As ilusões de Barcelona

6 de Fevereiro de 2008
O Barcelona é uma equipa em crise existencial. Apenas um mau momento ou já o espelho de um final de ciclo? Os próximos jogos (na Liga e na Champions) serão decisivos para o entender
Há quem defenda que as equipas têm um período de vida marcado desde o início, como um ser vivo colectivo, nascem, crescem, atingem o auge, começam a definhar e morrem. Atingem então o chamado fim de ciclo. É um pouco verdade. Pela natural erosão tempo, pelo desgaste das relações e motivações. É um ponto de partida para analisar o actual Barcelona, uma equipa em crise existencial. No jogo, como se vê no relvado. Fora dele, como se pressente das depressões de Ronaldinho. São, no fundo, duas faces do mesmo problema. Esta é já a quinta época de Rijkaard no Barça. A chegada de Henry recriara novos ideais de futebol bonito. Era o sonho do quarteto mágico Messi, Ronaldinho, Eto`o, Henry. Para além deles, no banco, mais dois craquezinhos: Bojan e Giovani. Cedo, porém, se percebeu que é impossível conciliar essa ideia de equipa e manter ao mesmo tempo um equilíbrio táctico susceptível de aguentar o embate com o rigor do futebol moderno. Pode ser cruel, mas as bases das grandes equipas já não estão neste tipo de jogadores. O Barcelona começa a perceber isso nos últimos jogos, vendo como o protagonismo táctico regressa a jogadores como Iniesta, Touré, Marquez, Xavi ou Deco. Em geral, deste grupo sai o trio do meio-campo. Depois, na frente, a anarquia posicional impede a solidificação dos princípios ofensivos. No último jogo, contra o Osasuna, Henry, Bojan e Messi passaram pelos três espaços do ataque, faixas e centro, mas só quando Xavi entrou a equipa agarraria o jogo, numa altura em que Deco, o jogador mais sacrificado nesta nova hierarquia táctica (hoje mais preso ao momento defensivo quando antes surgia mais no ofensivo) já acusava o desgaste de, junto com Iniesta, carregar com o peso das transições a meio-campo. O 4x3x3, no futebol de top, é um sistema sobrenatural para a normal dimensão física dos médios. Para ser competitivo internacionalmente pede quase uma espécie de super-médios todo-terreno. No plano técnico, táctico e físico. Não é fácil. Por isso, Iniesta, Xavi e Deco, respiram melhor quando atrás de si, no lugar de pivot-ofensivo, surge um jogador mais agressivo como Yaya Touré. Dificilmente, porém, este Barça poderá agora mudar de sistema. Rijkaard ensaiou-o contra o Real Madrid, desenhando um falso 4x4x2 com Eto`o a no centro e Ronaldinho aberto na esquerda ficando no «4» do meio-campo, Touré (trinco) Iniesta e Xavi interiores e Deco entre-linhas mais subido. O flanco direito era ocupado sobretudo pela mobilidade de Eto`o. O onze sentiria sempre a falta de rotinas para jogar nesses princípios e perdeu o jogo sem nunca o controlar. Pode custar para os românticos, mas penso que aquele ataque de sonho precisa de alguém que saiba defender. Um jogador feio como Gudjohnsen mas perfeito para o futebol moderno. Seria como driblar o fim de ciclo.

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