As apostas “sem risco”

30 de Junho de 2011 11:26
Vitor Pereira, a sucessão natural. FC Porto foge ao abalo dos alicerces do êxito conquistado que a ruptura provocaria

O processo da transferência de Villas-Boas, história e percurso de vida, já pode ser romanceado. Mais do que o antigo adjunto de Mourinho, Vilas-Boas, para quem o conhece, sempre foi, desde há dois anos, outra coisa bem diferente: foi o homem, o único à face da Terra, que desafiou Mourinho e com quem este se zangou, furioso, quando, altivo, lhe disse que queria ir embora do Inter porque se sentia treinador e não um simples observador como Mourinho insistia que fosse. Saiu em litígio pessoal, esperou na sombra, viu muitas portas de clubes serem lhe fechadas na cara (descubram a razão) mas a quem o conhecia, veemente, só dizia: “estes gajos não sabem que daqui uns tempos estão a falar com o treinador do FC Porto!”. E, a partir dai, o céu era o limite. Deixou um salário principesco no Inter para ir “roer ossos” na Académica e, menos de dois anos depois, ai está a prova. Esta história (romance) seria mais longa, mas basta este pequeno traço (inconfidência) para se perceber de que matéria de treinador estamos a falar. Pensemos, agora, no seu processo de sucessão no FC Porto:

Ouço falar em nova “aposta de risco”. Depois de André Villas-Boas, a aposta em Vitor Pereira, outro jovem, sem créditos firmados, anterior adjunto de Villas-Boas. Tenho a opinião contrária. Estas são (como a de Mourinho) as duas apostas de menor risco da história recente do FC Porto na escolha de treinadores. Porque o termo “risco” engloba muitas vertentes e interpretações, políticas e desportivas. Nesse sentido, risco foi contratar Jesualdo após Adriaanse, Fernando Santos após Oliveira, Del Neri após Mourinho, Octávio após Fernando Santos…
 
Quero dizer com isto que acho que a aposta em Vitor Pereira foi mesmo atempadamente pensada e preparada? Não. E ainda bem. Porque se tivesse tido tempo (se Villas-Boas anuncia a saida após a Final da Taça) o FC Porto teria tido muito tempo para procurar outra solução, com os tais créditos firmados. Com isso, iria, porém, criar uma ruptura e aumentar expectativas em torno de um novo treinador que este, por mais competente que fosse, teria muita dificuldade em aguentar pela herança recebida. Ou seja, o risco provocado pelas escolhas que significam ruptura quando ela não faz sentido despoletar é muito maior do risco das opções que seguem uma lógica natural. É o caso da escolha Vitor Pereira.  
 
Ou seja, o FC Porto terá, no curto tempo para pensar após a bomba da saída de Villas-Boas, recordado o que fizera no processo anterior, assombrosamente semelhante, pós-Mourinho. Nessa altura, foi para a ruptura. Desportiva e até emocional. Mourinho passou a persona non grata. Agora, com Villas Boas, houve um esforço (titânico após tantas juras de amor reciprocas) para dizer que tudo era normal, boa sorte e paguem. E, sem entrar em apostas de risco em treinadores de ruptura, a aposta no discreto Vitor Pereira, transição pacifica e anunciada até como planeada, um treinador, diga-se, com competência, mas de quem ninguém espera um grande impacto ou expectativa na entrada. Isto é, o FC Porto (equipa e direcção) foge assim ao abalo dos alicerces do êxito conquistado que a ruptura provocaria
 
Por razões diferentes, Villas-Boas e Vitor Pereira são duas apostas “sem risco”. Villas-Boas porque, para quem o conhecia (ideias e carácter) e sabe de futebol, era fácil ver que estava ali algo “especial”. (Para perceber este parágrafo voltem ao início do texto). Vitor Pereira porque é a tal “solução natural”, sem criar uma ruptura de…risco que nasceria de uma escolha de confronto com o passado recente, impossível de combater. Se falhar, falhou a escolha natural. E ninguém pode ser atacado por ter escolhas naturais.
 

+ O “special cenoura”  

 
Dizer, como explico em cima, que Vitor Pereira não é uma aposta de risco, não significa que ele seja semelhante a Villas-Boas. Tem saber suficiente para o cargo, mas sem os mesmos sinais de “competência especial”. Nesse campo, sim, a aposta tem risco, enquanto a de Villas-Boas não comportava esse risco para além, claro, do normal no futebol, a bola bater no poste em vez de entrar. Enquanto Villas-Boas entrou num processo com pontos de contacto ao de Mourinho (no sentido da competência especial ainda escondida) no caso de Vitor Pereira isso não acontece. Quando, depois da (natural) duvida inicial, o FC Porto também percebeu que matéria de treinador/homem estava ali, já nada podia travar o “cenoura” de se tornar special.
 
 

- O adepto (in)fiel

 
É engraçado no apanhar de estilhaços da bomba da saída de Villas-Boas do FC Porto para o Chelsea, a crítica que lhe fazem dizendo que os únicos verdadeiramente fieis, que nunca mudam de clube, são os adeptos. É verdade, de facto. E sabem porquê? Porque (ainda) não existem transferências de adeptos! Imagine o leitor (ou pense até no seu amigo mais fanático) seja de que clube for, que lhe oferecem 5 milhões de euros por ano para, na próxima época, ir de bandeira e cachecol, torcer para as bancadas de outro clube. Sinceramente, o que é que faria? Pois, bem de parecia.

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