As piranhas tácticas comem o jogo

September 12, 2011 9:51 AM
O que pode fazer uma equipa mudar tanto da primeira para a segunda parte? Velocidade, receio e pressão.

 

Podiam existir muitas formas de traduzir numa simples frase o que sinto ao ver jogar o Benfica, no melhor e no pior, mas a que melhor o poderá traduzir será esta: quando as jogadas não são rápidas, parece que lhe faltam ideias. Ou seja, uma equipa não se mede pela velocidade a que joga, mas sim pela velocidade a que pensa. O entendimento veloz do jogo encarnado tem, por isso, quase uma espécie de lado lunar, quando o ritmo baixa e os mesmos jogadores parecem, subitamente, sem o mesmo oxigénio futebolístico que lhe permite respirar.
 
O último jogo na Madeira voltou a suscitar esse sentimento. Uma reflexão nascida de uma questão existencial que se estendeu às duas equipas: o que pode fazer uma equipa mudar tanto da primeira para a segunda parte? Falo, claro, sem fazerem uma alteração no onze. Neste caso, foram mesmo as duas. Benfica e Marítimo. Não é só uma questão de atitude mental. No caso do Marítimo, o receio com que entrou em campo como moldura emocional de um sistema de jogo (em 4x3x3) que se transfigurou sem mudar um único jogador. Sem receio, apenas mudou os locais por onde corriam. Pressionar para jogar em vez de jogar para pressionar. Eis a alteração da ordem das mesmas palavras (jogar-pressionar) que, por si só, mudou o chip táctico-mental de Souza-Olberdam e Rafael Miranda, o trio insular do meio-campo, espécie de piranhas de bola e espaços no corredor de relva central.
 
Tenho a convicção que a forma como uma equipa entra na segunda parte (e os primeiros quinze minutos desta) é um dos melhores meios para avaliar a força e qualidade do discurso táctico-estratégico, competitivo e mental de um treinador perante o seu onze pois é quando este ainda joga com o impacto das suas palavras bem presente na cabeça. Estará aqui uma das melhores respostas para decifrar os tais enigmáticos processos de transformação de uma parte para a outra. Os mesmos jogadores com outra cabeça. Sucedeu com o Marítimo de Pedro Martins.
 
Não está nesse ponto, porém, os mistérios da transformação do jogo benfiquista embora muitas vezes a equipa pareça em campo tacticamente demasiado com o nariz no ar, sem a plena convicção do mal que lhe pode acontecer. Parece quase um paradoxo, mas a sua maior dificuldade é controlar a velocidade…lenta. Momentos em que necessita do refúgio táctico do seu nº6, trinco-pivot estilisticamente miscigenado, Javi Garcia, e do aconchego do guardador de bolas, Aimar. Em alta velocidade, as ideias quase que ultrapassam o próprio jogo (adversário incluído).
 
A maioria das equipas dá um passo atrás quando está a ganhar e um passo à frente quando está a perder. Muitas vezes trata-se de puro instinto. Nada de muito táctico. Nas melhores equipas, porém, está confirmado: nada é imprescindível. Quando se pressente que, de repente, a equipa pode ficar repleta de pensamentos inúteis, o melhor é aumentar de velocidade.  

 

 

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