
É difícil encontrar um estilo único que defina o futebol jogado no continente asiático. Essencialmente técnico, continua em busca de um estilo próprio. Admirador da técnica sul americana e devoto da eficácia táctica europeia, procura um equilíbrio que melhor potencialize o talento natural dos seus executantes. A base do futebol jogado por todas as nações asiáticas é a técnica, mas todas revelam diferentes ritmos. Mais veloz e vertical, o jogado por coreanos e iranianos, mas lento e apoiado, o praticado pela Arábia Saudita e Japão, as duas selecções que se defrontaram na Final da 12ª edição da Taça de África.
Nos anos 90, emergiu, entre elas, sob o impulso de um brasileiro em fim de careira, Zico, o novo aroma do futebol asiático: o Japão, vencedor da Taça da Ásia 2000, a segunda na sua história após o triunfo de 1992, um ano antes do inicio da milionária J-League, em 1993, geradora de grandes clubes empresa e que despertou o entusiasmo dos nipónicos pelo futebol, antes só seduzidos pelo Sumo e pelo Basebol.
Inspirados na técnica brasileira, incutida por canarinhos que, desde Alcindo a Dunga, começaram a chegar, e orientados por frios treinadores europeus, os onzes japoneses foram criando um compromisso entre a técnica e a táctica, que, num ápice, deu um novo impulso ao futebol nipónico e, por extensão, a todo o futebol asiático que se projectou na nova imagem da selecção japonesa.
Conta o técnico basco Azkagorta que quando em 96 foi para o Japão treinar o Yokohama Marinos, encontrou um plantel com uma disciplina quase militar. Todas as normas eram cumpridas ao pormenor: a hora de chegar e sair do treino, exercícios físicos, posição em campo, etc. Depois da surpresa inicial, Azkagorta optou, no entanto, por ensinar os seus jogadores a infringir regras. O objectivo era dar-lhes liberdade para criar e assim descobrir o talento de cada um, escondido sob o manto de contenção oriental. Vendo a evolução do jogo da selecção japonesa nos últimos anos, sublimada no toque de classe artístico de Nakata, parece que a ousadia do basco fez escola.
Foi talvez nesse contexto que, visando o Mundial 2002, os dirigentes nipónicos, grandes admiradores de Arséne Wenger, decidiram contratar o viajante técnico francês Philipe Troussier.
O PROJECTO TROUSSIER

Troussier é um globetroter do futebol mundial. Em África é conhecido como o Feiticeiro branco. Depois de passar pelos modestos Red Star, Aleçon e Crétil, em França, o percurso africano de Troussier começou em 1990 no AEC Abidjan, chegando depois a seleccionador da Costa do Marfim. Seguiu-se o Kaiser Chiefs do Soweto, o CA Rabat, o FUS Rabat, a Nigéria que treinou na qualificação para o Mundial-98, a África do Sul, que orientou na fase final, e o Burkina Faso, até que o seu perfil de missionário do futebol despertou a atenção do continente asiático, também ávido de descobrir e explorar o seu verdadeiro talento futebolístico. Tal como em África vê-se nos seus executantes uma alegria natural para conviver com a bola. Falta dar-lhe substrato técnico, profissionalismo e disciplina táctica para os tornar em potências do futebol mundial, só que ao contrário de África, onde as estruturas são rudimentares, no milionário futebol japonês, obra de poderosas multinacionais, as condições de trabalho facilmente convidam a aceitar este desafio.
Depois de alucinar com estrelas estrangeiras importadas, muitas delas em fim de carreira, os japoneses procuram agora os seus próprios heróis, capazes de os fazer sonhar com o Mundial 2002. O primeiro passo foi dado em 1999, no Mundial Sub-20, em que chegou á final. Desse sensacional onze surgiu agora no Líbano o homem-golo Takahara, 21 anos, o melhor marcador da prova, a par de Nishizawa, com 5 golos, e o virtuoso médio Shinji Ono, formiga do meio campo que Begiristain um espanhol que joga no Japão definiu como um De la Peña com mais cabelo. Outros nomes a fixar são o do libero Matsuda, e os médios criativos Nakamura, Nanami, a jogar no Jubilo Iwatra mas já jogador do Veneza e, sobretudo, o interior direito Morishima, na ausência de Nakata, a grande referência do sector.
A base de Troussier assenta., porém, num grupo mais vasto. Nele estarão cerca de 70 a 80 jogadores, todos internacionais nas diversas categorias. 25 a 30 internacionais A, outros tantos olímpicos, e cerca de 20 Sub-20. Desta forma, estando presente em todos os níveis consegue passar a mesma imagem a tidos eles. Quando os Juniores presentes no Mundial sub-20 99 subiram aos Olímpicos já estavam adaptados aos métodos do francês. O mesmo sucede quando treinarem na Selecção A que Troussier pensa ser constituída em 2002 com pelo menos 50% da presente nesta Taça de Ásia 2000. No fundo, Troussier pretende criar um bloco coeso ente as diversas selecções nipónicas. Uma das suas primeiras iniciativas quando chegou ao pais do sol nascente foi realizar um estágio com cerca de 60 jogadores. 30 da A e outros 30 da Olímpica, intensificando também os jogos com selecções de outros continentes, visando incutir maior maturidade e ritmo competitivo na equipa, tornando-a capaz de ombrear com os rivais europeus e sul americanos. Uma missão que leva tempo, expressa no slogan que promove a J-League: Um projecto para 100 anos! Troussier não quer tantos, diz bastar-lhe três ou quatro para aproximar o futebol nipónico do jogado no Velho Continente.
ARÁBIA SAUDITA
O BRASIL DA ÁSIA

Tecnicamene dotado, jogado sob forte calor, o pausado futebol saudita passou a ser conhecido, pela forma como os seus jogadores gostam de tocar a bola, em passes curtos, temperados com dribles e alguns rasgos individuais, como o Brasil da Ásia. Continua, porém, como todo o futebol árabe em geral, sem vingar internacionalmente, permanecendo exótico aos olhos europeus que, no entanto, ficam fascinados com as condições de trabalho que nela existem. A base do atraso reside, sobretudo, numa questão de profissionalismo e mentalidade, não só a nível directivo, mas também ao nível de jogadores, vedetas sem problemas financeiros e pouco sensíveis ás exigências do profissionalismo. O estilo brasileiro do seu futebol convida a menor esforço físico, mas a falta de trabalho de base, que não pode ser resolvido em poucos meses por qualquer treinador do mundo, por mais prestígio que tenha, compromete logo á partida o sucesso internacional. Têm, no entanto, dois factores capitais para evoluir e recuperar o atraso culturalmente competitivo em relação aos europeus: estruturas e talento. Falta revoEsse é, no entanto, o factor mais complicado, a começar, sobretudo na ultra milionária classe dirigente que, desde que em 1978 o Hilial de Riade, conseguiu com a intervenção pessoal do irmão do Rei Khaled, contratar o brasileiro Rivelino por oito milhões de dólares, continua a pensar ser possível compra o sucesso desportivo só com dinheiro. Quando no Mundial-98, após perder com a França e a Dinamarca, a Arábia Saudita ficou fora do Mundial, o príncipe Faisal, indignado, não se conteve, e num ápice, despediu o treinador brasileiro campeão do mundo, Carlos Alberto Parreira, que já nem se sentou no banco para o terceiro e derradeiro jogo: Um defensivista que desvirtuou todo o nosso futebol, sentenciou o Príncipe. Desde finais dos anos 70, muitos treinadores de renome internacional passaram, atraídos pelos petrodólares, pelo futebol saudita. No inicio foram Don Revie, Ronny Allen, Dettmar Cramer e o brasileiro Didi. No final do século, os eleitos foram, entre outros, Telê Santana e Zagallo, apostas canarinhas, para além do francês Henri Michel, do búlgaro Penev, do polaco Potchnick e do jugoslavo Prostich que lançou a estrela Abdullah, a grande figura do futebol saudita nos anos 80, e, claro, o português Nelo Vingada que conquistou a Taça da Ásia 96. Mas como no futebol, a paciência nunca foi o forte dos magnatas do petróleo, todos eles, mais tarde ou mais cedo, tiveram o mesmo destino que o treinador brasileiro campeão do mundo em 94.
Na Taça de Ásia 200, a tradição manteve-se com o demissão do treinador jugoslavo Milan Macala, após a derrota no jogo inaugural como o Japão, por 4-1. O seu sucessor, Nasser Al Johar, antigo internacional, mudou o sistema de 3-5-2 para 4-4-2, logrou chegar á final, mas não igualou o feito de Al Zayyani, o único treinador saudita a vencer, em 1984, a prova maior do continente asiático.
No onze idealizado por Montulac estava uma mescla de juventude e experiência, já projectando as eliminatórias do Mundial 2002. Sem contar com Khaled Musaad e Al Thuniyan, figuras do titulo de 96, apostou em jovens valores como Ghamdi, Shlhoob, 19 anos, e o possante Al Meshal, figuras de um onze espiritualmente suportado pelo capitão goleador Sami Al Jaber, quase um segundo treinador dentro do campo, uma referência para o onze que muitas vezes também recua para apoiar o meio campo, regido pelo influente médio Al Temyat.
Uma simples derrota desmembrou num ápice todo o projecto. Mais uma vez, os homens do petróleo, procuram conquistar com dinheiro o sucesso desportivo. Ainda não entenderam que a missão de construir uma grande equipa de futebol, é um trabalho demasiado árduo e difícil para ser deixado apenas nas mãos de investimentos de milhões.
lucionar mentalidades.
ROCHI
UM INDONÉSIO DE CABELO VERMELHO
Observada por vários olheiros europeus, esta Taça da Ásia cativou muitos caçadores de talentos. Um dos jogadores que ficou na retina foi o avançado indonésio Rochi Putiray. No inicio destacou-se pelo seu pitoresco cabelo vermelho, mas com o decorrer da prova também o seu futebol rápido e oportunista deu nas vistas. Apesar de frágil fisicamente, Rochi sabe furar por entre as defesas adversárias. O seu descobridor foi o treinador francês Claude Le Roy, quando, em meados dos anos 90, foi seleccionador da Malásia. Logo procurou colocá-lo em França, mas, apesar do seu valor, foi recusado no Auxerre por Guy Roux que pretendia colocá-lo na equipa B. Assim, acabou por rumar para a Républica Checa, onde jogou, sem grande sucesso, no Dukla de Praga.. Hoje, joga no InstantDict, o clube mais forte de HongKong, e, com 30 anos já não terá grandes possibilidades de realizar um contrato internacional. Herdeiro do estilo de Tahamata, que no inicio dos anos 80 jogou pela Holanda, Rochi é, depois do antigo ídolo do Standard Liege, o jogador indonésio de maior destaque no futebol internacional
A CHINA DE MILUTINOVIC

Face ao fracasso do Irão, a grande surpresa desta Taça Asia 2000 foi a China, onde está joje, após passar pelos quatro cantos do globo, o maior trota mundos do futebol mundial: Bora Milutinovic que prossegue, assim, depois de passar pela Europa, América do Sul e África, a sua volta ao mundo em futebol. No Oriente, o supremo desafio. Ensinar os chineses a jogar e a gostar de futebol. Na sua história, a China nunca foi apurada um Mundial. É este, agora, o grande sonho de Milutinovic que, no passado, já esteve presente em 5 Mundiais com 5 selecções diferentes. Na China, porém, as dificuldades são maiores. A formação pura e simplesmente não existe. Os clubes não tem camadas jovens e não existem campeonatos para jogadores com menos de 15, 16 ou 17 anos. Milutinovic luta sozinho contra um sistema que não se move desde há pelo menos meio século e onde é quase impossível conseguir organizar um jogo com uma selecção europeia, face ao hermetismo da estrutura comunista que se estende ao futebol, tendo-lhe sido mesmo negada a contratação de um adjunto não-chinês.
Apesar de todas as adversidades, Bora não desiste, embora diga que é especialista em surpresas, não em milagres. As sua esperança mora no valor e na entrega total dos jogadores chineses, onde as principais figuras são Mingyu, Chen e, sobretudo o central Fan Zhiyl, 30 anos, jogador do Cristal Palace desde 1998, após toda a careira em Shanghai. A sua experiência e visão de jogo levou Bora a subi-lo para o meio campo, para reger o jogo da equipa. Zhiyl é um grande admirador de Milutinivic. Muitos treinadores jugoslavos, como Santrac e Kosanovic, passaram pela China nos últimos anos, mas nenhum tinha o carisma do “Coach Bora”. Com ele a equipa cresceu tacticamente e atingiu a meia final da Taça de Ásia (derrota com o Japão, 2-3), mas será o suficiente para atingir o Mundial-2002?
ASIÁTICOS NO FUTEBOL EUROPEU
Poucos anos atrás era quase um bicho exótico. Hoje, cada vez é mais comum encontrar jogadores asiáticos a jogar nos campeonatos europeus. Mais do que a sua valia técnica, muitos clubes viram neles um meio priveligiado para atrair receitas que só a sua mera presença na equipa proporciona, tal a forma devota com que os adeptos e os média asiáticos seguem os seus heróis. Um fenómeno mais evidente com os japoneses que, como contou Rexach que treinou no Japão, gostam mais dos jogadores do que dos seus clubes. A simples transferência de um jogador para outro clube acarreta também uma imediata pitoresca deslocação de adeptos para esse mesmo clube.
Mas nem só de Nakata vive o futebol asiático na Europa. Vejamos os seus principais jogadores nas Ligas Europeias 2000/2001:
Japão Nakata (AS Roma, Itália), Job (Valladolid, Espanha)
Arábia Saudita Sami al-Jaber (Wolverhampton, Inglaterra)
China Ma Mingyu ( Perugia, Itália), Fan Zhiyi (Crystal Palace, Inglaterra), Yang Chen (Eintracht Frankfurt, Alemanha), Xie Hiu (Kickers Offenbach, Alemanha)
Corea do Sul Seolo Ki-yeon (Antuérpia, Bélgica), Ahn Jong- hwan (Perúgia, Itália)
Irão Ali Daei (Hertha Berlim, Alemaha), Mahdavikia (Hamburgo, Alemanha), Minanvand (Sturm Graz, Aústria), Bagheri ( Charlton, Inglaterra)
Indonésia Pamungkas (EHC Norad, Holanda)
Qatar Mohamed al-Enazi (Yozgatspor, Turquia)
Tailândia Senamuang (Huddersfield, Inglaterra)
Usbequistão (ex-Republica da URSS): Chatskykh (Dinamo Kiev, Ucránia, Fayzec (CSKA Moscovo, Rússia), Bugalo (Vladikavkaz, Russia), Fyodorov (Kalinningrad, Russia), Kassimov e Loushan (Krylia Sovetov, Russia), Akopyants e Chirchov ( Rostelmach Rostov, Russia)
TAÇA DA ÁSIA
VENCEDORES:
1956 – Republica da Coreia
1960 – Republica da Coreia
1964 - Israel
1968 – Irão
1972 – Irão
1976 – Irão
1980 – Kuwait
1984 – Arábia Saudita
1988 – Arábia Saudita
1992 – Japão
1996 – Arábia Saudita
2000 - Japão