AUSTRÁLIA: Os »Canguros» em busca do Mundial-2002

April 14, 2001 12:00 AM
Das vulcânicas ilhas de coral, das Fidji e do Tahiti, até á incomensurável metrópole australiana, a Oceânia é o único continente que não tem presença assegurada na fase final do Mundial.
Depois de perder dramaticamente, frente ao Irão, o apuramento para o França-98, a Austrália, um país que é quase um continente, volta a sonhar com uma meta que apenas atingiu em 1974. Finda a era-Venables, o novo seleccionador é, pela primeira vez na história, uma sua velha glória: Frank Farina, á frente de um grupo de novas estrelas, todas a jogar no estrangeiro.
De Queensland á Tasmânia, o soccer nunca despertou grandes paixões por toda a Austrália, mais apaixonada pelo rugby, cricket e pelo seu australian rules football, uma espécie de rugby com regras próprias, pouco compreensíveis aos olhos europeus. Já passaram 26 anos desde que, em 1974, uma selecção australiana pisou, pela primeira e ultima vez, o relvado da fase final de um Mundial. Nesse ano, nos palcos germânicos, os socceroos, como são conhecidos os australianos, apesar de eliminados na 1º fase, sem marcar nenhum golo, deixaram boa imagem, empatando a zero com o Chile e perdendo, 2-0 e 3-0, com RDA e RFA. Vivia-se então o inicio da era moderna do futebol australiano, que embora ainda conservasse fortes ligações á cultura futebolística inglesa, começava já a desenhar um estilo próprio, embora sempre de inspiração britânica, rompendo com um passado nebuloso que o levara a ser suspenso da FIFA, nos anos 60, por alinhar, ilegalmente, jogadores austríacos na sua selecção. Abrigando um vasto contingente de imigrantes, a Austrália, com uma população de 19 milhões de habitantes, carecia, digamos, de independência futebolística, bem expressos nos nomes dos seus principais clubes, Hellenic, Adelaide City Juventus, Beograd, St. George Budapest, etc, todos fundados por estrangeiros. Seria apenas nos anos 80, com a chamada segunda geração imigrante, que o futebol australiano construiria a sua própria identidade, patente agora, no inicio do novo século, nos nomes dos seus melhores jogadores, como Viduka, Lazaridis, Aloisi, Agostino, todos filhos de imigrantes, e nos clubes de topo – o Melbourne Knights e o South Melbourn, a quem os imigrantes gregos, seus adeptos e fundadores, continuam a chamar Hellas, o nome original. Assim, gerado e suportado, durante várias décadas, por imigrantes, o soccer australiano debateu-se, ao longo dos anos, com o grande problema de muitos dos seus melhores jogadores adoptarem por outras nacionalidades, do país de origem dos seus ascendentes. Foram, por exemplo, no passado os casos dos britânicos Tony Dorigo, e McDermott, e até do italiano Vieri, que passou toda a sua infância na Austrália. Foi para combater este problema que, em meados dos nos 90, o antigo seleccionador Eddie Thompson decidiu fazer alinhar pela selecção australiana, logo na categoria mais baixa, todos os jogadores que revelem potencialidades, para evitar mais tarde serem utilizados por outras nações. Desta forma se formou a base do novo valor competitivo do soccer australiano, que embora assente num vasto grupo de talentos a jogar no continente europeu, conservam a nacionalidade australiana e fazem parte da selecção dos cangurus.

AS ESTRELAS DE FRANK FARINA

Para todos os amantes do futebol dos socceroos, não existem dúvidas: esta é a melhor geração de sempre do futebol australiano. Face ao amadorismo e ás bancadas vazias que testemunham a maioria dos jogos da sua fraca Liga Nacional, o valor do futebol australiano pode ser vislumbrado pelo talento dos seus muitos jogadores –cerca de 120- a jogar além fronteiras, sobretudo na Europa, que a partir dos anos 90, descobriu por fim o filão do futebol Aussie, essencialmente atlético e jogado com grande espirito de sacrifício. Vejamos as principais estrelas australianas a jogar no estrangeiro: Guarda-Redes: Bosnich (Chelsea), Schwarzer (Middlesbrough), Zois (NAC) e Didulica (Ajax) Defesas: Lazaridis (Birmingham), Popovic (Sanfredde Hiroshima), Moore e Vidmar (Glasgow Rangers), Blatsis (Derby Conty), Broxton (Southampton), Coyne (Dundee), Madaschi (Atalanta), Laybutt (Feyenoord), Muscat (Wolverhampon) e Edds (Nottingham Forest). Médios: Okon (Middlesbrough), Emerton (Feyenoord), Burns e Groves (Leeds), Corica (Sanfrecce Hiroshima), Skoko (Genk), Titatto (Manchester City), Noto (Torino), Rhodes (Charlton) e Gilman (Norwich) Avançados: Viduka (Leeds), Sterjovski (Lille), Agostino (Munique 1860), Aloisi (Coventry), Kewell (Leeds), Spireti (Lierse), Severino (Piacenza), Zdrilic (Unterhaching) e Zane (Molde). Com os clubes a apostar pouco na formação, a maioria dos jovens futebolistas australianos crescem, como desportistas e como homens, no Instituto Nacional dos Desportos, em Camberra, com toda a formação a ser paga pela Federação Australiana de Futebol. Foi o que sucedeu com a sua primeira grande estrela internacional, o extremo Frank Farina, que no final dos ano 80, saiu de Sidney para jogar na Bélgica, no Genk, passando depois pelo Calcio, no Bari, terminando no futebol francês, onde alinhou por Strasbourg e Lille. Hoje, com 41 anos, após ter encerrado a carreira no Brisbane Strickers, tornou-se, desde 1999, no primeiro australiano a ser eleito para orientar a selecção da Austrália, depois de vários anos de apostas em treinadores britânicos, desde Eddie Thompson a Terry Venables. Ao contrários dos seus antecessores, Farina tem o perfil ideal para lançar a Austrália nos grandes palcos do futebol mundial, pois para além de conhecer profundamente a realidade do futebol australiano, possui grande experiência no futebol internacional.

RUMO AO PLAY OFF COM A AMERICA DO SUL

Sem peso nos diferentes lobbys dentro da FIFA, a Oceânia é o único continente que não tem um posto sequer assegurado na fase final do Mundial. Em todo o território, apenas a Austrália e a Nova Zelândia tem nível competitivo internacional. Todas as outras nações ainda estão, futebolisticamente, na idade da pedra. Em toda a história, apenas por duas vezes esteve representada na fase final de um Mundial: Austrália, em 74 e Nova Zelândia, em 82. Nesses casos decidiu o apuramento contra uma selecções da Ásia e da CONCACAF, o que, excepto em 98, não sucedeu nas edições seguintes, onde defrontou selecções sul americanos ou europeias, teoricamente mais fortes. Em 86, o carrasco da Austrália foi a Escócia e em 94, foi a Argentina. Esta época, no seu grupo de qualificação para 2002, a Austrália irá defrontar, inicialmente, as Ilhas Fidji, Samoa, Samoa americana e Tonga, para depois jogar com o vencedor do outro grupo, onde está a Nova Zelândia, Tahiti, Ilhas Salomão, Ilhas Cook e Vanuatu. Quem vencer essa final da zona oceânica irá defrontar o quinto classificado sul americano, para decidir o apuramento para o Japão e Coreia.

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