BARCELONA: Um mundo de gigantes

April 7, 2003 12:00 AM
O Real Madrid é, hoje, uma constelação de estrelas, mas, observando os últimos 30 anos, reparamos que foi sempre o Barcelona a contratar, ciclicamente, os melhores jogadores e treinadores do mundo, desde Cruyff, Krankl, Maradona e Romário, até Helénio Herrera, Rinus Michels, Menotti e, penduradas as botas, de novo Cruyff. Com todos manteve, no entanto, sempre uma relação amor-ódio que, até hoje, marcou a imagem do Barça enquanto clube e, ao mesmo tempo condicionou, no relvado, o estilo de futebol praticado, ao longo dos anos, pelas suas equipas.
Mais do que um clube, o Barcelona é um grito de revolta da Catalunha contra o centralismo de Madrid. Ser treinador no Nou Camp é, por isso, quase como ser o comandante desses histórico sentimento independentista. Visitando os últimos 30 anos é interessante, no entanto, notar que, ao contrário do Real Madrid, onde, desde a hora da contratação, a instituição se sobrepõe ao treinador, no Barcelona, ao invés, apesar de incorporarem essa ideologia catalã, quase todos os seus treinadores, eleitos sempre por terem um carácter forte e destemido, cultivam, digamos, um excesso de personalidade que, ao longo dos tempos, tem causado muitos focos de tensão com a direcção do clube. Quando, nos anos 60, treinava o Barça, Herrera costumava, para incentivar os jogadores, gritar “vamos, toda a Catalunha está atrás de nós!” Nas duas épocas em que esteve no Barcelona, 58/59 e 59/60, conquistou em ambas o titulo de campeão espanhol. Depois dele, o Barcelona teria de esperar 14 anos para voltar a vencer a Liga. Em 73/74 com Rinus Michels, que apesar de ter estado sete épocas no Nou Camp, de 71 a 75 e de 76 a 78, apenas lograria essa conquista por uma vez, no ano da chegada de Cruyff. Tendo em conta o impressionante must de treinadores que passaram pelo clube de 1960 a 1985 – Lattek, Weisweiller, Buckingham, Michels, Kubala, Artigas, Menotti, etc- é intrigante que, em 25 anos, o Barcelona só tenha sido campeão por duas vezes,. Seria o inglês Venables, então com um onze onde brilhavam Archibald e Schuster, a devolver, em 84/85, o titulo ás Ramblas. A razão estava em que, por essa altura, fruto desses passado atribulado, na sombra dos merengues, preso a uma postura demasiado conflituosa e investindo fortunas em jogadores, o Barcelona, ao contrário do Real Madrid, e até de outros clubes espanhóis, como o Ath.Bilbao, o Bétis ou a Real Sociedad, não cultivava um estilo de jogo próprio. Era o chamado futebol dos beduínos. Cada treinador, quando chegava, incutia os seus princípios, ganhava, perdia, entrava em conflito, ia embora e, tudo voltava ao inicio. O ponto de viragem surgiria com o regresso de Cruyff, em 1988, agora como treinador.

Rijkaard, em nome de um estilo

Para além dos fantásticos Koeman Stoichkov ou Laudrup, há um jogador que simbolizou, no relvado, o nascimento desse novo Barcelona: Guardiola. A partir dele, o Barcelona construiu uma cultura de jogo, pode-se dizer de inspiração holandesa, mas com assinatura própria no carácter. Era o estilo carrossel, de muito toque de bola, circular e apoiado desde a defesa, onde, ao colocar, por exemplo, um médio como Eusébio a lateral direito, se dizia claramente que era desde trás que se queria começar a construir o bom futebol. A alma estava, porém, na zona central, sob a meia lua, com Guardiola, o grande garante do sistema circular. Depois dele, no mesmo estilo, surgiu Xavi, mas preso em contradições tácticas, não foi tão bem utilizado, ao ponto do seu sucessor, um jogador simplesmente fantástico, Arteta, ter sido até dispensado. A sair da cantera, está agora outro exemplar da mesma linhagem: Iniesta. Rijkaard é um treinador de escola holandesa mas, digamos, com o mestrado tirado no futebol italiano. Por isso gosta de definir que, no futebol, os jogos ganham-se com segurança na defesa, garra a meio-campo e brilhantismo no ataque. Aconselhado por Cruyff que, com Laporta presidente e Beguiristain, director desportivo, volta a ter grande peso nas decisões estratégicas do Nou Camp, Rijkaard é, de todos os técnicos que passaram pelo Barça nos últimos anos, o de maior low-profile. Ao contrário dos seus antecessores, chega ao clube sem grande passado. Apenas uma aventura fracassada no Sparta Roterdão e outra, curta, na selecção holandesa. A razão da sua escola reside, portanto, na intenção de fazer revitalizar esse estilo que, nascido em finais dos anos 80, ficou algo descaracterizado pelas egocêntricas experiências de Van Gaal. Antes que mergulhe no mesmo fosso onde esteve nos anos 60, 70 e parte dos 80, é imperioso, tal como á génese clubística, também dar ao jogo um ideologia. Só assim faz sentido que, como lhe chamara os historiadores, o Barça seja, nos relvados, a sublimação épica do povo catalão.

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