“Bloco de notas” com bola

21 de Outubro de 2011 08:57
Giovinco, Hernanes, Campbell, Gago, Arteta, Jovetic, Bale... As ideias aplicadas aos jogadores.

 

Viajando, a cada semana, por vários relvados da Europa, muitos pensamentos de futebol ficam pelo bloco de notas. Eis algumas (jogadores, equipas, estilos) dessas reflexões:
1. O que vale verdadeiramente o futebol de Giovinco? Vejo a sua grande exibição (mais uma) pelo Parma em Nápoles e penso se será o típico caso do craque na equipa pequena que tem dificuldade de encaixar numa equipa grande (falhou na Juventus) .Questão de inadaptação de estilo? É, essencialmente, um rato veloz de ataque (e sobretudo contra-ataque) em zig-zags imprevisíveis. Ser franzino influencia nesta sensação? Talvez. Mas não é decisivo. Perturba a sensação de certeza que o talento existe mas não se vê como o utilizar ao mais alto nível. Não é fácil dizer claramente qual a sua melhor posição. Por princípio, este tipo de avançado móvel solto, quase anárquico que joga um jogo diferente (na qualidade e movimentos) do resto da equipa, foge ao conceito de equipa grande. Se fosse mais um extremo ou típico jogador de faixa, já não se pensaria tanto assim.  
 
2. É o médio que mais admiro no actual futebol de top, no sentido de ser várias coisas no mesmo jogo (no estilo, ora mais tecnicista, ora mais táctico, e nas missões, ora constrói ofensivamente, ora marca e recupera). Tudo com qualidade, na cabeça e nos (dois) pés. O herói táctico-técnico ambidestro é Hernanes e tem o melhor de…três mundos: finta como sul-americano, marca como um europeu e, com isso, assume a dupla-personalidade (o terceiro mundo particular do seu futebol) que o faz estar em todo o jogo com qualidade. Não entendo como não é titular indiscutível na selecção do Brasil. É a alma táctica da Lazio. Perfeita ligação entre leitura de jogo e execução. A equipa (entenda-se a visão do treinador Reja) sabe servir-se dele para tirar vantagem de circulação ou ruptura.
 
3. É das ideias mais assentes que tenho: a Liga francesa é a ideal para fazer crescer jogadores. Volto a pensar nisso vendo o avançado móvel (ponta-de-lança ou solto em sistemas com dupla atacante) Campbell, talento da Costa Rica, pescado pelo Arsenal com 20 anos ao Saprissa e emprestado ao Lorient. Segue o estilo dominante dos avançados nos relvados franceses: um avançado com estilo de corredor de fundo. A forma de jogar da equipa (espelho de muitos onzes gauleses) com alas bem abertos, profundidade a atacar pelas faixas, e espaço livre em estratégias que vivem muito do contra-ataque favorecem o seu futebol predador de espaços vazios. É, porém, no corredor central, que explode melhor o seu futebol, numa equipa que tem dois outros belos exemplares nesse espaço (Emeghara, também jogador de desmarcações, e Aladiére, cultura de movimentos) ficando Monet-Paquet, puxando jogo para dentro, destro na ala esquerda, e Jouffre, canhoto do passe preciso, na direita. Uma boa equipa para ver, esperando ver o momento em que a bola decide juntar-se a Campbell.   
 
 
 
  
“Ameaça” de craque
 
Outra sensação perturbante é reencontrar um jogador que, no início de carreira, projectamos grande futuro e, depois, embora solte qualidade, não explodiu totalmente.  
4. Gago, o pibe que aos 18 anos no Boca parecia pensar o jogo antes de todos os outros jogadores em campo, tem esse efeito imediato. Falhou no Real e agora na Roma, num meio-campo de três médios surge como interior-esquerdo com dificuldades em acelerar. Mantem o vício de após fazer um passe curto, aproximar-se do jogador a quem…fez o passe, quase a pedir (obrigar) a passar-lhe a bola outra vez. Não vai embora (isto é, não sobe no terreno) naturalmente e, com isso, o seu jogo é quase uma metáfora da sua carreira. Qualidade no primeiro toque, dificuldade em ver depois espaços de progressão.
 
5. Entrou no Arsenal após a saída de Fabrègas, mas apesar de nascido no mesmo local e posição (Barça e pivot), é muito diferente conceptualmente no jogo. Não tem a vocação de ruptura de Cesc que era quase segundo avançado de último passe. Arteta é mais contemplativo. Até pode partir dos mesmos espaços, mas joga sobretudo em apoios. Coloca-se bem, recebe, olha, passa e…fica. Dá a ideia, porém, que podia ser mais qualquer coisa no jogo. É difícil, porém, mudar dinâmicas tão enraizadas que já lhe turvaram essa maior amplitude de jogo.
Gago e Arteta, duas ameaças de craque que o relvado não confirmou na total dimensão.
 
 
 
 
 
“Fora de posição” 
 
Cada jogador tem o seu habitat natural em campo. Fugir a isso é afastá-los do que fazem melhor. Dois casos de talento fora de posição:
6. Jovetic, desde os Sub-21 que vi nele um grande avançado. Vejo-o, porém, no centro do ataque. Livre para movimentos (essencialmente curtos) de recuo e apoio, mas preferencialmente na posição 9 (de frente para a baliza). Na Fiorentina surge quase sempre na ala, a esquerda. Poderia flectir mais, mas as diagonais não são (longe disso) o seu forte. Um caso de banalização posicional de um grande jogador.  
 
7.Bale, lateral-esquerdo fabuloso. Potência, técnica, velocidade, remate. Vendo a facilidade com que chega à área, puxaram-no para médio. Não acho o ideal, mas a sua qualidade é tanta que resiste a tudo. Ou talvez não. Por exemplo, ao que lhe fizeram nos últimos jogos, por Gales (contra Bulgária) e Tottenham (contra Newcastle): meteram-no na ala direita. Não entendo a intenção. Perde verticalidade e o seu espaço ideal de finalização. Fez duas exibições sem chama. Em suma: as características do jogador são o mais importante e as boas ideias só existem se as respeitarem.  

 

 

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