Distante dos aguerridos anos 80, quando logrou dois apuramentos consecutivos para o Mundial (82 e 86), com uma geração onde estavam figuras como Armstrong, Mcllroy, Whiteside, O'Neil e o lendário guarda-redes Pat Jenings, a Irlanda do Norte é hoje, no cenário do futebol, internacional, uma mera sombra errante desse glorioso passado, no qual, em tempos mais remotos, nos anos 50/60, moram os grandes mitos da sua história, Best e Blanchflower. Tudo isto parece hoje cada vez mais longínquo.
Mergulhada numa profunda crise de valores e resultados, a Irlanda passou quatro anos sem ganhar qualquer jogo a nível internacional. Durante esse período, bateu o indesejado record de estar doze jogos consecutivos, 1.298 minutos, sem marcar qualquer golo, terminando a fase de apuramento para o Euro-2004 com o gol-average de 0-8, apesar de ter no banco exactamente um dos heróis da década de 80, Sam Mcllroy.
David Healy, o novo herói

Esta catastrófica série de resultados seria quebrada, em Setembro ultimo, já na recta final do apuramento para o Mundial 2006, quando quatro anos depois de bater Malta, em 2001, a selecção irlandesa voltou a ganhar um jogo, em casa, frente ao Azerbeijão, por 2-0.
No leme da equipa já estava, porém, Lawrie Sanchez, o milagreiro que devolveu o orgulho ao futebol do Ulster. Aos poucos, a metade norte da Ilha verde começa a dar ténues sinais de recuperação. O inicio de um novo ciclo confirmado, dias depois, com a histórica vitória sobre a Inglaterra, 1-0, em Belfast, o que não sucedia desde… 1927!
O feito elevou à categoria de herói o seleccionador Lawrie Sanchez e, sobretudo, o avançado David Healy, autor do solitário golo e, para muitos, o melhor jogador irlandês da actualidade. No presente a jogar no Leeds, após várias épocas no Preston, Healy, formado no Manchester United, apenas falhou um jogo da selecção ao longo de cinco anos e meio, quando estava suspenso.
Não é o típico avançado que se limita a jogar entre os centrais, procurando também rasgar pelos flancos. Com 26 anos, ele é o melhor marcador da história da Irlanda do Norte (19 golos em 48 jogos).
Hughes, Elliot, Quinn,
Taylor e o velho Gillespie

Actualmente no 111º lugar do Ranking FIFA, a Irlanda do Norte busca encontrar novas referências para construir o futuro do seu futebol. Quase todos os jogadores provêm de clubes das divisões secundárias do futebol inglês. Embora sem grandes estrelas, a estrutura base do onze tem, nos três sectores, jogadores chave para a sua construção.
Nesse sentido, a defesa é, claramente, um dos principais problemas para Lawrie Sanchez, pois vendo o habitual onze titular, apenas é pacifico classificar o central Aaron Hughes, titular do Aston Villa, como um jogador de nível internacional. Seguro no corte, exímio no jogo aéreo, sabe tocar a bola e, com perfeito sentido posicional, ganha muitos lances em antecipação. A seu lado, costuma jogar Stephan Craigan, do Motherwell, da Escócia, um central muito sólido e decidido nas bolas divididas.
Com Braid e Capaldi nas laterais, a maior experiência reside entre os postes, onde está o veterano guarda redes Maik Taylor, nascido na Alemanha, titular da baliza do Birmingham, com grande presença e segurança, mesmo na saída aos cruzamentos. A outra opção para as redes é o irregular Roy Carrol, ex-suplente do Manchester United, esta época emprestado ao West Ham. Estava a ser utilizado, até que uma lesão o afastou da equipa.
Gillespie e as referências do meio campo

No meio campo, funcionando muitas vezes como um verdadeiro extremo, a grande figura continua ser o veterano ala direito Keith Gillespie. Aos 30 anos, muitos ainda se recordam dele como o promissor miúdo que, formado no Manchester United, serviu, quando começava a explodir na primeira equipa de Alex Fergusson, como moeda de troca na transferência de Andy Cole de Newcastle para Old Trafford. Embora mantendo os traços do seu futebol, veloz pelo flanco direito, procurando a linha e executando sucessivos cruzamentos, Gillespie não atingiu, nas épocas seguintes, a dimensão que o seu início tanto prometera. Terá lhe faltado trabalho táctico-técnico especifico e hoje, no Shefield United, como na selecção, limita-se alguns episódicos rasgos individuais. Nota-se, porém, que tem, na essência, um trabalho de escola mais desenvolvido.
Outras referências do sector são Damien Johnson, do Birmingham e Steve Davis, do Aston Villa. Johnson é um dos jogadores mais talentosos da equipa no plano técnico, destacando-se nos passes longos. Davis, com apenas 20 anos, é uma das maiores promessas do futuro futebol irlandês.
Elliot e os solitários do ataque

Para além de David Healey, o outro avançado mais credenciado é o experiente James Quinn, 31 anos, um avançado de grande carácter que se move por toda a frente de ataque. Chegou a jogar na Holanda no Willem II e actualmente está no Bristol City.
Outra opção ofensiva é Feeney, ponta de lança do Luton Town, que após ter sido uma aposta firme de Mcllroy, regressou à equipa com Sanchez, após longa ausência, no jogo com a Inglaterra.
A principal expectativa para o jogo com Portugal reside, porém, na possível estreia de Peter Thompson, o jovem avançado revelação do Linfield, pelo qual fez, esta época, na Liga irlandesa, 16 golos em 18 jogos.
O grande elo de ligação entre o meio campo e o ataque é Stuart Elliot, muito dinâmico a entrar de trás, descaindo sobre o flanco esquerdo. Está há quatro épocas no Hull City, II Divisão inglesa. É o grande responsável pela criatividade ofensiva do meio campo irlandês.
O histórico onze que venceu a Inglaterra
(4x4x2)