AS ILUSÕES DE MANCHESTER

4 de Setembro de 2004
REFLEXÕES EM TORNO DA CRISE DE JOGO DO MANCHESTER UNITED E DA CONTRATAÇÃO DE ROONEY. Apesar da intensidade de todos os jogos, a verdade é que, no actual futebol inglês, existe um fosso a separar duas equipas das demais: o Chelsea, pela superior cultura táctica defensiva revelada, e o Arsenal, pela máquina de futebol ofensivo que é. São os grandes candidatos ao titulo, numa luta da qual se afasta o Manchester United, afundado numa crise de estratégia táctica que atinge o seu modelo de jogo.
A saída de Beckham ditara que o ciclo geracional chegara a uma fase de transição A vinda de Rooney resgatou o entusiasmo, mas os problemas são mais profundos e moram no déficit de qualidade defensivo e na falta de fluidez na transposição da bola entre as três linhas. Na defesa, Ferguson anseia pelo regresso de Ferdinand. Sem ele, todo o sector perdeu segurança. Keane recuou para central, mas o único que se conseguiu com esta alteração foi tornar o meio campo mais fraco, pois perdeu a grande referência na distribuição de jogo. Uma carência agudizada pela saída do melhor médio defensivo inglês, Butt, transferido para Newcastle. Assim, surgiu central O`Shea a trinco, ao lado de Djemba-Djemba. Uma dupla sem classe. O`Shea não tem cultura do lugar e ao camaronês falta de profundidade de jogo. Como tem jogado num 4x4x2 em linha, desta forma, o inicio do circuito preferencial de jogo fica logo condenado, o que seria diferente, por exemplo, com Keane e Butt. Neste cenário, há um jogador-chave: Kleberson. Muito do sucesso desta época depende do seu rendimento e eficaz utilização. Para isso, terá de jogar no corredor central e não descaído para um flanco, como sucedeu nos últimos jogos Nas manobras ofensivas há uma questão de fundo no sistema que trava o melhor médio-enganche ofensivo, Scholes, de brilhar. A seu melhor posto é no centro, atrás dos avançados, entrando de trás, mas, como o onze joga sem rombo, ele descaí para um flanco, desgastando-se, depois, em diagonais sem objectividade. Por outro lado, com dois extremos puros (Giggs-Ronaldo) que defendem pouco, é importante os alas fecharem os flancos pelos menos até ao meio campo. Falta no entanto astúcia, a Neville, por uma questão de cultura de jogo inglesa, e a Stapleton, pela inexperiência dos 19 anos, para essa dinâmica posicional, acabando o onze por sofrer muito nos contra-ataques dos adversários pelas faixas, onde abundam espaços vazios. Como com Rooney-Van Nistelroy, o onze vai abandonar o 4x1x4x1 preferencial do passado e optar pelo 4x4x2, toda estas equações defesa-meio campo são cruciais. Pode-se ter os melhores avançados do mundo, mas sem defesa forte e pressing alto, nenhuma equipa resiste hoje ao mais alto nível. É esta a grande diferença entre o Manchester de Ferguson e o Chelsea de Mourinho.

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