As “coreografias” do futebol

April 25, 2010 5:35 PM
Nasceu um novo ciclo no futebol português? Percebendo onde começam as causas e acabam os efeitos, percebe-se a explosão do “novo” Benfica e “quebra” do velho FC Porto.

 

No mesmo dia em que perdeu, matematicamente, qualquer possibilidade de discutir o título desta época, o FC Porto recebeu a Taça de campeão da temporada passada. O futebol português vive muito destas “realidades difusas”. Parece transformar-se de um momento para o outro. A “nuvem cinzenta” que pairava por cima da entrega do troféu a Bruno Alves nasce de “outro tempo”, o actual, diferente daquele onde de azul-e-branco caminhavam outros jogadores. Em um ano muita coisa muda. Nos dois sentidos.
O renascimento, em campo, deste novo Benfica tem uma origem clara: o seu treinador. Jorge Jesus. Respeitou os conceitos básicos para fazer uma boa equipa: uma boa ideia de jogo e jogadores inteligentes para a interpretar. Argumento (táctica) e representação (acção dos jogadores). O onze não revelou um casting muito diferente da época passada. A diferença esteve na “adequação” táctica. uma ideologia de jogo que entendeu os jogadores e a cultura de clube adormecida.
 
David Luiz (recolocado na sua “casa táctica” de defesa-central), Di Maria (de rebelde individualista a rebelde com causa no um-para-um), Aimar (fisicamente gerido e protegido respeitando a sua importância-chave no jogo), Cardozo (regressado ao lugar de nº9 referência, apoio e remate, mas com companhia por perto), Ruben Amorim (bisturi táctico fundamental para jogos específicos) ou, até, Luisão (supradimensionado para chefe do exército defensivo). De novo, Ramires (o “etíope” incansável), Javi Garcia (a “âncora” que, atrás, mantém a equipa com os pés presos à relva) e Saviola (o “coelho” a mais que aparece e desaparece na chamada “zona de ninguém”, o célebre espaço ente-linhas). Entendidos os intérpretes, a mudança da “coreografia”: do 4x4x2 clássico (longo e sem elos de ligação) ao 4x1x3x2 (sempre em permanentes conexões de uma área à outra). 
A quebra do FC Porto tem causas múltiplas. Ao contrário do êxito encarnado que tem um progenitor claro no treinador, o seu fracasso não pode seguir a mesma lógica simplista. Na “quarta reconstrução”, Jesualdo não teve (e/ou não soube) manejar os novos “componentes químicos” (leia-se jogadores) para congeminar a fórmula certa de manter o laboratório portista em ebulição. Quis manter a mesma coreografia táctica (4x3x3), desconfiou do 4x4x2 e acabou preso nesta armadilha. A “bomba-Jesus” é que teve detonação fragmentada e muitos dos seus estilhaços caíram mesmo no centro do universo portista. A maior competência táctica (e, claro, os melhores actores) fez a diferença global. De excelentes jogadores, o FC Porto passou a ter alguns jogadores “interessantes”. Não é a mesma coisa.
 
Falcao revelou-se um predador do golo, mas é o tipo de avançado que só cresce à medida que a bola se aproxima da área. Nos anteriores projectos de Jesualdo existiu sempre outro tipo de avançado, que, mais do que ele próprio crescer quando a bola se aproximava dele, era o jogo que, nessas alturas, ele fazia ganhar outra dimensão. Em resumo: o jogo passou a colocar perguntas diferentes exigindo respostas…diferentes. Jesualdo (perante realidades distintas) deu as mesmas. E perdeu. Uma queda acentuada sem o jogador que fugindo às perguntas do jogo, consegue muitas vezes (em jogadas individuais, falando tacticamente sozinho) fugir às questões tácticas colectivas: Hulk, o “disfarce perfeito”.
Jesus sente que tem o campeonato conquistado. Desde há varias jornadas que já mais ninguém o pode ganhar. Só ele o pode perder. Quando Luisão estiver a receber a Taça de campeão desta época daqui a um ano, o grande desafio “encarnado” é que, quando isso suceder, a realidade não seja muito diferente da actual. Será a certeza que o futebol português entrou mesmo num “novo ciclo” e não apenas numa outra “realidade difusa” do momento. 
 

 

 

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