As Gerações de Ouro

10 de Dezembro de 2001
É PROCESSO LABORATORIAL OU FENÓMENO ESPONTÂNEO?: A eclosão de uma chamada selecção de elite raramente surge em resultado de um processo científico. Fenómenos como o Brasil de 70, a Holanda de 74 ou a Itália de 82, terão de ser sobretudo entendidos quase como toques de mídas futebolísticos, mas ao observar hoje a explosão continuada do futebol francês e a geração dourada lusa conclui-se que nunca a palavra formação fez tanto sentido.
Em Itália, o Bologna, sagrou-se na ultima época campeão nacional na categoria Alievi, os nossos juniores, alinhando no onze titular nove jogadores estrangeiros! 3 brasileiros, 2 suecos, um ragazzo da Serra Leoa e 3 franceses, entre eles Fabre e Meghni, campeões do mundo Sub-17 pela França na passada semana. Apesar disso a Itália continua ter uma forte selecção sénior. Tal resulta sobretudo da quantidade de jogadores e da sua qualidade média, com um valor que permite formar sucessivas selecções sem hiatos bruscos entre cada uma. Quanto á eclosão de uma equipa de sonho só por um processo quase místico que, ciclicamente toca um país ela poderá surgir. Neste caso existem gerações de ouro e, digamos, gerações de diamante. O mesmo se aplica ao Brasil ou á Alemanha, grandes países de futebol, demográfica e desportivamente. Noutro plano, outros países de futebol, com menor campo de recrutamento, vivem longos períodos de hibernação e só explodem com a sábia intervenção humana. São os casos da Holanda, Portugal e, claro, a França onde as gerações de ouro são hoje produto de um processo quase científico, realizado nos centros de formação, um imperativo de todos os clubes profissionais, obrigados a constituir quantas equipas jovens, quanto o número de garçons inscritos. A captação é depois feita assistindo a essas centenas de jogos. É o único país onde existe o diploma de formador. No Auxerre, por exemplo, moram cerca de 3000 miúdos. No total são 27 equipas. 25 jogos por semana. Multiplicado por 40 semanas, faz cerca de 1000 jogos por ano. Segundo os regulamentos, em vigor desde 1972, a formação tem quatro fases contratualmente previstas: Aprendiz, Aspirante, Estagiário e, por fim, Profissional, onde se impõe que o primeiro contrato do jogador seja com o seu clube de formação. As primeiras equipas só podem inscrever 23 jogadores com contrato profissional no seu plantel. A partir desse número restam os jogadores dos centros de formação que realizem nesse ano o seu primeiro contrato profissional. Desta forma, para melhorar o elenco, os clubes são obrigados a investir na formação. Não se podem fabricar talentos, mas podem-se moldar mentalidades. É esse o segredo das gerações de ouro dos novos grandes países de futebol.

O ponta de lança no Futebol Latino

O futebol francês, como todo o futebol latino, nunca foi um futebol de pontas-de-lança. O seu design técnico-táctico sempre se estruturou num jogo apoiado e de passe curto. Um futebol de médios, chamam-lhe os críticos. A França viveu muitos anos sem um verdadeiro homem-golo. Alimentou o ego com o mítico Fontaine e vibrou com a geração Platini, prova da tese de que o bom futebol latino, se tacticamente coeso e rápido, pode, mesmo sem um grande ponta-de-lança (Lacombe e Six estiveram longe de ser grandes goleadores, e Rocheteau terá sido, talvez, o mais virtuoso), marcar golos e ganhar títulos. No anos 89/90 descobriu, por fim, um grande goleador – Papin –, mas que, no entanto, nunca explodiu na selecção. Durante o Mundial 98 utilizaram Guivarc’h, Dugarry, adaptaram Henry e acabaram campeões do mundo sem nunca encontrar o tal homem para quem olham quando a bola teima em não entrar, e todos sabem que só ele pode resolver o problema. Geneticamente, o ponta-de-lança é o homem solitário que vive destemido nos últimos 20 metros do campo e que sabe e adora jogar de costas para a baliza, em cunha entre os seus adversários. Quando este exemplar futebolístico surge no contexto de uma equipa ou selecção latinas, estas tornam-se temíveis aos olhos de todos. O típico avançado-centro latino, o clássico n.º 9, gosta antes de recuar dois ou três metros no terreno e jogar de frente para os centrais adversários. Gosta de entrar de trás, aparecendo quando a bola cai nas costas da defesa. É este o seu típico movimento táctico. Ao invés, o ponta-de-lança que assusta velhos e crianças joga de ambas as formas. Choca os defesas contrários e depois, vindo do nada, em espaços curtos, dois ou três toques, rematam e golo. Depois do enigmático eclipse de Anelka, a França descobriu este tipo de predador: Trezeguet, 22 anos, um felino com sangue argentino, sublimado num demolidor jogo de cabeça esta época lapidado nos relvados de Turim. Um estilo raro que descobre e revela a terceira dimensão do futebol latino.

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