Há quem defenda que o belo futebol espanhol apoiado só existe porque existem exemplares como Xavi e Iniesta. Ou seja, que o estilo espanhol (posse-passe) é afinal, apenas o espelho das características dos seus principais jogadores. Ver jogar La Rojita (como os espanhóis tratam a sua selecção Sub-21) coloca o debate no local certo. A origem de tudo é uma ideologia de jogo definida e construída desde as bases, que molda um estilo (jogo e treino). Não estão Xavi e Iniesta, mas está a mesma cultura de jogo e, nessa linha de evolução entre os diversos escalões, vão surgindo jogadores capazes de a interpretar. Penso nisto vendo, nos Sub-21, a classe dos médios de toque, segura e passa (posse paciente buscando espaço de penetração) como Tiago e Ander, enquanto na frente se assiste à mutação posicional (conceito superior às simples trocas posicionais) dos três avançados Muniain, Adrian e Mata (não procurem o nº9. Pela lógica seria Adrian, mas pode ser qualquer um deles).
Mas o maior elemento de prova da importância da ideia é….Javi Martinez. Pivot único com o perfil de trinco à moda antiga, filtra essa natureza à medida que se aproxima das jogadas e transforma-se numa espécie de piranha elegante que devora adversários. No passado, com esse sangue, seria hoje mais um médio da fúria para arrancar tufos de relva. Hoje, mantem a agressividade táctica (em antecipação) de recuperador, mas incorpora também a qualidade de jogo em posse, passando a pensar como os demais (toque e passe). Olhando o futuro da selecção principal, estará nele o upgrade físico que, mantendo a cultura de posse-passe, pode tornar o onze espanhol mais forte perante os tais adversários que para travar o seu circuito de jogo começam, agressivos, a pressionar muito mais alto.
A final, contra Suíça pode ser, olhando o estilo helvético também com raízes profundas de construção, um belo choque cultural. Os suíços, históricos devotos da aprendizagem táctica, têm hoje um estilo que partindo da velha segurança defensiva, ganhou largura a atacar, sempre com extremos bem abertos, mas em flancos trocados: o canhoto, Shaqiri na direita procurando diagonais para remate e Emegharra, destro na esquerda, mais vertical. No meio-campo, forma antes um triângulo com um pivot fixo (Lustenberger) e solta dois elementos de transporte. É quando surgem Hochstrasser, Frei ou Xhaka (vindo dos Sub-17 campeão do mundo 2009) este mais refinado, com a dinâmica de uma pantera cor-de-rosa, a servir o nº9 fixo (Mehemedi) centro do ataque onde, ao invés da Espanha, não entra o conceito das trocas posicionais. Em comum, porém, o mesmo respeito pela bola e pelo… tratador da relva.