ARSENAL:
A nova dinâmica Wenger

Comparando este Arsenal com outras anteriores equipas congeminadas por Wenger em Highbury Park, a principal diferença reside na maior segurança defensiva evidenciada pelo actual onze. É este, sem dúvida, o segredo da sua caminhada europeia.
Principais responsáveis pelo feito são, desde logo, o quarteto defensivo, com dois centrais que se complementam muito bem (Senderos, possante, no jogo aéreo e a marcar em cima, e Touré, mais rápido, a surgir nas dobras e nos tackles). Nas laterais, sem Cole, Wenger inventou um novo lateral esquerdo: o francês Flamini, que antes jogara era médio ala, sobretudo na direita. Na faixa destra, Eboué procura sempre jogar simples. Em geral, os laterais só sobem em apoio, preocupando-se sobretudo em fechar o flanco.
Tacticamente, porém, existem explicações mais científicas em termos de dinâmica, e elas residem no posicionamento e movimentação do meio campo. Tendo como referência o 4x3x3 para emoldurar o seu modelo de jogo, Wenger introduziu uma nuance táctico-estratégica que demonstra como este sistema, nas diferentes dinâmicas, pode estar perto de um 4x5x1 que, no papel, parece tão distante.
O segredo baseia-se no maior sentido posicional do seu meio campo a defender. Mantendo a defesa a «4» sempre completa, esquematiza, na saída de bola, duas linhas de cinco médios, uma delas, digamos, tacticamente mentirosa. À frente da defesa, Gilberto Silva é o médio centro mais recuado, um pivot de recuperação clássico, apoiado por Cesc Fabregas, que gere e activa as transições defesa-ataque, no transporte de bola e na distribuição de jogo.
Frente à Juventus, a principal nuance de movimentação residiu, porém, na forma como os três médios de segunda linha, Hleb-Reyes, alas, Pires ou Ljungberg, centro (no que são novas funções para estes dois jogadores, pois na sua carreira jogaram quase sempre como alas) recuam no terreno para garantir superioridade numérica frente ao 4x4x2 contrário.
Ao mesmo tempo, Henry recua para se encostar ao flanco esquerdo quase na saída do meio campo (de onde depois parte em velocidade serpenteada rumo à baliza adversária), naquele que é a imagem de marca do seu jogo, mas que, neste novo modelo de Wenger, como que traduz a movimentação ofensiva global dos extremos e médios de segunda linha.
Ou seja, nesta dinâmica, toda a força ofensiva do Arsenal se esconde, sem bola, dos defesas e médios de cobertura adversários. Após a sua recuperação, como saídos da trincheira do meio campo, irrompem em velocidade nos últimos 25/30 metros da defesa adversária, com rápidos desdobramentos a romper desde trás.
Com esta estratégia, a equipa ganha força defensiva ainda longe da sua área, algo que no passado não sucedia. Uma variante que traduz, portanto, como a grande diferença entre o 4x3x3 e o 4x5x1 reside, essencialmente, na dinâmica posicional, com ou sem bola, que se imprime aos alas. Mais recuados, desenham um meio campo com cinco elementos. Se, pelo contrário, eles derem profundidade à faixa, abrem o ataque a toda largura do campo, como extremos típicos. Na capacidade do Arsenal jogar dentro da primeira dinâmica, ensinando o seu meio campo a defender, está a base deste seu novo rosto táctico mais realista.
VILLARREAL:
Os triângulos de Pellegrini

Inspirado pelo perfumado estilo sul-americano, o Villarreal é uma equipa tecnicamente muito forte que prefere o futebol apoiado e o toque curto, traços estilísticos condicionam decisivamente os princípios de jogo que dão vida ao modelo de jogo do onze de Pellegrini.
As bases da equipa estão no saber táctico-técnico do seu meio campo. Tacticamente esquematizado num compacto 4x3x1x2, definindo duas linhas e uma sub-linha a meio campo, parte desde trás com laterais (Javi Venta-Arruabarrena) perfeitos a gerir posicionalmente as compensações defesa-ataque, o motor do onze assenta num triangulo de médios colocados à frente da defesa. No vértice recuado, está o pivot que gere todos as transições defesa-ataque-defesa: Marcos Senna, muitas vezes apoiado na cobertura defensiva por Tacchinardi, que, em tarefas de cobertura, bascula desde a direita para o apoiar na acção de fechar o corredor central, desenhando nesses momentos quase um clássico duplo-pivot de cobertura.
Na outra extremidade do triângulo, sobre a esquerda, solta-se Sorin, que, incansável a queimar-linhas, quase faz três lugares em campo: lateral ofensivo, médio e extremo. Por vezes parece tacticamente subversivo, pois nessas movimentações aparentemente anárquicas compromete a disciplina da cobertura dos espaços, mas, pela sua permanente intensidade de jogo, incute como que uma segunda velocidade nas transições defesa-ataque.
Deambulando na segunda linha do meio campo, surge o maestro Riquelme. Embora mais rápido a pensar do que a executar, é ele que coordena, pela visão de jogo e precisão de passe, as triangulações que se desenham nos últimos 30/35 metros e fazem a equipa mover-se, iludindo o jogo de marcações adversários,
Na frente de ataque, em vez de jogar com um ponta de lança clássico, aposta em dois avançados mais soltos que nunca dão referências fixas de marcação aos adversários José Mari, que descaí sobre a direita, tendo como seu principal movimento, recuar um pouco e depois surgir de trás, em velocidade, sem bola, para concluir; e Fórlan, vagabundo em busca de espaços vazios de remate ou de penetração. Outra opção é Franco, que no mesmo estilo também gosta de recuar, caindo depois nos espaços vazios.
Para o jogo com o Arsenal, o principal problema reside, porém, no centro da defesa. Sem a dupla titular Gonzalo Rodriguez-Peña, dois centrais muito fortes no corte e controlo do espaço e da bola, pode surgir uma dupla improvisada, com Quique Alvarez no comando, ao lado de Arzo, médio de origem que irá recuar para o eixo da defesa.
Perdem-se rotinas de marcação e, talvez por isso, Pelegrinni opte por inverter o vértice do triangulo à frente da defesa e jogar com um duplo-pivot fixo ou, noutra variante, desenhar, sem bola, uma primeira linha de cobertura com três médios de perfil (Tacchinardi-Senna-Sorín ou Josico) , soltando-se depois um deles, recuperada a bola, para apoiar, na segunda linha, o enganche ofensivo Riquelme.
Outra variante a utilizar poderá ser um 4x4x2 mais clássico, com duplo-pivot à frente da defesa. Neste caso, Senna teria sempre a seu lado outro trinco-pivot, talvez Josico, defensivamente muito culto a fazer a primeira linha de cobertura à entrada da meia-lua.