
Em termos de sistema táctico, nas 19 jornadas disputadas até ao momento, Rijkaard apostou, preferencialmente, por um esquema de 4x2x3x1, sempre com defesa a «4», doble-pivot, três médios mais adiantados (um condutor, Luís Henrique, um playmaker central, Ronaldinho, e um ala-extremo, Luís Garcia) e um ponta de lança (Kuivert ou Saviola). Face a este modelo, desenhado logo na jornada inicial em Bilbao (2-1), ficaram, desde logo, evidentes duas questões chaves: a incompatibilidade de Kluivert e Saviola jogarem juntos na frente de ataque, e o abdicar da aposta em jogar com dois extremos (Quaresma-Overmars) como alguns jogos da pré-época deixaram antever.
Na defesa, é ponto assente a linha de quatro, condenado, desde logo, no papel, qualquer aproximação ao tradicional 3x4x3 de inspiração holandesa. Em termos individuais, Puyol após as primeiras sete jornadas como lateral direito, passou para central dando maior segurança ao eixo de um sector no qual alinharam, alternadamente, as duplas Reiziger-Cocu e Marquez-Puyol (três vezes), Marquez-Reiziger (duas), Marquez-Andersson, Puyol-Reiziger, Puyol-Andersson, Mario-Cocu e Oleguer-Marquez (uma), sendo Puyol-Cocu a mais utilizada (seis vezes).
Puyol e as variações do doble-pivot
Na faixa direita, desde o regresso de Puyol ao centro, alternam Reiziger e Gabri. Na esquerda, Van Bronckhorst é indiscutível. Apesar da maturidade posicional dos seus elementos, falta ao sector um líbero de categoria, pois Puyol é um jogador de grande carácter, mas carece de classe e tranquilidade para liderar e coordenar o jogo de dobras e compensações, laterais-centrais, sem abrir espaços de penetração. O eleito deveria ser Marquez, mas, até agora, desenquadrado do sistema, só foi titular por seis vezes, para além da experiência fracassada, á 11ª jornada, frente ao Bétis (2-1), quando alinhou, como fazia no Mónaco, á frente da defesa, ao lado de Xavi, numa zona onde surge sempre o tradicional doble-pivot, ou seja, dois trincos-volantes á espanhola: Xavi-Gerard (até á 6º jornada), Cocu-Gerard (5ª), Gerad-Motta (da 7ª á 9ª), Xavi-Motta (da 10º á 15º, com a excepção da 11º, com a adaptação Marquez) Xavi-Cocu (da 16º á 18º), para além da estreia de Davids, ao lado de Cocu, na última jornada. Desta forma, como grande condutor, um jogador se destaca: Xavi. Não é, no entanto, longe disso, o farol que foi, no passado, Guardiola, ainda a grande referência para a reconstrução do glorioso estilo de outrora, difícil de resgatar com Rijkaard, um treinador de escola holandesa, mas, digamos, com o mestrado tirado no futebol italiano. Nesse sentido, a nota mais positiva dos últimos jogos, foi a entrada no onze principal de Inesta, sedutor talento da cantera, 19 anos, motor da selecção sub-20, um médio com visão de jogo, precisão de passe, velocidade e vocação ofensiva.
4x2x3x1, 4x4x1x1, 4x4x2:
Ronaldinho e o dilema dos extremos

Na segunda linha do meio campo, Ronaldinho dá lições sobre como deve jogar um médio-ofensivo, mas, pouco apoiado, sem um verdadeiro ponta-de-lança e referências nos flancos, chega a recuar a sua posição em campo para recuperar a bola e, depois, quase sempre, perder-se em jogadas individuais. Falta ao sector mecanização de jogo e capacidade para fazer circular a bola e desenhar triângulos de penetração na fase ofensiva. Assim, nos flancos, Quaresma e Overmars apenas jogaram junto, de inicio, uma vez: á 16º jornada, contra o Espanhol (3-1). De resto, só o fizeram (por seis vezes) nos últimos 20 minutos, quando era necessário virar resultados. Mais do que a opção por um sistema que privilegie o jogo pelos extremos, tratou-se, portanto, de uma solução de recurso, corolário de sucessivas hesitações tácticas.
Assim, depois de um inicio regular em 4x3x2x1, surgiu, á 4º jornada, contra o Osasuna (1-1), num sistema de 4x4x1x1, sem extremos (Quaresma e Overmars no banco), afunilando o jogo, com Gerard, Xavi, Luis Henrique e Ronaldinho no meio campo, atrás de uma dupla atacante colocada horizontalmente, com Saviola atrás de Kluivert, num sistema que se repetiria frente ao At.Madrid (0-0), na ronda seguinte, então com Ronaldinho mais adiantado. Em ambos os casos, insistindo em jogar pelo meio, o campo encurtou-se e desapareceram os movimentos pelos flancos.
Noutro momento de viragem táctica, em Villareal (1-2), apostou, pela primeira vez de inicio, num claro 4x3x3, antes só desenhado, a espaços, nos últimos 20 minutos dos jogos, apostando no jovem Santamaria, ao lado de Luis Garcia e Kluivert, no ataque, mas, sem nunca conseguir dominar o jogo, regressaria, na segunda parte, ao tradicional 4x2x3x1, com Overmars no lugar de Santamaria, ficando Kluivert sozinho na frente.
Dupla personalidade
O grande choque táctico, deu-se, porém, frente ao Real Madrid (1-2), quando, pela primeira vez Rijkaard, para além de estrear nova dupla centrais (Puyol-Reiziger), apostou num claro 4x4x2, povoando o meio campo com quatro jogadores de contenção, Xavi, Cocu, Motta e Gerard, ficando Luís Garcia e Kluivert no ataque. O descalabro exibicional do primeiro tempo, com a zona central do terreno super-congestionada, incapaz de desenhar uma triangulação ofensiva, provocou a alteração ao intervalo, surgindo, então, nos segundos 45 minutos, talvez o melhor Barcelona da temporada, com dois extremos puros (Quaresma, á direita, e Overmars, um destro que joga á esquerda), um ponta de lança fixo na área (Kluivert), e Xavi á frente do doble-pivot Cocu-Motta, a organizar jogo, desenhando um 4x4x3 aberto a toda a largura da frente de ataque, e deixando, assim, evidente a dupla personalidade deste Barcelona de Rijkaard, no qual, por entre todas estas alterações, se destacam dois jogadores com grande espirito lutador: o símbolo Luís Henrique, embora sem o mesmo fulgor de outrora, e Luís Garcia, um médio-flanqueador esquerdo, muito aguerrido mas sem classe para se impor como grande estrela
Neste contexto, analisando sector por sector, depois de preencher, com a contratação de Davids, a falta de um médio defensivo lutador com capacidade de recuperação de bola, falta sobretudo a este Barcelona, um grande ponta de lança, pois Saviola é sobretudo um rompedor que gosta de entrar de trás, em velocidade, e Kluivert não é do tipo de jogar sozinho em cunha entre os centrais, necessitando de um outro jogador para potencializar o seu excelente jogo de passes e desmarcações.
Os sistemas e as tácticas