As últimas palavras

May 28, 2011 3:05 PM
Corunha: O que faz a diferença num último jogo que decide a descida ou manutenção na divisão?

 

Um jogo para decidir toda a época. A primeira tentação é pensar na decisão do título, mas o momento em que tal adquire maior carga emocional, dramática mesmo, é quando esse jogo decide ou não uma descida de divisão. A última jornada da Liga espanhola juntou cinco jogos e seis equipas nessa situação. Caiu o Corunha, a equipa que, em campo, durante esses 90 minutos de drama, demonstrou, claramente, mais medo. Terá sido também aquela com o adversário mais difícil (Valência), mas se antes da táctica uma equipa é um estado de espírito, em mais nenhum momento essa frase fez tanto sentido. Bastava empatar em casa. Perdeu. E começou logo a perder aos 4 minutos. 
Mas nada se resolve apenas no lado emocional. Esse medo tem transfer táctico e, em campo, traduziu-se numa equipa presa de movimentos num 4x2x3x1 que espelhou um dos vícios do futebol espanhol: a quase dogmática opção pelo duplo-pivot. Não critico a mera questão posicional, mas sim ao facto desses dois jogadores ficarem quase sempre recuados e serem antes os alas, em diagonais (Lotina pede isso a Guardado) ou um avançados, o mais móvel (Adrian) a recuar para pegar no jogo e começar a construir desde posições trás. Tem um bom pivot, Rubén Perez, mas, nesta dinâmica, fica demasiado lento e preso a processos defensivos. Assim, foi um velho caminhante, Valerón, que mais tentou salvar a equipa, mas sem a intensidade de outrora, surge apenas quando o ritmo baixa e a qualidade de passe emerge. Não chegou.
 
Mais motivado, o Saragoça saiu, assim, do fosso da descida onde estava antes do último jogo. Ganhou em Levante, jogando com grande coragem ofensiva. Um 4x1x4x1 com Ander a lançar o ataque e Ponzio comer o meio-campo. Em San Sebastián, Real Sociedad e Getafe amarraram o jogo. Ambos têm jogadores para jogar mais. Sobretudo o Getafe, com os alas Rios-Manu e o médio-centro Parejo (craque a pensar o jogo!). Fica a ideia que Michel, preocupado sobretudo com a qualidade da posse, deixou descer demais os níveis de intensidade competitiva da equipa. Algo que nunca acontece no Osasuna, mesmo quando com Camacho tinha um modelo mais estático em termos tácticos. Mendilibar manteve os traços, mas com o tradicional duplo-pivot (Punal-Neukounam) segurou melhor as rédeas do onze desde trás. O Mallorca de Laudrup não tem médios com qualidade para um projecto de jogo tão ambicioso em termos de pose.
 

 

Na Corunha, no final, o abraço sentido, ainda no relvado, de Donato, que descera da tribuna, a Valerón. Ambos estiveram no título de 2000. Durante longos minutos os jogadores permaneceram em campo. A afición despediu-se da equipa com lágrimas e aplausos. Arrepiante. O futebol é mesmo enorme!

 

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