Esta é uma ideia que aumenta a cada jogo que passa, nos quais ficam claras as grandes carências deste Real: um central e um médio-defensivo. Como grande questão posicional, discute-se qual o melhor lugar para Beckham? Consagrado em Manchester como um dos melhores médios-ala direitos flanqueadores do mundo, flectiu no terreno em Madrid e, permanecendo Figo na faixa destra, passou a actuar na zona central partindo da frente da defesa, como médio centro organizador, compondo o doble-pivot defensivo com Guti ou Cambiasso. Não é, em rigor, uma situação nova, pois, já Alex Ferguson, como Eriksson na selecção, o tinham utilizado, embora não tanto recuado, nessa posição mais central, procurando, dessa forma, aproveitar, em termos tácticos, a sua sublime visão de jogo que, colocado no centro, passando a elaboração do jogo mais vezes pelos seus pés, se tornaria mais influente na distribuição de jogo, até porque, em ambos os casos, tinha nas suas costas dois grandes médios-defensivos: Keane ou Lampard.
Por definição, um jogador de grande carácter, Beckham, adaptou-se sem tremer ao novo habitat táctico de Madrid. As suas exibições são sempre, em geral, positivas, a bola é sempre bem tratada nos seus pés, mas não sendo geneticamente um organizador de jogo, para além da pouca velocidade de movimentos, não rende ao melhor nível nessa zona, onde lhe é impossível soltar o gesto técnico que executa com maior perfeição: os longos e tensos cruzamentos enroscados para o coração da área, metendo a bola, carregada de veneno, nas costas dos defesas, a chamada zona de ninguém, á espera que algum avançado, astuto, a empurre para a baliza. Alinhando no centro, eles desaparecem, desoladoradamente, do jogo.
Assim, através da evolução de Beckham, é possível compreender os dilemas deste Real. Na hora de atacar, é um poema. Na hora de defender, em face dos jogadores que compõem as duas linhas do meio-campo, não é de estranhar que sinta tantas dificuldades, apesar de, nesse momento, Beckham seja o mais activo na luta pela recuperação de bola. Esse não é, porém, o verdadeiro ADN do seu futebol. Por isso, se pode dizer que este Real, é, digamos, duas equipas: uma com a bola, outra sem ela. Uma fabulosa, outra...banal, respectivamente.