
Muitos são os que dizem que os povos apenas se limitam a construir herois para logo depois os derrubar. Mas, para os nacionalistas irlandeses, o nome de Michael Collins, é o exemplo de que, entre nós, continuam a habitar gigantes que com a sua acção ao longo da vida, em geral curta e veloz, nos faz despertar o nosso maís intimo e profundo desejo de superação. O nome de Collins, o homem que se revoltou contra a colonização britânica e por ela foi morto, é uma inspiração para qualquer irlandês genuíno. Na República da Irlanda, onde a religião católica é uma bandeira, esse sentimente é arrepiante. É muito por causa desse sentir patriótico que os jogos da selecção do Eire no lendário Lansdowne Road, são mais do que simples jogos de futebol. No clamor das multidões que enchem o estádio está o rugido da Irlanda livre contra o colonialismo britânico. Mas, apesar deste sentimento patriótico, a força do seu futebol, durante largos anos, nunca acompanhou o clamor revoltado das multidões que fielmente sempre seguiram a selecção do trevo. Condenada a ver partir os seus melhores jogadores para a Liga Inglesa, com o campeonato interno muito fraco, o futebol irlandês viveu sempre na sombra do poderio inglês. Até meados da década de 80, passados já cerca de 60 anos desde a sua filiação na FIFA, em 1923, nenhuma vez lograra chegar á fase final de um Mundial ou Europeu. Até essa data, o seu maior feito futebolístico da sua história morava no longínquo ano de 1949, quando, já independente e separada da outra Irlanda, a do norte, o chamado Ulster, se converteu no primeira selecção não pertencente ao reino unido a derrotar a Inglaterra em solo inglês: esse histórico jogo realizou-se em Goodison Park, de Liverpool, a 21 de Setembro, e os irlandeses venceram por 2-1. Até que, vindo paradoxalmente da Velha Albion, surgiu, em fins de 1987, um inglês protestante que, com as faces rosadas, iria mudar o curso do destino: Jack Charlton, o gigante irmão do mítico Bobby Charlton, titular da selecção inglesa campeã do mundo em 1966. Amante dos pequenos prazeres da vida, a girafa inglesa, como é conhecida, integrou-se de forma sublime no espontâneo ambiente irlandês: Se nunca foram a um bar irlandês, então nuca na vida poderão dizer que tiveram uma verdadeira noite de copos e diversão, disse uma vez Big Jack, num desabafo que espelha bem o seu perfil alegre que contagiou todo o futebol irlandês, desde o público até ao estilo de jogo, a partir da sua chegada, mais solto e alegre, apoiado no tema musical, entoado a plenos pulmões pela multidão, que desde ai passou a incitar a equipa: «Put them under pressure», isto é, Coloca-os sob pressão, em tradução livre. Baseado em lutadores puros como os goleadores Tony Casacarino e Aldrige, o central McGrath, o médio duende Ray Houghton e o guarda redes Pat Booner, a republica da Girafa tornou-se, num ápice, numa das mais excitantes e temidas selecções europeias, atingindo, com brilhantismo, o Europeu de 88 e os Mundiais de 90 e 94. Os meus jogadores podem não ser os melhores do mundo, mas, podem ter a certeza, são os mais honestos, sentencia do alto dos seus 2 metros Jack Charlton. O homem que, conta Cris Waddle, um dia, em Newcastle, abandonou um treino a meio quando do lado de fora da vedação surgiu um seu amigo num velho austin gritando-lhe: Jack!, Jack!, o rio está cheio de trutas a saltar. Entusiasmado, Charlton entrou logo no carro e deixou o treino entregue aos adjuntos, recorda Magic Wadle

Mas para os mais atentos analistas ao fenómeno do futebol britânico, esta empatia quase sobrenatural entre Jack Charton e o povo irlandês, tem raízes sociais e culturais mais profundas. É que, para os velhos tradicionalistas ingleses, Charlton não é exactamente um inglês típico. É, antes, um geordie, nome dos naturais de Newcastle, cidade do norte de Inglaterra, cujos habitantes são famosos pelo seu temperamento solto e alegre. Cultivando um estilo longe do perfil duro e disciplinador de alguns dos seus antecessores, criou um espirito de grupo fabuloso entre os jogadores, responsável pelas mais belas páginas do futebol irlandês. Com os olhos embaciados, despediu-se da terra que aprendeu a amar desde o primeiro momento que a pisou, dez anos depois de ter tomado posse, após falhar, em Lisboa, o apuramento para o Europeu-96. Vivia-se já o crepúsculo da geração de jogadores que fizera a glória do futebol irlandês. O seu sucessor, deparou-se então com e gigantesca tarefa de prosseguir a obra da girafa, mas, apesar do valor de novos lutadores como Roy Keane ou Robby Keene, será difícil voltar a formar um grupo tão unido como aquele que Jack gerou e surpreendeu o mundo do futebol.

Apesar do período de ouro do futebol irlandês se situar entre meados dos anos 80 e 90, o grande jogador da sua história, aquele que mal o seu nome é pronunciado, suscita vénias e encómios, mora na década imediatamente anterior. Trata-se de Liam Brady, o cérebro, que enquanto menino aprendeu a jogar futebol nas escolas e St.Kevin. Tal como todas as grandes figuras do football irlandês, teve os seus grandes dias em Inglaterra, com a camisola do Arsenal, onde esteve entre, até rumar para a Juventus, onde saiu em 82, data da chegada de Platini, encerrando a carreira no Calcio pelo Inter. De regresso á ilhas, ainda passou pelo, até regressar, por fim, ás raízes em 996, quando, celebrou, como director do futebol jovem do Arsenal, um protocolo de apoio e incentivo ao futebol nas escolas da região de Dublin. Brady fez jogos pela selecção da República, mas a sua classe no trato da bola., a visão de jogo cerebral e a forma como, com a cabeça levantada, traçava as coordenadas de todos os movimentos ofensivos da equipa, nunca pisaram os palco dum Mundial. Esta tradição de grandes jogadores irlandeses no futebol inglês já remonta, porém, a tempos remotos. Como grande dono desse legado está o Manchester United, que nos anos 50, por iniciativa de Sir Matt Busby, iniciou, com a contratação de Jack Carey, segundo o velho patriarca, o jogador mais completo que alguma vez vira jogar, uma tradição que se mantêm até hoje, com Roy Keanne e Denis Irwin. Ainda há pouco tempo, dentro deste espirito revivalista, os velhos suporters dos diabos vermelhos recordaram essas velhas glórias e fizeram aquela que seria a melhor equipas de todos os tempos, englobando apenas irlandeses da República que, estrala na selecção irlandesa, passaram por Old Traford. A equipa de sonho seria a seguinte: Pat Dunne; Denis Irwin, Tony Dunne, Paul MacGrath, Jacky Carey, Kevin Moran; Gerry Daley, Roy Keane, Frank Stapleton, Liam Whelan e Johny Giles. No banco estariam: Pat Roche, Noel antwell, Mick Martin, Ashley Grimes, Shay Brennan, Gerry Ryan, Ray O`Brien e Liam O`Brian.
Todos os povos, grandes e pequenos, têm a sua história, a sua cultura. A história do povo irlandês, feito de revoltas e repressões, marcou o século, mas as suas raízes mais profundas mergulham na secular luta contra o Império Britânico. No presente a ilha divide-se em dois sistemas de governo, que são ao mesmo tempo duas formas de afirmação nacional e religiosa. O futebol, ao contrário, por exemplo do râguebi, acompanhou essa divisão que dura há 76 anos. De um lado, a Républica da Irlanda, o Eire, com 4 milhões de habitantes, nação independente desde 1948, de religião católica. Do outro lado, a Irlanda do Norte, o Ulster, de raíz protestante, bem perto da Escócia, sob controlo politico e militar da Inglaterra. Este território, ensanguentado e oprimido, é, no fundo, em finais do sec.XX, a ultima colónia do Império britânico, secularmente de cariz protestante. A minoria católica continua a ansear pela libertação e desde o inicio dos anos 60, desafia, no rugido aterrador do IRA, o agressor inglês. São quase 30 anos de luta fratícida, que muitos esperam poder ver desaparecer ou atenuar com o novo governo inglês trabalhista, após décadas de governos conservadores. O futebol, expressão num relvado do sentir e pulsar de um povo, coexistiu por todo este ambiente e seguiu a separação. A divisão entre católicos e protestantes verifica-se até no futebol, ao ponto de que quando Portugal recentemente foi jogar a Belfast, capital da Irlanda do Norte, muitos dos seus habitantes não apoiarem a selecção irlandesa. Para muitos a sua seleccção é a da Répública, o Eire, simbolo do orgulho de uma Irlanda livre. Através dos tempos não faltam referências a talentosos jogadores irlandeses, na sua mairia a jogar em Inglaterra, desde o mitico George Best, aos virtuosos médios Mcllroy, até aos tempos mais remotos onde a memória retêm nomes dos anos 50, como Blanchflower e o heroi Harry Gregg, sobrevivente do desastre aéreo que vitimou a equipa do Manchester United, onde ganhou o estatuto de heroi ao ajudar a salvar, por milagre, alguns dos feridos.

Em 18 Novembro de 1981, muitos dos que sonham com uma Irlanda una, de pluralismo religioso, viram, dentro de um estádio de futebol, uma imagem quase utópica. Nesse dia, Gerry Armstrong, marcava, frente a Israel, o golo decisivo que qualificava a Irlanda do Norte para o Mundial-82, correndo, depois, para abraçar efusivamente o técnico Billy Bingham. O jogador era assumidamente católico, o treinador era devoto protestante. Esse momento marcou o inicio de um periodo, a década de 80, dourado para o futebol no Ulster, culminado com o apuramento para o Mundial-86, onde um elegante guarda-redes chamado Pat Jennings, glória do Arsenal, tornou-se uma lenda, ao atingir a sua 119ª internacionalização, no dia em que fazia 41 anos, apenas sendo batido pelo forte Brasil. Em 1982, Whiteside, com 17 anos, tornou-se o jogador mais novo a jogar num Mundial, sendo num ápice contratado pelo Manchester United, onde se tornou, igualmente, o mais jovem vencedor e marcador numa final da Taça de Inglaterra, em 1983. Nos anos 90, Belfast perdeu a alegria do futebol, agoniante numa fraca Liga, onde clubes como o Linfield e o Glentoran nunca atingiram projeção europeia. A selecção dos protestantes nunca mais voltou a atingir os indíces dos anos 80. Nos anos 90 e principio do sEC.XXI, os seleccionadores Brian Hamilton e Sammy Maclroy procuraram, refazer uma equipa orfã de grandes nomes, onde o jovem extremo Gillespie, jogador do Newcastle, é o de maior projecção internacional, depois de descoberto nos juvenis do Linfield, por observadores de Manchester, mas, apesar do esforço, nenhum deles conseguiu resgatar os dias de glória.

“Os meus jogadores não são os melhores do mundo, mas são os mais honestos”, disse, um dia, Jack Charlton. Com o fim do ciclo da girafa, como é conhecido “Big Jack”, foi, no entanto, difíci para Mick McCarthy, seu sucessor, construir uma nova equipa, em face do envelhecimento das estrelas, como os goleadores Cascarino e Aldrige, o central McGrath, o médio “duende” Roy Hogson e o “Keeper” Booner, que, durante a ultima década, escreveram as mais belas páginas do futebol irlandês. Será dificil voltar a formar um grupo tão unido como este que surpreendeu o mundo do futebol. A Liga da Irlanda fez, esta época, 75 anos. No inicio, em 1921, os 8 clubes inscritos eram todos da região de Dublin. Três quartos de século após, 7 dos 13 clubes da Liga, continuam a fazer parte da área da capital. Entre eles, o Bohemians, o único que participou em todas as edições, o histórico Shamrock Rovers, e o emblemático St.Patrick, que ostenta o nome do santo que, segundo reza a história, converteu a Irlanda ao cristianismo no ano 432. Clubes que, ao contrário da selecção, nunca passaram do anonimato europeu. O futuro está por construir. É a pensar nele que Dublin assistiu em 1998 ao regresso de um homem que quando menino aprendeu a jogar futebol nas escolas de St.Kevins: Liam Brady, outrora “maestro” do Arsenal, Juventus e Inter, nos anos 70/80. Ele regressou ás suas raízes, celebrando, como director do futebol jovem do Arsenal, um protocolo de apoio e incentivo ao futebol nas escolas da região de Dublin. Que futuro para esta Irlanda sofrida? A imagem diária de miudos com 10 ou 12 anos que enquanto jogam á bola nas ruas de Belfast, apedrajam os tanques do exército inglês que patrulha as ruas, augura uma nova geração de revoltados. O futebol na Ilha verde ultrapassa as fronteiras de um mero desporto, a sua evolução no tempo espelha as divisões das duas Irlandas sofridas, que, como se pode ler numa parede de Belfast, estão sempre “Prepared to peace, ready for war!”, preparada para a paz, pronta para a guerra. Irlanda!