O negócio e as emoções. O futebol moderno tornou-se num território no qual habitam factores aparentemente inconciliáveis. Pelo meio, com uma bola e um relvado, o jogador. A chegada das chamadas épocas de mercado agudizam este limbo no qual eles (futebol e jogadores) vivem. Como o futebol é, por definição, um território emotivo, é muito fácil colocar em ebulição a estabilidade económica de um clube e a face do adepto.
Hulk é o tipo de jogador que se tornou, pelo estilo, imagem e historia, quase num mito romântico moderno. O Manchester City (entenda-se Zayed al Nahyan FC) suspira por ele. Mas, que jogador no mundo pode hoje (ou até no passado) valer 100 milhões de euros? Pelas regras do bom-senso, nenhum, claro. O que então verdadeiramente valem hoje as tão faladas clausulas de rescisão? Quando mais altas forem, menor valor exacto terão no sentido negocial estrito do termo. Isto é, passam a funcionar, sobretudo, como referência para a loucura a cometer. Com a entrada no futebol europeu dessas novas fortunas árabes (depois das oligarquias de leste) cada vez mais o poder económico se sobrepõe ao poder das ideias. No meio destes milhões, o futebol de Hulk quase que desaparece. Pode parecer um contra-senso dizer isto, mas penso que em vez de o valorizar, quase o torna numa caricatura de um tempo que não sabe o verdadeiro valor das coisas (neste caso dos jogadores de futebol, sobretudo os melhores).
Não tenho a visão romântica ou quixotesca de pretender um futebol sem negócio. É impossível. Porque ele vive dentro da sociedade e, portanto, vive encarcerado pela economia. O perturbante é quando em vez de o tornar possível, o negócio subverte a sua essência. O mercado de Janeiro, por surgir a meio da época, é, no plano da saúde competitiva desportiva e emocional, o mais contra-natura. Altera coordenadas a meio da competição e, durante mais de um mês, as equipas vivem em sobressalto. Os treinadores não dormem descansados, os dirigentes multiplicam-se em reuniões com empresários que não param de aparecer, os jogadores acabam o treino e vão logo ligar o telemóvel para ver se existe uma SMS com a notícia esperada.
Por todos os clubes portugueses, cada qual à sua dimensão, vive-se essa realidade. Também existem os chamados casos existenciais que tendem a agudizar-se nesta fase. É o «sindroma Vukcevic». Reduzem-se os milhões, fica-se pelos dois, aumenta o divã no qual se deita jogador e clube. Deixemos o debate económico ou emocional para chegar a outro ponto do debate futebolístico: visão estratégica. É igual que se fale de clubes ricos e prósperos ou de clubes confusos e financeiramente frágeis. Todos necessitam dessa consciência global.
Qual o factor, no meio de todos estes cenários cruzados, mais decide um campeonato? Não, não acredito que seja o dinheiro. Quando se vive uma daquelas situações a que se chama «crise», o que o clube nunca pode dar é a sensação de estar sem respostas ou agir por impulsos. No relvado ou nos gabinetes, a vender ou a comprar.