Balneário: as portas mais “secretas”

8 de Junho de 2010 16:34
Primeiro passo de um treinador num clube: Descobrir quem tem as chaves das portas mais secretas do balneário.

 

Acredito que os jogos se decidem mesmo nos «pequenos detalhes». Desconfio, porém, que eles estejam dentro do campo. Nesse território, são mais as «grandes competências» que decidem. Onde creio mais na importância do detalhe é fora do relvado, nas relações que se criam, no sentimento comum, no poder de comunicação. Um exemplo? Os primeiros e os últimos instantes da prelecção do treinador com os jogadores antes da equipa saltar para o relvado. São, ao mesmo tempo, a “primeira impressão” criada e as “últimas palavras que ficam”. Por isso a importância destas duas frases e da forma como elas se dizem. 
Bueno, chiquitos, si hacen logo que yo les digo, vamos sacar esto adelante”. Foram estas palavras, reveladas no livro Los secretos de La Roja, as palavras de Aragonés aos jogadores espanhóis antes da Final do Euro 2008. Quem o conhece não achou isso estranho. Afinal, era normal ele dizer isso. Quem estava presente nesse momento especial distinguiu, porém, a diferença: “Dessa vez, no fim, escapou-lhe um meio sorriso…”. Terá sido, dizem, o momento mais brilhante na carreira como treinador, porque foi aquele em que mais entrou dentro da cabeça dos jogadores, como líder e, ao mesmo tempo, como… um deles.  
 
Mourinho chegou a Madrid e a primeira coisa que fez foi falar com Raúl. Não é por acaso. Até porque Mourinho não foi falar com um simples jogador da equipa. Ele sabe que o nº7 merengue tem consigo um bem precioso para o treinador: as chaves das portas mais secretas do balneário do Real. Conseguir partilhá-las, perceber como se abrem (e fecham) é o primeiro objectivo de Mourinho em Madrid.
Liderança pela sedução ou, como diria Tom Peters, guru da gerência de negócios, no livro Em Busca da Excelência, «liderança por vagabundagem», a teoria que diz ser indispensável andar vagueando por entre a equipa, como vagabundo sem direcção, para, sendo parte dela, ler olhares e mentes, e assim, a entender e seduzir. Conquistando Raúl, Mourinho conquista o balneário. 
 
Mas nem todos os balneários têm essas entradas tão claras. O caso de uma selecção é diferente. Porque lhe falta, geneticamente, a noção de grupo. Ele muda muito e só se reúne longe a longe. É difícil, nesse quadro particular, um treinador ser um líder-vagabundo. Em qualquer das situações, a última coisa que o treinador pode perder é a capacidade de pensar. Uma equipa é, essencialmente, o respeito por quatro ou cinco ideias básicas. 
No clube, porém, o treinador avalia os jogadores e, com tempo, se for necessário, trabalha (treina) para lhes mudar alguma particularidade e adaptarem-se à ideia colectiva. Na selecção, é diferente. Nesse campo, o treinador deve escolher os jogadores através de um prévio reconhecimento das suas características (virtudes) e de como elas vão resolver as necessidades da equipa. Não deve pensar em mudá-las. Não tem tempo para isso.
 
Relvado e balneário são duas faces da mesma moeda para um treinador. Sedutor, vagabundo, líder. Até ficar, só ele, com as chaves das portas mais secretas!
 

 

 

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