Quando, nos anos 60, Bill Shankly, mítico treinador escocês que fez o grande Liverpool, recebeu Jock Stein, outro mito escocês dos bancos, após ele ter ganho a Taça dos Campeões Europeus pelo Celtic (batendo na Final o Inter por 3-1) apenas lhe disse com solenidade: “Jock, a partir de agora, tu serás imortal!”. E foi, de facto. Stein, “o homem que fazia as coisas acontecerem”, morreria mesmo em pleno banco, quando era seleccionador da Escócia, num jogo frente a Gales, em 86. Esta subida à imortalidade futebolística só se conquista, porém, com o maior triunfo que um treinador pode obter a nível de clubes. A actual Champions segue a mesma linha de pensamento. Mourinho e Van Gaal já têm esse lugar na eternidade vindo de épocas anteriores e em clubes onde isso parecia quase “impossível”. Van Gaal no Ajax, 95, Mourinho no FC Porto, 2004. Mas querem mais. Ambos com processos de construção invulgares, que a dado momento se cruzaram, mas sempre muito diferentes entre si.
Saído das profundezas do mais cinzento futebol português (onde os treinadores são despedidos com um telefonema que interrompe um almoço na véspera de Natal – o acontecimento que mais marcou o filho Mourinho quando viu isso acontecer, em meados dos 80, com o seu pai) Mourinho abriu fronteiras (na mente e no treino) vagueando por escolas diferentes. A tradicional inglesa, fightint spirit e ataque, de Robson. A metódica holandesa, tácticas e disciplina em campo, de Van Gaal. Se Robson foi o lado emocional, Van Gaal foi a ciência. Um general do treino para quem o futebol pode ser dissecado como um batráquio numa aula de biologia, estratégias e exercícios de treino, tudo em especificidade, mas que, num dado momento da cadeia de evolução, deixou de seduzir o “aprendiz” Mourinho que, a certa altura, sentiu que podia fazer as coisas “de forma diferente”.
A “filosofia Van Gaal” ficou, porém, em muitos traços do pensamento Mourinho. A importância capital da preparação prévia do jogo a partir do estudo do adversário, a estratégia baseada num forte processo defensivo a todo o campo e os blocos de notas, os inúmeros rabiscos feitos durante os jogos, método iniciado pelo “General laranja”. Hoje, porém, existe um abismo a separá-los.
Van Gaal, mais velho, ganhou de formas diferentes em locais diferentes. O seu Ajax campeão europeu foi feito com promessas que jogavam ainda com uma “casca de ovo na cabeça”. Seedorf, Kluivert, Davids e um “avô” em fim de carreira, Rijkaard. Depois, em Barcelona, com super-estrelas, impôs a sua disciplina, pondo de lado Rivaldo (“porque só acredito no talento se dentro dele também estiver o homem com vontade de aprender”), foi, a seguir, campeão holandês pegando numa modesta equipa do meio da tabela, o AZ, e, agora, em Munique, recendeu o monstro bávaro na Europa.
Mourinho faz as equipas de forma diferente. Procura os “seus jogadores”. Homens que o sigam até à berma do precipício. E, se for preciso, saltem com ele. Uma atitude que também gere a sua equipa técnica. Em vez de fazer jogadores, procura despertar neles instintos e forças escondidas. Foi assim, a níveis diferentes, no FC Porto e Chelsea. Ganhar o campeonato italiano com o Inter era quase uma “formalidade obrigatória”.
O grande passo para a eternidade está na Champions, o título que foge ao Inter desde 65 (há 45 anos) quando no banco ainda estava um treinador mescla de mago e diabo, Helenio Herrera, inventor do catenaccio, avançado no tempo a todos os níveis, no estilo, poder da imagem, tácticas e jogos mentais. Tal como Mourinho, afinal. Ao eliminar o Barcelona do futebol bonito, através de uma estratégia defensiva que fechou todos os caminhos para a baliza, aumentou ainda mais a carga dramática do seu futebol, entre a “diabolização” (dos que viram o triunfo de uma ideia de jogo repressiva) e a admiração (dos que viram uma grande estratégia táctica).
Não faz sentido, porém, falar no perigo do triunfo do “futebol defensivo”. Qualquer grande equipa no futebol actual tem de ser muito mais do que só uma atitude no jogo. As melhores são mesmo as que confundem os conceitos mais básicos e na importância que dão à bola, muitas vezes da forma mais estranha. Defendem bem quando a têm na sua posse e atacam melhor quando a perdem. Estranho? Nem por isso. O segredo está em adivinhar o que o adversário vai fazer quando ela mudar de dono e, noutro prisma, saber previamente o que fazer (movimento) quando ela voltar aos nossos pés. É o moderno futebol-total.
INTER
PLANO DE JOGO
A derrota, na época passada, frente ao Manchester, disse claramente o que a equipa precisava na dimensão internacional: dois fortes defesas-centrais; um especialista em bolas paradas, elemento que pode fazer a diferença; um médio capaz de ter a bola e um ponta-de-lança para as grandes ocasiões, daqueles que em faça pelo menos um golo em cada duas oportunidades. Nesse sentido, chegaram Lúcio (para chefiar a defesa), Sneijder (para controlar criativamente o meio-campo), Pandev (para livres e força a atacar) e Eto`o e Milito (avançados que raramente falham). Inteligentes, juntaram-se a Cambiasso, o médio que rouba todas as bolas que passam à frente da área, Samuel (o outro central, renascido como “muro”) Maicon, uma “locomotiva” em forma de latral-direito. Como alma-mater, Zanetti (lateral ou médio) o polivalente que parece especialista em qualquer posição onde jogue.
O sistema é, no papel, um 4x3x3. Na relva, ele move-se. Mantêm sempre dois homens à frente da defesa e com Pandev a recuar pode tornar-se um 4x2x3x1 que a atacar, solta um avançado da faixa para o centro (Eto´o) e já parece 4x4x2. Noutras ocasiões pode tornar-se num 4x3x1x2, com mais peso (mais um médio) a meio-campo, soltando as feras Milito-Eto´o na frente, apoiados por Sneijder. Um jogo táctico que tem como bases a força mental e o rigor total na ocupação dos espaços.
BAYERN MUNIQUE
PLANO DE JOGO
Começou a época com muitas dúvidas, hesitou tacticamente, perdeu jogos, testou jogadores, mas manteve sempre a frieza. Sem nunca mexer um nervo da face, reconstruiu o carácter da equipa desde as bases e ganhou a Bundesliga e a Taça. Sem pestanejar. O jogador-chave para levar a equipa até outra dimensão (a das grandes fintas, velocidade, arranque e grandes remates para golo) é Robben, o “holandês-voador”. Parece um mero extremo mas é muito mais do que isso. É um avançado-total, um “protótipo” do futebol holandês. Sem Ribery, é ele que faz a equipa voar. A ponta-de-lança, um croata que parece quase sempre não ir controlar a bola (parece que luta mais do que joga) mas que, depois, encontra sempre forma e espaço para rematar. É Olic. A meio-campo dois monstros: Van Bommel, incansável, e Schweinsteiger. Só o nome mete medo. Cada passada sua deixa um buraco na relva.
O sistema de jogo de Van Gaal? Depende muito. Do 4x3x3 do Ajax, passando pelo 3x2x3x2 de Barcelona (com Guardiola, médio-centro farol da equipa), até ao 4x4x2 do AZ e Munique, também reciclado em 4x2x3x1. O principal problema estará na defesa, forte mas algo lenta (centrais altos e laterais baixos) e na falta de um grande médio-centro, lugar onde Van Gaal adaptou Muller que de origem é ala-direito.





