As Tácticas de Trapattoni

15 de Julho de 2004
UM GRANDE SENHOR DO FUTEBOL ITALIANO E EUROPEU,
É ELE VERDADEIRAMENTE UM TREINADOR DEFENSIVO?

Nascido e criado nos mais profundos subterrâneos tácticos do futebol italiano, discípulo do lendário Nero Rocco, mítico treinador defensivista que marcou o Calcio nos anos 60, Giovanni Trapattoni é um velho caminhante do futebol europeu. Desde o berço bebeu das cartilhas do cattenacio, mas, embora seja um legítimo representante dessa velha escola defensivista italiana, um simples olhar pela sua vida nos bancos do Calcio, desde 1973, permitem concluir que a sua obra vai muito para além dessa definição simplista e redutora. Eis, na hora em que chega ao Benfica, o seu decálogo táctico através dos tempos.
Verão de 1975, num pequeno hotel situado na auto-estrada Milão-Turim, Boniperti, director-desportivo da Juventus, espera ansioso por um jovem ragazzo, que, dizia-se, ansiava vir a tornar-se um grande treinador. Seu nome: Giovanni Trapattoni. Um sonho nascido duas épocas atrás, em 1972, quando logo após pendurar as chuteiras, aceitara, entusiasmado, o convite de Nero Rocco, lendário treinador do Milan, seu pai táctico espiritual, para integrar os quadros técnicos do clube, junto de Cesare Maldini. como responsável pelas camadas jovens. Nessa altura, o debate táctico-filosófico do futebol italiano encontra-se no auge. De um lado, os partidários dos velhos Rocco e Viani, símbolos do tradicional futebol defensivo. Do outro, os adeptos do então novo profeta emergente do Calcio, Fulvio Bernardini, que vencera o Scudetto com a Fiorentina e o Bolonha preconizando um futebol mais aberto e baseado, como ele dizia, nos chamados “piedi buoni”, isto é, os grandes tecnicistas que muitos defensivistas sacrificavam em nome da táctica. Inteligente, Trapattoni passa ao lado deste debate. Bebe o melhor das duas escolas, vai formulando a sua ideologia própria, e quando em 75/76, Rivera, finda a carreira, se torna o novo homem-forte do futebol do Milan, logo o convida para treinador principal, numa fase em que os maus resultados tinham levado á saída de Rocco para conselheiro técnico, enquanto que Maldini era demitido. Trapattonni aceita, sem pestanejar, o desafio. Pega na equipa, dá-lhe um novo impulso e atinge o 3º lugar no campeonato. Para lá dos resultados, era já, no entanto, o perfume do seu futebol e o carisma que então já transmitia que cativa o Calcio. Astuto, um dos seus mais sábios presidentes, Giovanni Agneli, descobre nele o jovem treinador ideal para relançar a sua Juventus, na qual entra, em 76/77, com apenas 37 anos.

Ciclo Juventus (1976-1986) Os títulos, entre o 4x3x3 e o 4x4x2

De inicio, entre 76 e 80, quando as fronteiras do Calcio estavam fechadas a estrangeiros, Trapattoni forma uma equipa que, sem grandes estrelas, vale sobretudo pelo seu carácter lutador, tacticamente esquematizado em 4x3x3, mas sem, a meio campo, o nº10 regista clássico, papel que, nas épocas anteriores, fora desempenhado por Capello. Exímio condutor de homens, transforma simples jogadores em grandes campeões. No meio campo, torna Tardelli, antes um mediano lateral esquerdo, num médio patrão de grande nível, regendo, a partir da zona dos trincos, um meio campo atlético composto por Furino e Benetti. Na defesa, chefiada pelo libero Sirea, inventa dois poderosos centrais de marcação: Morini, excelente no homem-a-homem, e Brio, um gigante. No flanco esquerdo, fez do jovem Cabrini, então em inicio de carreira, um lateral esquerdo ofensivo, em pouco tempo também titular de selecção. No ataque, Causio, extremo direito, e, como, dupla atacante, o possante Boninsegna e o elegante Bettega. Os três combinavam na perfeição. Pela primeira vez na história, a Juventus conquista uma competição europeia, a Taça UEFA, em 77. Na garra demonstrada, sob a chuva de Bilbao, estava todo o carácter imposto por Trapattoni.

As discussões com Platini e a lição dada pela “zona” de Happel

Em 80, a reabertura das fronteiras permite a Trapattoni refinar a equipa, resgatando o tal nº10 regista: o irlandês Liam Brady. Tacticamente, mantêm-se o 4x3x3, mas, sem o possante Bonisegna, o ataque torna-se mais dinâmico, com Virdis e Galderisi deambulando nos flancos, apoiados por Fanna e Marocchino. Na área, Bettega. Em 82, nasce a era-Platini. A equipa perde o velho espirito lutador dos primeiros tempos, mas ganha maior classe, também incutida por Laudrup e Boniek. Na defesa e no meio campo, Scirea, Cabrini e Tardeli, continuam a assegurar a mística. Apesar das estrelas esta é, no entanto, a mais defensiva Juventus da era Trapattoni, que, para dar maior coesão ao onze, recua de 4x3x3 para 4x4x2, exibindo muitas vezes, para desgosto de Platni, uma postura demasiado conservadora. Desse tempo, ficam célebres as discussões com o mago gaulês, ao intervalo, nos balneários: “Mister, vamos avançar no terreno, se tivermos a bola mais longe da nossa área arriscamos menos”, dizia Platini, “Bravo, Michel, tudo bem, mas para eu fazer isso, faz-me primeiro ver a bola sempre lá na frente e não a equipa sozinha sem ela”, respondia o Trap sentenciando a discussão. Em 1983, sofre a maior desilusão da sua carreira, quando perdeu a Final da Taça dos Campeões, frente ao Hamburgo. Nesse dia, porém, aprende uma lição táctica que fez mudar a sua concepção de jogo e condicionou as suas análises futuras, quando, diz, aprendeu o que era a “zona”, no momento em que Hernest Happel, um dos seus maiores profetas, soltou, durante 90 minutos, Rolf sobre o espaço de Platini, e anulou a estrela juventina, ganhando assim o jogo. Em 1985, no entanto, com o mesmo sistema conservador, vence, por fim, a final da Taça dos Campeões Europeus, na tragédia do Heysel, frente ao Liverpool. Era o auge. No final da época seguinte, dez anos depois da sua chegada, abandona a Juventus.

INTER (1986-1991) O futebol de contenção, com Matthaus médio defensivo

Em cinco épocas no Inter, Trapattoni constrói um trabalho em profundidade onde volta a deixar a sua assinatura própria, um futebol essencialmente de contenção, realista, assente no 4x4x2, mas que relança o debate sobre o que é verdadeiramente o futebol defensivo? O conceito é subjectivo. Há quem defenda no limite da área e há quem o faça a meio campo, mas o certo é que quem não sabe defender nunca irá a lado nenhum. Trapatonni pertence á classe que profetiza esquemas que começam a defender a meio campo, em frente á defesa, com a chamada primeira linha de contenção do meio campo, pelo que sempre quis, nas suas equipas, trincos ou médios defensivos aguerridos, recuperadores de bola e marcadores natos, em vez de volantes mais macios, que até podem ter maior capacidade técnica na saída de bola mas revelam, por outro lado, algum déficit de agressividade sem bola, na hora em que é imperioso defender e fechar espaços. É esta a imagem de marca que fica do seu quinquénio no Inter, um projecto que também passou por várias fases, a primeira delas marcada pelo fracasso da contratação do jovem maestro belga Scifo, então com apenas 18 anos. A base do sucesso estaria, depois, numa dupla de duros alemães, Brehme, lateral esquerdo, e Matthaus, playmaker, aos que se juntou a garra de Berti no transporte de bola a meio campo, e, em mais um magistral golpe táctico-posicional, o recuo do médio Mandorlini para libero. Definir, por isso, Trapattoni como um técnico que só pensa em defender é errado. As suas equipas sempre tiveram grande coragem e carácter e para provar como o segredo mora na consistência defesa-ataque, está o argumento demolidor que ainda hoje é seu o record de vitórias e pontos conquistados num campeonato. Sucedeu exactamente com o seu Inter campeão em 88/89 com 58 pontos (também record durante as épocas em que os triunfos só dois pontos), fruto de 26 triunfos em 34 jogos. Um titulo histórico (ao qual se juntaria, depois, a reconquista, 26 anos depois, de uma prova europeia, a Taça UEFA 90/91) no qual, tal como Platini na Juventus, ficaram famosas as discussões com o outro grande playmaker do onze, Matthaus, o qual era comum ver, muitas vezes, em pleno relvado, gritando para o banco: “Ao ataque, Mister, ao ataque, vou subir mais na frente!”, Resposta do Trap: “Calma, Lothar, tranquilo, deixa-te estar atrás que é mais seguro!”

MUNIQUE (1994-1998) E FIORENTINA (1998-2000): Do clássico 4x4x2 ao moderno 3x4x1x2

Em 1994, parte para a sua primeira aventura estrangeira, ingressando no Bayern Munique. Para a história fica uma sua inolvidável conferência de imprensa, numa altura em que, em surdina, muitos jogadores criticavam os seus métodos de trabalho. Em fúria, Trapattoni,, faz toda a Alemanha saltar da cadeira: “Quem é esse Strunz? Há dois anos que anda aqui a passear, passa a vida a dizer que lhe dói aqui, está lesionado, blá, blá, blá, e depois vejo-o a jogar ténis...” Aos murros na mesa, Trap diz que quem manda é ele e que Klinsmann também será substituído, nem que depois desate aos pontapés ao banco. No final do discurso, Beckenbauer e Rummenigue sorriem e declaram ter finalmente visto na Alemanha o verdadeiro Trapattoni!. A conquista da Bundesliga, em 96/97, e da Taça, em 98, dão-lhe razão, e o Trap pode coleccionar mais um titulo ao seu palmares. Tacticamente, o seu Bayern também passara distintas dinâmicas, assumindo uma alternância entre o 3x5x2 (tipíco da escola alemã) e um 4x4x2 mais musculado que conheceu os seus melhores dias quando emoldurado na melhor forma dos seus intérpretes, onde estavam estrelas como Papain, Kostadinov, Jorginho, Klinsmann, e, claro, Matthaus A sua ultima grande marca, a nível de clubes sucedeu na Fiorentina, entre 1998 e 2000, no qual, seguindo os modernos ditames tácticos da época, nos quais o 3x5x2 com laterais ofensivos relançou novas bases para o debate, Trapatonni também procurou adoptar as suas opções ás novas tendências. Assim, a sua Fiorentina, para onde levou velhos guerreiros da Juventus como Torriceli e Di Livio, embora partindo do clássico 4x4x2, viria, na sua melhor fase (98/99, quando, após ter sido campeão de inverno, findou em 3º lugar, recolocando, 30 anos depois, o onze viola de regresso á Liga dos Campeões) a estender-se tacticamente num dinâmico 4x3x3, liderado por Rui Costa e Batistuta, que, na melhor fase da equipa, também adquiriu o moderno design táctico de 3x4x3, ou, na prática, 3x4x1x2, confirmando a capacidade de Traapattoni em, ao contrário de muitos outros velhos treinadores hipotecados ao passado, se adoptar ás novas tendências tácticas de cada época.

SELECÇÃO ITALIANA (2000-2004) A tentação do defensivismo

No inicio, surpreendentemente, a sua Itália surge a jogar com dois pontas de lança. Procurou fazer coexistir no mesmo onze Del Piero e Toti, e resgatou a célebre frase de Bernardini que, nos anos 70, afirmara estar o futuro nos chamados piedi boni A opção preferencial pelo 3x4x1x2 seguiu, no fundo, a mesma linha táctica de Zoff, mas só no papel é que os dois sistemas se identificam. A diferença é feita pelos jogadores e pela dinâmica técnico-táctica em campo. Enquanto que com Zoff os médios defensivos eram Albertini e Fiori, com Trapattoni são Gattuso e Tomassi. Tacticamente, há, porém, um jogo que marca uma viragem. Frente á Argentina, no inicio de 2001, quando apostou num 3x4x1x2 com Fiore no papel de regista, atrás de Vieri e Inzaghi, procurando um compromisso entre a eficácia e a beleza. A derrota por 1-2 e os desiquilibrios demonstrado entre-linhas meio campo-ataque, levam-no a resgatar sistemas mais conservadores, típicos da velha escola onde fora criado. No Mundial 2002, em quatro jogos, apresenta três esquemas diferentes: Equador (4x4x2), Croácia (4x4x2); México (3x4x1x2) e Coreia do Sul (4x3x2x1). A equipa nunca cria um padrão de jogo mecanizado e acaba eliminada. No regresso, resgata o 4x4x2, que na prática se transforma em 4x3x1x2, com o adiantamento de Del Piero no apoio á dupla de avançados, Vieri e Inzaghi. É este o esquema que serve de base ao apuramento para o Euro-2004, mas, fiel á consciência conservadora, surge, na fase final, a jogar em 4x3x2x1, com Del Piero encostado á esquerda. Recusa apostar num trinco mais refinado tecnicamente como Pirilo, e continua a basear-se em médios mais duros na luta pela posse da bola, Perrota, C.Zanetti e o pica-pedra Gattuso. Acaba por cair mais uma vez agarrada aos seus profundos arquétipos tácticos, quando num jogo em que, frente á Suécia, realizara uma primeira parte de sonho (em 4x3x1x2, com Casano e Vieri na frente) resolveu, nos últimos vinte minutos, recuar as linhas defensivas, retirar os artistas e reforçar a postura defensiva. O golo do empate sueco sentenciaria o destino da Itália neste Euro-2004 e, findo o torneio, ditaria o fim do ciclo-Trapattoni na squadra azzurra. Segue-se o Benfica...

TRAPATTONI: VIDA E OBRA

Como jogador esteve doze épocas no Milan ( 274 jogos, Conquistou 2 Scudettos, 2 Taça dos Campeões, 1 Taça das Taças, 1 Taça Intercontinental) e uma no Varese (10 jogos). Como treinador atingiu o milésimo jogo no banco em 5 Novembro de 1997 (Bayern-PSG, Liga dos Campeões). Conquistou 7 Scudettos, 2 Copa Itália, 1 Taça dos Campeões, 3 Taças UEFA, 1 Taça das Taças, 1 Taça Intercontinental, 1 Bundesliga, 1 Taça da Alemanha) Classificação 73/74 MILAN Apenas 7 jogos 74/75 MILAN Como Adjunto 75/76 MILAN 3º 76/77 JUVENTUS 1º + UEFA 77/78 JUVENTUS 1º 78/79 JUVENTUS 3º + Copa Itália 79/80 JUVENTUS 2º 80/81 JUVENTUS 1º 81/82 JUVENTUS 1º 82/83 JUVENTUS 2º + Copa Itália 83/84 JUVENTUS 1º + Taça das Taças 84/85 JUVENTUS 5º + Taça dos Campeões 85/86 JUVENTUS 1º + Taça Intercontinental 86/87 INTER 3º 87/88 INTER 5º 88/89 INTER 1º 89/90 INTER 3º 90/91 INTER 3º + UEFA 91/92 JUVENTUS 2º 92/93 JUVENTUS 4º + UEFA 93/94 JUVENTUS 2º 94/95 BAYERN MUNIQUE 2º 95/96 CAGLIARI DEMITIU-SE A MEIO DA ÉPOCA 96/97 BAYERN MUNIQUE 1º 97/98 BAYERN MUNIQUE 2º 98/99 FIORENTINA 3º 99/2000 FIORENTINA 2000/2004 SELECÇÃO NACIONAL

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