No onze ainda surge, por vezes, um nome que recorda outras eras, mas hoje o futebol belga vive muito distante dos seus dias de glória. O nome mágico é Vandenbergh e corresponde a um terrível ponta-de-lança dos fantásticos anos 80, ao lado de Gerets, Vercauteren ou Ceulemans. O novo Vandenbergh é filho do goleador do passado, mas entre ele e o seu progenitor existe um abismo a separá-los. Tal como em relação a toda a equipa. O seleccionador René Vandereycken, que também jogou nessa selecção, sabe disso. Van Buyten, central do Bayern Munique é a sua principal estrela, mas não é jogador para sozinho levantar a equipa. Continua com bons valores na defesa, mas, do meio-campo para a frente, faltam referências de classe para liderar a renovação. Nos últimos anos, ainda se pensou em Baseggio, médio organizador, como novo símbolo, mas após um bom inicio de carreira, perdeu fulgor, não confirmou as promessas e hoje, aos 28 anos, desapareceu da selecção.
A falta de Simons e a dinâmica de Geraerts

Sem Simons, médio patrão, Goor, ala esquerdo, Dembelé e Mpenza, perigosos avançados, e Kompany, central, o onze que desafia Portugal é ainda mais débil. É, no entanto, uma equipa tacticamente inteligente, que, apesar de fisicamente robusta, não procura aumentar a dimensão física do jogo. Tal não faz parte da tradicional escola belga, mais adepta das desmarcações, passes a dois-três toques, aproveitamentos dos espaços vazios e contra-ataques rápidos. Falta-lhe, no entanto, individualidades para o fazer com a mesma eficácia do passado. Para subir a sua linha defensiva é decisivo o lateral-direito Hoefkens, a referência para os centrais se adiantarem no terreno e tentar colocar os adversários fora-de-jogo, velha armadilha do futebol belga, embora hoje muito menos evidente. Pela influência a gerir as transições defesa-ataque-defesa, Simons é o jogador mais difícil de substituir. O seu substituto natural seria Mudingayi, da Lazio, mas sem a mesma intensidade de jogo do habitual titular. Terá de ter a ajuda permanente de outro médio de cobertura ou então prender mais atrás Geraerts, libertando talvez o esquerdino Martens, uma mescla de médio ofensivo e segundo avançado. No ataque, a velocidade de Mpenza, embora com pouca precisão no último passe, as desmarcações de Vandenbergh e a passada larga do estreante esguio Sterchele.
DOIS JOGOS, DUAS ESTRATÉGIAS
Os dois jogos disputados contra duas das selecções mais fortes do grupo foram bons exemplos para ver as duas faces tácticas desta Bélgica. Contra a Sérvia, fora, jogou, no papel, num 4x5x1. Contra a Polónia, em casa, apostou no 4x4x2. Em ambos os casos, alinhou com duplo-pivot defensivo e alas abertos, mas os princípios de jogo foram muito diferentes.
Na Sérvia, fechando espaços
Na Sérvia, no papel até poderia supor-se um 4x2x3x1 com dinâmica de 4x3x3 com a subida dos alas, mas o jogo revelou um comportamento diferente. Assim, com Simons e Mudingayi como médios defensivos à frente da defesa, os alas (Goor-Dembélé) quando a equipa perdia a bola, recuavam e ficavam de perfil com o médio de transição (Geraerts), vértice mais adiantado do triangulo do meio-campo. Ou seja, na prática, a Bélgica jogava com cinco médios num meio-campo dividido em três linhas: a primeira com Simons-Mudingayi, a segunda com Geraerts, e a terceira com Dembelé-Goor. Resgatada a bola, Geraerts soltava-se pelo corredor central, surgindo em apoio ao ponta-de-lança Mpenza, enquanto Goor, na esquerda, flanqueava jogo e Dembéle, pela direita, aproximava-se da área. A grande intenção é, no entanto, manter sempre superioridade numérica a meio-campo e fechar os espaços.
Contra a Polónia, mais ofensivo
Contra a Polónia, em casa, manteve a estrutura defensiva, com dois médios recuados na cobertura, mas as ligações meio-campo-ataque foram diferentes. Com alas abertos, Vanden Borre, na direita, e Goor, na esquerda, ganhou maior dinâmica ofensiva pelas faixas, enquanto no centro, Simons libertava Geraerts para subir no terreno, quer para auxiliar na recuperação em pressing alto, quer para apoiar o ataque, onde estavam, em permanente movimento, dois avançados soltos (Vandenbergh-Mpenza). A perder ao intervalo, mudou, no papel, para o sistema utilizado na Sérvia, mas com jogadores diferentes, deu-lhe uma dinâmica diferente, próxima do 4x3x3 a atacar, com Huysegems na esquerda, Mpenza na direita e Vandenbergh no meio. Geraerts e Goor ocuparam o centro e Simons ficou a trinco. A equipa ocupa bem os espaços mas falta-lhe agressividade sem bola, altura em que as suas linhas recuam excessivamente, ficando então com o bloco muito recuado e próximo da sua área. É nessa alturas, quando pressionado, que se evidencia a sua qualidade no jogo aéreo, fruto da sua superior capacidade atlética, algo que não se evidencia a meio-campo.
ESTRELAS BELGAS A SEGUIR
VAN BUYTEN

Posição: Defesa-Central Idade: 29 anos (7-2-78) Clube: Bayern Munique Fisicamente possante (1,96 cm e 87kg.), forte no jogo aéreo e tecnicamente dotado com a bola nos pés, intimida qualquer avançado. Personalizado, com impecável sentido posicional E ganhando quase sempre no choque. Não possui, no entanto, grande jogo de cintura. Algo lento, necessitaria, para melhor exibir o seu jogo, de ter a seu lado um central mais rápido para lhe cair nas dobras.
GERAERTS

Posição: Médio Idade: 25 anos (5-1-82) Clube: Standard Liège Um médio completo. Tecnicamente dotado e lutador, pode jogar no centro ou na ala. Evidencia melhor as suas capacidades quando joga mais solto como médio de transição sobre o centro, pois lê o jogo de trás para a frente. Fisicamente resistente (1,80m. e 78kg.) trabalha para a equipa, mas também pode fazer a diferença pelo talento individual com a sua visão ofensiva e remate.
VANDEN BORRE

Posição: Central, lateral-direito ou médio Idade: 19 anos (24-10-87) Clube: Anderlecht Estreou-se com apenas 16 anos na principal selecção da Bélgica, mas perdeu o fulgor desse inicio. Defesa central de origem, destacou-se a lateral-direito e agora também é utilizado a médio direito, posição em que jogou contra a Polónia. Faz todos os lugares de forma segura, embora lhe falte poder de explosão. Talvez, por isso, tenha estado no banco tantas vezes esta época no Anderlecht.
VANDENBERGH

Posição: Avançado Idade: 25 anos (14/3/82) Clube: Genk Filho do goleador dos anos 80 com o mesmo nome, o herdeiro Vanderbergh, embora muito longe do valor do pai, é um avançado interessante. Desmarca-se bem, é rápido, esquivo entre os defesas, deambulando por toda a frente de ataque, mas entrando sobretudo pela faixa direita. Esta época, no Genk, leva 11 golos em 20 jogos. Na selecção, fez 3 em 13 jogos.
STERCHELE

Posição: Avançado Idade: 25 anos (14/3/82) Clube: Germinal Beerschot Revelação goleadora da época na Bélgica (15 golos em 24 jogos), é a sua primeira convocação para a selecção. Esguio (1,85m. e 77kg.), de passada larga a furar entre os defesas, embora sem ser muito móvel, é o tipo de avançado, pela sua compleição física, difícil de ser marcado em cima. Depois de ter marcado muitos golos nas divisões secundárias, busca agora confirmar-se entre a elite.