Já demos mais de uma volta inteira a este Mundial. O receio dominou as equipas na hora de entrar em campo. Talvez aquela que menos o tenha levado consigo, foi a única (candidata) que perdeu. A Espanha. Uma derrota que, porém, disse, claramente, como é mesmo candidata. Porque nenhuma outra selecção tem uma identidade de jogo (toque com mobilidade e passe curto apoiado rápido em construção) tão forte e jogadores (Xavi, Iniesta, Xabi Alonso) tão capazes de a colocar em prática.
No Brasil, a dunganização do seu jogo também é uma questão de identidade. O símbolo dessa filosofia são os dois pivots (os volantes) que jogam à frente da defesa, quase apenas em missões pica-pedra de cobertura: Gilberto Silva-Felipe Melo. Com este perfil na saída de bola desde trás, Kaká, à frente deles, é quase uma ironia por entre um onze que depende de Robinho para alguém se lembrar que, na realidade, é mesmo a selecção brasileira que está em campo. O outro elemento estranho, é Maicon. Um lateral que ultrapassa adversários e o próprio médio-ala, Elano, que, mais atento ao posicionamento táctico, está à sua frente.
O 4x2x3x1 é o sistema dominante entre as selecções mais fortes (Alemanha, Brasil, Itália e Holanda). A Argentina aposta no 4x1x3x2, sistema utilizado contra a Coreia quando saiu Veron e abriu com Maxi Rodriguez na direita (ficando Di Maria na esquerda). A Espanha parte de um híbrido 4x1x4x1 (com só um pivot, Busquets, vértice recuado de um triângulo que tem prolongamento nas alas com Iniesta e Silva.). A Inglaterra é o império do 4x4x2. Só França e Portugal surgiram com um 4x3x3 tão assumido. A Sérvia também, mas só no segundo jogo frente a Alemanha, quando tirou um avançado, Pantelic, abandonou o 4x4x2 meteu mais um ala. A França alternou a estrutura do meio-campo. Contra o Uruguai só um pivot (Toulalan), contra o México, dois (juntando-lhe Diaby, numa opção discutível que acabou por tirar do jogo o seu melhor médio transportador que pareceu sempre receoso de ao subir roubar espaço e protagonismo a Ribery puxado da faixa para o centro, na zona nº10). Consequência: esfumaram-se os dois.

A táctica
“Chicharito”
Quando entrou em campo, toda a pátria azteca levantou-se. El Chicharito estava na relva do Mundial. Pouco depois, eis a bola metida à sua frente, a fuga ao fora-de-jogo mesmo na berma do precipício e, frente ao guarda-redes, a «formalidade» do drible e do remate. Golo! Mesclando vários sistemas em apenas um, este México de Aguirre é a táctica em movimento. Marquez assumiu-se, claramente, como o médio-centro pivot que inicia a saída de bola. Se contra a África do Sul fê-lo em posse, contra a França optou mais pelo passe longo.
Depois, cria a ilusão de jogar com defesa a «3». Não é bem assim. Ou melhor, só quando ataca e Salcido (lateral esquerdo) sobe, ficando apenas Rodriguez, Moreno e Osorio (que de início parece lateral-direito) a cobrir em largura toda a linha recuada. Juarez, entre a faixa e a meia direita, ora parece lateral a fechar, ora parece médio interior em posse, ficando Torrado mais subido na pressão alta.
No ataque, três avançados móveis (Vela, depois Barrera, Giovani, Franco e, depois, Chicharito Hernandez). E como cresce Giovani na selecção. Sente-se mais importante, fica melhor jogador. Até parece mais alto e forte. Recupera bolas e joga muito. Mudou a cabeça, mudou o futebol.