Poderia ser apenas um estranho caso de dupla personalidade, mas as explicações para a enorme diferença de rendimento de Tierry Henry quando joga no Arsenal e na selecção francesa têm, sobretudo, explicações táctico-futebolisticas. O sistema, 4x4x2, pode, no papel, parecer o mesmo, mas, na prática, as dinâmicas de jogo e as características dos jogadores que o interpretam são muito diferentes. O onze de Wenger é caso tacticamente atípico, pois joga sem um nº9 clássico. Ou seja, é um 4x4x2, mas os homens mais avançados surgem sempre de trás, nunca actuam fixos entre os defesas adversários, pelo que, na prática, o Arsenal joga sem ponta de lança. Neste modelo, Henry encosta-se á esquerda, recua no terreno, incrusta-se entre os médios e depois surge em velocidade serpenteada a lançar o pânico entre os centrais, num movimento em que, quando já está nas imediações da área, é apoiado, em entradas vindas do centrou ou, em diagonais, desde a direita, por segundos avançados como Bergkamp e Ljungberg, respectivamente, desenhando então o tal 4x4x2. Na França, tirando os ensaios em 3x5x2 de Domenech, o seu 4x4x2 tem um ponta de lança clássico (Cissé ou Saha). Nesta dinâmica, Henry não joga tão liberto, e, mais adiantado, com os espaços preenchidos, terá de procurar triangulações com o outro avançado. Sem os tais 30 metros para explodir, desde trás, a grande arma do seu futebol, velocidade com bola, driblando e rematando em corrida, deixa de ter condições de se aplicar. Depois, também é de notar que, na selecção, é costume ser marcado ao homem (recorde-se a implacável marcação que lhe moveu Seitaridis no Euro-2004), enquanto em Inglaterra jogam em defesa zonal e os médios ala não pressionam tanto em zonas longe da baliza. Para se encontrar numa selecção francesa um estilo algo parecido com o do Arsenal ter-se-ia de recuar até á era de Jacquet, onde, embora em 4x5x1, também não existia um nº9 clássico e, um então jovem Henry, já esboçava o estilo que hoje revela. Reveja os jogos do Mundial-98 e confira.