“Arquitectos” perdidos

February 8, 2011 9:51 PM
Viagens pelo Brasileirão: Poderá o Vasco lutar pelo título? Os dilemas do Fluminense “pós-Conca”

 

É a única equipa que já venceu esta época um troféu nacional, a Copa Brasil. O Vasco da Gama de Ricardo Gomes. A questão agora surge naturalmente: será capaz de lutar até ao final pelo Brasileirão? É difícil. Ricardo tem a equipa organizada na defesa (Dedé, rápido e decidido, embora algo trapalhão, é um central de grande futuro) e dois avançados nossos conhecidos (Éder Luís-Alecsandro) que se complementam muito bem, mas as incertezas no meio-campo confundem a equipa e impedem-na de controlar melhor o jogo. Fica muitas vezes demasiado encostada à sua área. Éder Luís é outro jogador no Brasil em relação à sombra errante que passou na Luz. Nos gramados brasileiros, dispara em alta velocidade desde trás furando por entre defesas e surgindo depois, embalado, em zonas de remate. Estão lá os velhos caminhantes Felipe e Juninho Pernambucano e o vagabundo Diego Sousa, mas o meio-campo não tem um organizador claro. Em 4x4x2, aposta na velocidade do lateral-direito Fagner para criar desequilíbrios nas faixas.  
Campeão em 2010, o Fluminense procura um novo rumo após a saída do seu motor e arquitecto, Conca, que foi para a China. Abel Braga alterna entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1, dependendo de jogar com um médio-ofensivo estilo Deco (cada vez mais lento) ou um segundo avançado. Fred é o 9 titular. Depois, pode jogar Rafael Moura, também 9 clássico, Ciro ou Sóbis, contratado agora, tal como, Martinuccio, avançado solto. A equipa sente que o seu problema está na ligação ofensiva entre meio-campo e ataque. Nesse cruzamento, ainda é Marquinhos, falso ala, que entende melhor os dois espaços e surge muitas vezes desde trás, de preferência em diagonais, a desmontar as defesas adversárias. O coração da equipa está, porém, na defesa. Edinho é quase um terceiro central e Diguinho um corre-caminhos incansável. As faixas são propriedade privada dos dois laterais: Mariano, à direita, e Carlinhos, à esquerda. Poder lutar pela revalidação do título passa por descobrir como substituir Conca. Sem ele, a equipa deixou de ter cérebro para pensar quando a bola entra nos últimos 30 metros.
 
Ainda no Rio, uma equipa e um treinador no limbo: o Botafogo de Caio Junior. Foi a equipa que futebol mais sedutor apresentou no início, mas bastaram alguns maus resultados para pôr o treinador no precipício. Vale a pena, no entanto, ver jogar este Botafogo. Com Everton solto, Elkeson caindo na faixa, Maicosuel a inventar desse trás e o lateral Cortez a desequilibrar na esquerda, a bola roda a toda a largura do gramado com velocidade e profundidade. Faltou-lhe, até agora, um matador. Herrera não tem esse instinto. É tempo de regressar El Loco Abreu…
 
 
 
 
Palmeiras e Figueirense
 
Resgatando esquemas das velhas marcações individuais, o Palmeiras de Scolari é das equipas mais rochosas, no sentido de disciplina táctica e esforço físico do termo, deste Brasileirão 2011. Alterna entre dois ou três volantes (como motor clássico, Márcio Araújo, piranha e transportador), mas os criativos, Valdivia ou Lincoln (com intensidade muito mais baixa que o resto da equipa), têm muita dificuldade em entrar no jogo. É, porém, uma equipa muito competitiva. Tem o melhor avançado móvel goleador do futebol brasileiro, Kleber, e um exímio marcador de livres, Marcos Assunção. No ataque, Maykon Leite relaciona muito bem a faixa direita com o centro e, na esquerda, Luã, embora irregular, quando joga bem …ganha o jogo.
Uma boa revelação deste início do campeonato é o Figueirense de Jorginho. No centro, Fernandes, de 33 anos, faz o que quer da bola e chega perto da área para rematar, com o esquivo e veloz Aloisio a criar perigo na frente. Em 4x4x2 com dois volantes (é paraguaio Pittoni que manda) destaca-se o médio Maicon, sobre a meia-direita, a ligar os diferentes sectores.
 
Uma nota: o futebol catarinense (St. Catarina), de onde vem o Figueirense (Florianópolis) está cada vez mais competitivo. Os seus jogadores tem o perfil europeu em muitos aspectos. Seria, na minha opinião, espaço privilegiado de prospecção.
 
 
 
 
Leandro Damião: a busca
 
Difícil de entender, no Internacional, a demissão de Falcão. No Brasil, o factor 3 (três maus resultados consecutivos) não perdoa. Ao mesmo tempo, o seu ponta-de-lança, Leandro Damião, caiu da selecção após muitos terem-no apontado como o actual melhor nº9 a jogar no futebol brasileiro. É verdade? Damião tem características interessantes, mas essa definição parece um exagero.
Entre os traços mais fortes estão a movimentação sem bola para dar a melhor linha de passe, e depois, o oportunismo com que a ataca quando o passe é feito. Começar por abrir, dando largura e, com esse movimento, força o defesa a ir com ele na marcação. Depois, arrancar numa diagonal curta, atacando a bola, preferencialmente ao primeiro poste. Tem um primeiro toque de recepção muito forte, tabela simples e, muito frio, remata colocado. Joga muito bem no limite do fora-de-jogo. Silencioso, percebe onde a bola vai cair. Em suma: ao contrário do nº9 que espera para rematar, no caso de Damião quase todos os golos que faz são… procurados por ele!

 

 

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