É difícil distinguir uma verdadeira escola do guarda-redes português. Através dos tempos cruzam-se diferentes estilos. Não existe qualquer ponto de contacto entre o estilo galã e elegante de Damas ou Baía e o desgrenhado e saltador de Bento ou Quim. E todos estão entre os melhores guardiões lusos das últimas três décadas. Penso que essa indefinição estilística que sempre marcou essa posição em Portugal em termos de escola (ao contrário do outros países) é muito responsável pela crise que hoje se vive nas nossas redes, ao mesmo tempo que num percurso inverso os guarda-redes brasileiros invadem as nossas equipas (11 titulares: Helton, Artur, Peçanha, Nilsson, Diego, Cássio, Adriano, Fabiano, Gottardi, Huanderson, Marcelo, e mais alguns no banco).
Seria um debate mais profundo, mas a base para o emergir desta nova geração de guarda-redes brasileiros (antes ignorados) reside na criação de uma escola própria. O estilo do guarda-redes brasileiro está, em geral, identificado. Alto, ágil entre os postes, forte nas saídas (pelo ar ou no um-para-um) e a jogar com os pés. Existem excepções, claro. Diego é o que foge mais a este protótipo, mas Fabiano e Adriano que chegaram esta época à I Liga são o retracto mais fiel do tipo de guarda-redes que a actual escola brasileira gera.
Dos portugueses da I Liga, é difícil encontrar um padrão, desde o esguio Rui Patrício ao entroncado Rui Rego, ou entre Quim e Paulo Lopes. Todos muito diferentes. Alternam pontos fortes e fracos entre si, sem se distinguir uma verdadeira cultura de posição. Não é um problema novo. Só foi melhor disfarçado antes porque os autodidactas do passado, que viviam do seu físico (quer para utilizar as suas vantagens naturais, quer para as disfarçar, Bento aprendeu a voar, Baía cresceu elegante) sabiam quase como que formarem-se a si próprios, num tempo em que o treinador de guarda-redes era, em geral, o veterano da casa que deixara de jogar.
A solução passa, claro, pela base. Formação com uma prévia selecção de ordem física que permita trabalhar em especificidade a nossa escola. Não tempos, morfologicamente, facilidade em gerar guarda-redes de 1,90m. Por isso, há que trabalhar outros aspectos estilísticos. Em geral, o guarda-redes português joga mal com os pés mas é forte na colocação entre os postes.
A equipa tem três sectores (defesa, meio-campo e ataque), mas o jogo moderno trouxe uma noção de bloco que obriga cada vez mais a defesa, na missão de manter essa união, a posicionar-se mais subida. Para preencher esse maior espaço vazio, exige-se o adiantamento do guarda-redes, para antecipar-se ao avançado. Tal exige leitura de jogo mais atenta. Ou seja, tem de saber dar pelo menos 20 metros de risco à equipa para esta subir. Em vez de 4x4x2 ou 4x3x3 falar em 1x4x4x2 e 1x4x3x3. O segredo, no futebol moderno, é ver o guarda-redes como um…jogador.