As duas faces do futebol

December 27, 2009 12:00 AM
De Mourinho a Guardiola. A divisão do “mundo futebolístico” a partir de diferentes expressões, estilos e personalidades. O sagrado e o profano

 

A certo ponto de Casino, existe uma cena em que Robert de Niro, deixa claro a sua personalidade: “Repara bem, existem três formas de fazer as coisas: bem, mal ou…como eu as faço!”. Pouco importa agora que a personagem não tivesse grandes escrúpulos. O que está em causa, para perceber a chamada “terceira dimensão da vida” em que poucos entram, é o terceiro caminho. Pensemos, pois, em futebol.     
A um treinador exige-se o que se pede a um líder: que nos leve por caminhos que só ele conhece. A melhor forma para ganhar admiração por um treinador é quando olhamos para a equipa a jogar, detectamos um estilo próprio e não temos dúvidas que tudo aquilo é obra sua. Podem ter, claro, diferentes formas de expressão, mas a sensação de personalidade forte é a mesma.
Mourinho e Guardiola têm trajectos de vida no futebol que vêm de longe. De locais distintos. Guardiola começou como apanha-bolas do Barça, quando o onze catalão vivia da fúria e a figura idolatrada de quem corria atrás quando o jogo acabava era um médio que parecia ter sido feito à navalha, o guerreiro Victor. Depois, jogou muito e andou na Equipa B. O resto é história. Mourinho surgiu no grande futebol visto como um mero tradutor do inglês Bobby Robson e antes andara como adjunto na Amadora ou a dar aulas perto de Setúbal. Depois, estudou muito, mostrou o que podia ser no U. Leiria. O resto, também é história.
Hoje parecem viver em pólos opostos em termos de método e discurso futebolístico. Dentro e fora do campo. Guardiola seguiu os ensinamentos de Cruyff e fundou a sua própria “igreja futebolística”. Os seus admiradores mais devotos vêm jogar o actual Barça com a bola de pé para pé, girando por todo o campo, nas botas de baixinhos loucos (Xavi, Inieta, Messi..) ganhando títulos atrás de títulos e dizem que tudo aquilo é “guardiolismo” puro. A grande vitória desta equipa é que nunca deixa cair o estilo, mesmo quando bate o minuto 85 e o golo não aparece. Pep não desespera e de pé junto ao relvado ouve-se a sua voz. “vamos, começamos outra vez!”. E outra vez. Até ganhar.
Mourinho pisa terrenos mais “minados”. Soube crescer em cada desafio que teve ou promoveu. Os chamados “mind games” não são mais do que puxar o jogo para aquilo onde é forte: a arte do conflito. Cresce com os inimigos, reais ou imaginários. Mas, em campo, as suas equipas endureceram o seu discurso (isto é, a forma de jogar). Ao contrário da obra de Guardiola, os projectos de Mourinho não tem qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza futebolística. O primado do músculo (do peso e da altura) por cima do talento puro, gera equipas que pisam forte mas que, depois, têm dificuldade em falar “ao ouvido” à bola. A capacidade de sedução de Mourinho permanece mas o charme discreto com que abria o guarda-chuva antes dos primeiros pingos começarem a cair tem agora de resgatar a tal sensação de estar a guiar-nos por caminhos que só ele conhece. Como fez no Porto ou no Chelsea. A capacidade de reinvenção é o segredo para os grandes líderes (treinadores e suas equipas) manterem-se sempre no top.
Não sei se daqui a alguns anos, Guardiola, noutro casulo estilístico, também chegará a este “beco da personalidade”. Hoje, os dois vivem, na transmissão de emoções, em pólos opostos. Mourinho joga “contra o mundo”. Guardiola joga “empurrado pelo mundo”. O Inter joga de sobrolho carregado. Bolas mais divididas, musculo, pressão, arrombando defesas. O Braça joga com um sorriso solto. Bolas que passeiam na relva, passe, desmarcação, hipnotizando defesas.
O fundamental, no longo caminho, é nunca trair um estilo, mesmo no dia em que de repente, quando já sabíamos todas as respostas, a vida mudou todas as perguntas. No futebol isso sucede muitas vezes. É então que não interessa fazer bem ou mal. Interessa, como De Niro, fazer as coisas como…“eu as faço”. E ganhar. Ou perder.   

 

 

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (27) NOTAS 2011/12 (27) March 2, 2012 1. Dois lugares, um habitat; 2. Diego Barcelos, médiio ou avançado?; 3. Gil de Paulo Alves: a realidade...
  • NOTAS 2011/12 (25) NOTAS 2011/12 (25) January 21, 2012 1.Que tipo de avançado é Lima?; 2. Porquê o cebola a titular?; 3. Porque não subirem quatro?
  • NOTAS 2011/12 (24) NOTAS 2011/12 (24) January 19, 2012 1.A Adaptação da época; 2. Djaniny e o Leiria; 3. A intenção e a prática
  • “Estranhos” na sua própria casa “Estranhos” na sua própria casa January 19, 2012 Diferentes jogadores pedem coisas…diferentes. Entre “posse” e “transições”, como o modelo de jogo...
  • SATÉLITE «HC» SATÉLITE «HC» January 16, 2012 Desde o Qatar, pensamentos de futebol de Helena Costa. Satelite no `Planeta do Futebol`