Construir a equipa e a táctica. Sistemas diferentes, forças e fraquezas. Visita táctica guiada às ideias (duvidas e certezas) de Jesualdo, Bento e Jesus.
FC PORTO
O factor-Hulk
As equipas não são os seus melhores jogadores. Mas, o que jogam, em campo (mais ou menos) está directamente ligado a eles. É natural e sucede nas melhores famílias futebolísticas, de Manchester a Madrid, de Milão ao…Porto. Isso não quer dizer, porém, que elas fiquem dependentes dessas estrelas maiores. A grande missão do treinador, aquele pensa sempre primeiro no colectivo, é colocar esses melhores jogadores, ou com condições naturais mais impressionantes, inseridos nessa lógica de plano de jogo global. E, mantendo uma liberdade táctica condicionada em campo, fazerem de cada explosão individual um serviço colectivo. Foi nesse sentido que Hulk cresceu na passada época. No inicio, tinha o que natureza lhe dera (velocidade, força, técnica, explosão). No fim, tinha isso, mais o que construiu com o treinador (critério de movimentos, mais visão colectiva, passe, desmarcação). Ainda precisa melhorar, claro, mas este exemplo de como os jogadores não crescem sozinhos, mostra como antes deste talento nato, as grandes equipas dependem sobretudo das boas ideias colectivas que têm. É isso que as agarra ao campo e onde se abrigam nos momentos mais difíceis. O pior que pode acontecer a uma equipa será isto não se ver em campo. Sentir-se que o colectivo não tem bases, uma moldura sólida e, então, é mesmo quase só a “natureza” do jogador a resolver (ou tentar resolver) os jogos.
O «motor» Meireles
Houve quem detecta-se este aspecto em alguns jogos do FC Porto na pré-época tal a influência individual e explosiva de Hulk em muitos lances (com golos). Não é caso para tanto. Diria, antes, que se o mesmo fosse visível de igual forma daqui a três meses, então sim, tal seria preocupante. Neste momento, com a equipa em reconstrução (na defesa, entra um novo lateral (Pereira) e um central (Maicon ou Nuno A.Coelho), no meio-campo, um novo médio (Belluschi), na frente, saiu a referência central (Lisandro) e ainda á espera dos reforços (Falcão), e de Rodriguez, afinam-se movimentos. Por isso, mantendo a intenção dos mesmos princípios de jogo (parte do 4x3x3, com três avançados móveis, só um deles mais fixo na ala, e, no decorrer do jogo, sobretudo nas transições, recua um deles, para fazer o meio-campo com quatro elementos) os jogadores, novos e velhos, no processo de conhecimento mutuo, ainda estão a conhecer-se no plano colectivo do jogo. Uma noção completa de equipa onde hoje existe um jogador muito mais “importante” para a garrar: Raul Meireles. É ele, e não Belluschi (um 10 disfarçado) a fazer o papel de Lucho sem perder a sua natureza táctica anterior de rotação total defesa-ataque-ataque-defesa, com ocupação dos espaços e passe, atrás e à frente.
Passar esta fase inicial, é entrar noutro patamar de construção da equipa. Onde Hulk pode parecer menos explosivo. E, até impressionar menos adeptos e critica. Mas, onde é sem dúvida, muito mais importante para a equipa. Jogará ele melhor. Jogará melhor a equipa. Uma dependência mutua que faz o futebol, jogadores e equipas.
SPORTING
A «bíblia» do losango
As épocas passam e o Sporting de Paulo Bento (versão IV) permanece fiel ao seu habitat táctico. O 4x4x2 losango. Como principal qualidade, a cultura de posse de bola, com capacidade de a fazer circular, mantendo as linhas sempre equilibradas do ponto de vista defensivo. Como maior debilidade, a dificuldade em reconhecer espaços de penetração pelos flancos e a lentidão na saída para o ataque (transição ofensiva). Não é difícil um adversário prever como vai jogar o Sporting. Mesmo durante o jogo, a equipa raramente encontra outras vias tácticas, exceptuando, em fases de risco máximo, quando passa a jogar com a defesa a «3». No passado, ficou a tentativa falhada, no inicio da época transacta, de jogar também na variante clássica do 4x4x2, com dois médios-centro. Desta forma, a única forma de Bento mexer no sistema é mexendo nas características dos jogadores. Com Izmailov na faixa esquerda, ganha um excelente flanqueador. Com Pereirinha, sobre a direita, ganha o médio capaz de lhe dar maior profundidade de jogo, algo que Vuckcevic também tenta na esquerda, embora também procure depois zonas centrais. A dificuldade em explorar os flancos torna-se mais evidente em jogos em casa, frente a adversários mais fechados. Depende então muito dos laterais, sobretudo das subidas de Abel (ou até Pedro Silva), para, na direita, ir à linha e procurar o cruzamento. Na esquerda, entre Caneira (mais posicional) e Grimi ou o renascimento de André Marques, procura sobretudo garantir cobertura para deixar o outro lateral subir no flanco oposto.
Como evitar a “cristalização”
Sendo Veloso ou Rockembach jogadores estruturalmente lentos, a posição 6 (médio-centro, vértice recuado do losango) fica sempre condicionada. Por isso, a lentidão na saída para o ataque. Só quando Moutinho joga nessa posição, a equipa sai mais rápida. Com rotação alta permanente do primeiro ao ultimo minuto, Moutinho é vagabundo criativo que vagueia por todas as posições do losango, de nº6, atrás, a nª8, na ala, até nº10, na frente, onde, extinto Romagnoli, surge agora Matias Fernandez. É um chileno com finta e mudança de velocidade mas ainda longe de entender as trocas posicionais (faixa-centro-faixa) que esta posição exige no sistema de jogo do Sporting. Uma coisa é fazê-la com dois alas a seu lado, outra é sozinho, como vértice ofensivo do losango. Uma questão de aculturação táctica que só o tempo dirá se o chileno é capaz.
No ataque, o levezinho Liedson, ganhou peso com Caicedo, um avançado robusto que pode dar outro rosto aos movimentos ofensivos do Sporting. Forte no choque, cobrindo a bola, embora sem ser muito móvel, mas com facilidade de remate, pode ser um bom complemento para Liedson, mais solto e capaz de ir à faixa e regressar sempre com visão de desmarcação.
Mais preocupante do que não saber jogar noutro sistema, é a incapacidade de, durante o jogo, jogar, no mesmo, de forma diferente. Depende demasiado da inspiração táctica individual para lhe dar vida a atacar.
BENFICA
O «triângulo» criativo
O Benfica tem um novo treinador que passa 90 minutos de pé junto à berma do relvado. Jorge Jesus trabalha a táctica emocional (na forma como grita com os jogadores, treino e jogo, corrige posições, exulta ou protesta) como a dos sistemas (olha para o campo como para um tabuleiro de xadrez e mexe nos jogadores como em peças). É a ruptura total com a fórmula Quique. Na relva, continua um esboço de 4x4x2 mas num desenho diferente. Terminou a clássica versão espanhola com duplo-pivot (dois médios plantados à frente da defesa) e surge um 4x1x3x2 que engana os adversários com a ilusão de que é um losango. Não é. O Benfica de Jesus joga com um médio-defensivo clássico, mais trinco que pivot (pois serve sobretudo para as referências defensivas de todo o sector e espaço) e três “meias” (médios que se soltam e passam a ser quase segundos avançados). É nesse momento que o “meia” central (Aimar) se solta, avança mais no terreno e surge próximo dos dois avançados. Nessa altura surge a ilusão do tal losango. Na origem porém, a “casa táctica” do meio-campo é um triangulo gigante que se abre a toda largura do terreno.
Impressiona a intensidade alta de jogo com que a equipa entrou na pré-época. Veremos como reage no seu decorrer. Aimar é um elemento fundamental no equilíbrio deste jogo (posicional e dinâmica), tal como Javi Garcia é a âncora que a orienta quando perde a bola e tem de defender. Um trinco que pede a David Luiz que se assuma mais na saída de bola, desde um eixo central defensivo onde Luisão é o central ideal para tirar as bolas mais perigosas (pela terra ou pelo ar) quando a equipa, pressionada, for obrigada a defender mais atrás.
Os rebeldes do ataque
Com a dupla de ataque capaz de dar diferentes caras ao jogo ofensivo (Velocidade de Saviola dá muita profundidade e Cardozo, mais fixo, tem um remate forte e apoia muito bem no passe com visão) procura ganhar consistência nas faixas, onde os extremos podem ser, bem mecanizados, o melhor amigo do médio centro. Para receber passes ou fazer troca posicionais. Di Maria é um jogador de “picos”. Tanto faz uma jogada estonteante como desaparece. Um pouco como Fabio Coentrão que, com outra “cabeça”, seria um jogador fabuloso, dos melhores do futebol português. Carlos Martins, que também pode jogar no centro, é outro caso de instabilidade competitiva, mas sobretudo no plano emocional. Mais difícil será encaixar Ramires nessa posição demasiado encostado à linha, pois não é um ala. É mais um interior que gosta de cair na faixa, o que é muito diferente de estar sempre lá.
É uma questão táctica em aberto, onde os laterais são fundamentais, pois na origem o sistema não tem extremos, mas antes médios-ala que se soltam. Na direita. Maxi Pereira continua fundamental, Não lhe peçam é fintas e diagonais. Joga quase sobre “carris”, defende-ataca, sobe e regressa. Na esquerda, Schaffer tem conceitos de jogo, isto é, sabe colocar-se, mas precisa de ganhar robustez competitiva do futebol europeu. &
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