Pouco mais de um ano depois de ter defrontado Portugal em Génova, no jogo de estreia de Scolari á frente do onze luso, Trapattoni ainda é um homem preso a vários dilemas na formação da equipa e seu sistema táctico. Durante a fase de apuramento, utilizou, preferencialmente, o 4x3x1x2, com uma clássica dupla de pontas-de-lança (Vieri-Inzaghi) e alicerçando o meio campo em três médios de contenção. Muitas vezes, porém, essa opção resultou das ausências, por lesão, de Totti ou Del Piero. Após várias experiências e ensaios, prepara-se, no entanto, para atacar o Euro-2004 tendo como base o 4x2x3x1, durante a qualificação utilizado apenas por duas vezes (contra a Finlândia, casa e fora). O outro sistema também desenhado nos cadernos de Trapatonni é o clássico 4x4x2, mas sempre com dois trincos.
Os diferentes testes tácticos

No plano individual, a presente época trouxe-lhe novos elementos para pensar, entre os quais se destacam, sobretudo, a explosão do talento de Cassano, hoje, claramente, apesar da sua atitude rebelde, um jogador de selecção, e, por outro lado, a confirmação da categoria de Pirlo como espécie de regista recuado á frente da defesa.
Estes dois aspectos, condicionados pelo eterno dilema colectivo-individualidades e pela oscilação de forma de algumas das suas principais figuras como Cannavaro e Zambrotta (para além das sucessivas lesões de Nesta, Zanetti e Del Piero) são, neste momento, os principais dilemas que condicionam a definitiva opção táctica pelo 4x2x3x1, um sistema tacticamente mais conservador e de acordo com a genética italiana, do que o 4x4x2 ou o 4x3x3, sistemas testados, em Novembro, durante dois jogos particulares.
No primeiro, na Polónia, alinhou em 4x4x2, com Vieri e o rebelde Cassano fazendo dupla no ataque, á frente de um quarteto do meio campo em linha (Marchioni, Perrota, C. Zanetti e Di Vaio). Embora o jogo tenha confirmado a maior maturidade do temperamental futebol Cassano, o onze nunca conseguiu o controle dos espaço e o ritmo de jogo, perdendo por 3-1. No segundo, frente á Roménia, em Ancona, jogou num experimental 4x3x3 com Totti perto de Cassano e Bazzani, a dupla de pontas de lança, num jogo onde, como Zambrotta na ala direita e Perrota-Tomassi no centro, brilhou sobretudo o médio ofensivo Di Vaio, muito perigoso a entrar de trás e autor do solitário golo da vitória (1-0). Face a estes dois testes, concluiu-se, em termos tácticos, que, sobretudo com o regresso de Del Piero e Vieri, o sistema mais indicado, face ás individualidades ao dispor, seria o 4x2x3x1.
O ESTILO PIRLO: QUANDO UM JOGADOR PODE DESENHAR UM SISTEMA

Observando a actual selecção italiana, pode-se concluir que, neste momento, tendo em conta a definitiva opção pela defesa a «4» (formada, em principio, por Nesta-Cannavaro, centrais, Panucci lateral direito e Zambrotta, lateral esquerdo) e a certeza de Vieri como ponta de lança titular, o grande dilema situa-se no cinco («2x3») do meio campo.
Assim, á frente da defesa, Trapattoni, como todos os seus antecessores, sempre privilegiou médios de contenção de perfil duro, exímios sobretudo em tarefas de marcação e recuperação da bola, missões fielmente interpretadas por Tommasi, Perrota, Ambrosini, C.Zanetti e, como símbolo do chamado futebol pica-pedra que liberta artistas, o incansável Gattuso. O advento do estilo tecnicista de Pirlo, um trequatista convertido pela sua sublime inteligência de jogo, numa espécie de regista recuado que parte da zona naturalmente entregue aos trincos, abalaria, no entanto, as mais conservadoras consciências estilísticas do Calcio.
Com um jogador como Pirlo nesse posto, todo o meio campo ganha, num ápice, outra classe na circulação de bola. Perde, no entanto, capacidade lutadora nas bolas divididas e na sua recuperação, mesmo jogando a seu lado um clássico trinco de contenção como Perrota, Zanetti ou Gattuso.
No último particular frente á Republica Checa, (2-2) Trapattoni optou pela dupla Pirlo-Perrota. O jogador que oferece maiores garantias no plano do esforço físico e capacidade lutadora para dobrar a, digamos, menor agressividade sobre a bola de Pirlo, é, no entanto, Gattuso, que também pode descair sobre as faixas, posto onde, sobre a direita, já foi muitas vezes utilizado por Trapattoni. A outra opção, C. Zanetti, possui maior técnica e cultura de jogo, mas após uma época fustigado por lesões ou preso aos complicados esquemas tácticos do Inter, é hoje um jogador a atravessar uma crise de forma.
Em qualquer alternativa, Trapatonni tem sempre presente a necessidade de executar a zona pressionante ou, numa postura mais agressiva, o chamado pressing alto que quase todas as grandes equipas ou selecções do futebol moderno tem de saber fazer para serem competitivas.
Cassano, a dupla Totti-Del Piero e a opção 4x4x2

Á frente dos médio defensivos e nas costas do ponta de lança, entre-linhas, na chamada zona de criação, moram os fantasistas que controlam a dinâmica e a criatividade ofensiva da squadra. Tendo em conta que, sobre a faixa direita, Camoranesi, forte ofensivamente e seguro a fechar o flanco na hora de defender, parece, se em bom momento de forma, dono do lugar (a outra opção seria Fiore), o dilema volta a residir em como conciliar Totti e Del Piero no mesmo onze. Embora sejam ambos, por definição, dois maestros organizadores de jogo, Del Piero é táctico-posicionalmente muito mais versátil que Totti, um jogador típico da zona central, enquanto que o nº10 da Juventus também pode alinhar sobre os flancos, onde gosta de se refugiar, fugindo ás marcações, para depois, partindo da esquerda ou da direita, inventar jogadas que confundem qualquer defesa. Desta forma, a solução preferencial para os conciliar, será colocar Totti como trequartista central e Del Piero como volante esquerdo.
O excelente momento de forma de Cassano e o facto de, na Roma, Totti jogar mais adiantado, como avançado puro (formando a dupla de ataque, em 3x4x1x2, com Cassano), são as principais razões para Rapatonni ponderar, no presente, a possibilidade de se reconverter ao 4x4x2. Neste sistema, partindo do principio que o losango só com um médio de contenção está fora de questão na velha escola italiana, o meio campo assumiria um desenho em linha, ficando dependente sobretudo, na dinâmica ofensiva, da inteligência de movimentos do jogo pelos flancos de Camoranesi e, claro, Del Piero, que continuaria encostado a uma faixa, exímio afazer as diagonais com bola, abrindo espaços de penetração ou triangulando com a dupla atacante (saída do quarteto Totti, Vieri, Inzaghi e Cassano).
A chave Zambrotta e o jogo pelos flancos

Um dos problemas desta Itália, em qualquer sistema, reside, no entanto, na dificuldade em alargar o jogo a toda a largura do terreno. Faltam-lhe extremos ou flanqueadores de categoria no actual futebol italiano. Por isso se naturalizou o argentino Camoranesi, ala direito, e se continua a apostar num mago como Del Piero para jogar sobre um flanco.
Neste contexto, a maior preocupação, neste momento, reside no corredor esquerdo, no último ano preenchida sobretudo pelo fôlego inesgotável a atacar e a defender de Zambrotta, um médio ala direito ambidestro convertido por Lippi, na Juventus, num moderno lateral esquerdo ofensivo, metamorfose que foi aproveitada por Trapattoni na selecção. Esta época, porém, Zambrotta regressou, muitos jogos, ao seu local de origem na direita, e relançou também o debate sobre qual a sua melhor posição na squadra azzurra. Tudo indica, no entanto, que se mantenha na faixa esquerda.
A outra solução seria regressar ao 4x3x1x2 usado preferencialmente na fase de apuramento, com Inzagi-Vieri na frente de ataque, Totti trequartista, ou, numa alternativa que visaria aproveitar a maior astúcia goleadora do capitão da Roma, com Del Piero nas costas dos avançados sobre o centro e Totti no ataque ao lado do ponta de lança.
Face ao exposto, e tendo em conta os testes pouco positivos nos particulares contra a Roménia e a Polónia, onde, em 4x4x2, 4x3x1x2 ou 4x3x3, Cassano jogou na frente de ataque, o mais provável é Trapattoni manter-se fiel ao 4x2x3x1, assumindo o rebelde avançado da Roma o papel de suplente de luxo, uma espécie de joker que, lançado no decorrer do jogo, pode, com maiores espaços, desintegrar qualquer defesa.
AS ALTERNATIVAS E AS DÚVIDAS DE TRAPATTONI
Sistema: 4x2x3x1

É, neste momento, a principal tendência táctica de Trapattoni, o sistema que lhe garante maior consistência táctico-defensiva, com uma clássica dupla de trincos, e, ao mesmo tempo, alguma criatividade ofensiva, fruto da coexistência Totti-Del Piero no meio campo e da profundidade de jogo de Camoranesi, confiando, ainda, na versatilidade de Totti para, nas manbras atacantes, surgir mais perto da área e apoiar ou triangular com Vieri, dando, assim, maior dinâmica ofensiva ao sistema.
Sistema: 4x4x2

É a opção táctica em debate, face ao excelente momento de forma de Cassano e ao facto de, na Roma, Totti jogar como avançado. Neste sistema, o meio campo jogaria em linha e o principal factor dinamizador da saída de bola para o ataque residiria nos flancos ou na capacidade de passe longo de Pirlo. Faltaria, no entanto, compensação defensiva entre linhas, o bloco perderia coesão e o campo alargar-se-ia. Desvantagens suficientes para Trapattoni o encarar, sobretudo, como uma variante e não como opção táctica de referência.
Sistema: 4x3x1x2

Foi o sistema mais utilizado durante a fase de apuramento, tendo para essa opção beneficiado, muitas vezes, das ausências, por lesão, de Totti ou Del Piero. Desta forma, escalou, preferencialmente, uma dupla de pontas de lança, alicerçando-se o meio campo, sobretudo, na robustez defensiva do trio de médios de contenção. Um sistema com duas caras que, muitas vezes, partiu o onze, criando-se um espaço demasiado longo entre as duas linhas meio campo-ataque, fruto da excessiva características defensivas dos médios recuados, impedindo-o, assim, de controlar o jogo.