999 Mundial Sub-20 1/8 Final 1999 Toulon Sub-21 Finalista

JORGE GRIFFA : DIVINO CAÇA TALENTOS

Quando assumiu o cargo de coordenador geral do fútbol base, Pekerman de imediato percebeu que o seu trabalho não se poderia limitar ás selecções, mas que teria de se estender a todo o país da El Chaco á Ilha do Fogo, para inclusive absorver no seu grande projecto os miúdos entre os 10 e 15 anos, agregando-os em centros de treino, antes só existentes para equipas seniores. É neste universo invisível que habitam a personagem mais romântica do mundo do futebol: o descobridor de talentos, vulgo olheiro. Na Argentina ele tem um nome e duas penas: Jorge Griffa, El Rey Midas del Futbol, capaz de como o herói da mitologia grega, transformar em ouro tudo o que tocava, por vontade dos Deuses. Ninguém o consegue imaginar noutro local a não ser em torno de uma cancha de fútbol, observando os pibes que, desde os primeiros toques na bola, jogam com a ilusão de serem referenciados pelo maior e mais famoso caça-talentos do futebol argentino, antigo jogador do Newell´s e do Atlético de Madrid, nos anos 60. Depois, penduradas as chuteiras tornou-se um olheiro quase sobrenatural, tal a quantidade de estrelas que descobriu, mesmo quando todos desconfiavam. Actualmente é o coordenador do futebol jovem do Boca Juniores, depois de, em 1997, o presidente Mauricio Macri vislumbrar nele o homem ideal para devolver ao clube de La Boca a fama de clube de formação, uma espécie de Ajax da América do Sul. Antes, durante vários anos, Griffa foi o divino olheiro do Newell´s Old Boys, para onde levou, desde que assumiu o cargo em 1972, Valdano, Scoponi, Saldaña, Pochettino, Escudero, Sensini, Juan Jose Rossi, Dezzoti, Balbo, Simón, Giusti, Berizzo e um fabuloso goleador descoberto quando, nos anos 80, uma equipa juvenil do Newll´s foi jogar a Santa Fé –região que é o maior viveiro de talentos do futebol gaúcho- em busca de novos craques. Durante o partido, surgiu então um pibe meio gordito de uma povoação dos arredores que marcou quatro golos. Griffa logo ordenou a sua contratação, apesar de todos os outros treinadores, alegando razões físicas e técnicas, reprovarem a ideia. Griffa tinha, porém, um argumento demolidor: Ninguém mete quatro golos por acaso! O nome desse pibe pouco estético era Gabriel Batistuta e o resto da sua saga goleadora já é conhecida. A nova alquimia de Griffa está agora no renovado Boca Juniores, que, depois de conquistar a Copa Libertadores e a Taça Intercontinental, continua a formar uma equipa de futuro, com base nas suas descobertas, onde estão Battaglia, Gullermo, Moreno, Marchant e Arcetodos com 20 anos, e, com um ano menos, Burdisso, Calvo, Giménez, Caballero, Herrera, Pérez e Alcorsé. No presente, com 65 anos, Griffa permanece um símbolo do futebol romântico, aquele que fazia nos fazia sonhar e que com o passar dos tempos se nos escapou das mãos como areia fina por entre os dedos. Antes, para detectar um talento só atentava na técnica. Hoje há que ver se o chico é forte, coordenado, ver o temperamento e se é inteligente e equilibrado emocionalmente. A técnica continua fundamental, mas é agora ela é só um ponto de partida. Palavras de mestre Griffa.

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