Em Itália, chamam-lhe objectos misteriosos. É a forma de se referirem aqueles jogadores que chegados de longe não conseguem depois, nos duros relvados do Calcio, mostrarem o seu futebol. Tiago vive hoje nessa zona nublada na Juventus. Depois de passear o seu valor no Benfica, Lyon e Chelsea ficou aprisionado numa das muitas jaulas tácticas que abundam no futebol italiano. Não é, por isso, uma equação táctica complicada perceber as razões de Tiago não se soltar na Juventus. O seu melhor lugar é como um dos médios interiores no vértice avançado de um meio campo em triângulo só com um pivot-defensivo.
Ou seja, no centro de um 4x3x3. Assim, sente as costas protegidas por um trinco forte e depois, de perfil com outro médio culto, faz as transições defesa-ataque-defesa. Foi assim, com as linhas próximas, que brilhou no Lyon, à frente de Diarra, e a lado de Juninho. Tal como fez no Chelsea. Na Juventus de Rainieri, entrou num 4x4x2 clássico em linha e com grande distância entre-linhas como um dos membros de um duplo-pivot central. Deixou de ter apoios para jogar curto, tocar e desmarcar-se, numa progressão apoiada, até à entrada da área, para ter à sua frente um corredor inteiro para percorrer, seja em posse, seja à espera de um passe, seja na recuperação. Não é este o habitat indicado para o futebol de Tiago. Assim, fica fora dos timings do jogo, ritmos e espaços. Melhorou quando jogou mais subido como o médio mais avançado num 4x3x1x2 ou quando Rainieri (frente ao Nápoles) optou por um 3x4x1x2 e Tiago jogou solto entre-linhas. A Juventus começou a época com Nocerino e Zanetti no duplo-pivot. Era uma transição mais organizada.
Agora, num 4x4x2 em linha, opta por uma dupla nova que revolucionou o seu jogo: Sissoko-Camoranesi. Complementam-se muito bem. Sissoko mais na recuperação, já percebeu que não pode fazer em Itália os mesmos tackles que fazia em Inglaterra. Camoranesi, ala de origem, dá velocidade à saída de bola, lê os ritmos do jogo e depois descai muito bem na faixa, rompendo, como no golo que marcou frente ao Inter. Neste cenário, Tiago fica cada vez mais longe da equipa. Manniche também caiu numa jaula táctica semelhante no Inter. Também num 4x4x2 clássico com grande distância entrte-linhas. É, no entanto, um jogador mais rotativo do que Tiago pelo que sabe libertar-se desse espaço com maior destreza táctica de movimentos. Já passara, aliás, um pouco por isso no At.Madrid. Tiago pensa muito melhor o jogo do que Sissoko ou Zanetti, falta-lhe a mesma capacidade de manejar os espaços. Uma prisão táctica com reflexo na selecção nacional, da qual Tiago, encarcerado no sistema Ranieri, vive cada vez mais longe.
