O futebol «rock and roll»
As imagens de Scolari no banco do Chelsea devoraram as emoções da primeira jornada da Liga inglesa. O desenho do Chelsea, porém, não mudou muito. Continua fisicamente poderoso no meio campo, com Mikel no papel de Makelele e a sociedade Lampard-Ballack mais solta, mas com o capitão inglês a recuar muitas vezes para fazer dupla com Mikel na marcação zonal e recuperação de bola. E, depois, há Deco. Caindo sobre a esquerda, em alternância com Ballack. Do outro lado, Cole. Ainda faltou Drogba. Esteve Anelka e, desta forma -entre o 4x3x3 e o 4x2x3x1- esmagou o Portsmouth. Mas, há mais vida na Liga inglesa.
O Liverpool voltou, em Sunderland, ao lado sombrio dos inícios de época da gestão Benitez. Um jogo apoiado mas lento num 4x4x2 pouco agressivo, com Torres e Keane na frente, Kuyt e Benayoun nas faixas. Gerrard no meio e o garçon gaulês Plessis mais atrás.
Parece que confiam que o golo vai aparecer sempre, nem que seja mesmo no fim. E foi. Já com o passe teleguiado de Xabi Alonso em campo e o remate de Torres. Um espanhol cada vez mais britanizado na forma de atacar. Isto é, a bola aparece e em vez de mais uma finta ou um toque, começa a ser mais comum rematar de imediato. O onze, porém, não ganha personalidade. Tem muitas faces. E, assim, é difícil ser um forte candidato ao título.
Entre estrelas em estreia, olhar especial para Modric no Tottenham. Frente a um Middlesbrough de rosto bem inglês, apostando no jogo aéreo, sentiu dificuldades em pegar na bola e, claro, no jogo, sempre em ritmo alto. Jogando num 4x4x2 clássico ao lado de Jenas como médio-centro, sentiu o choque com a intensidade de jogo, até porque nas alas Bentley e Lennon vão embora com facilidade e dão poucos apoios para o passe curto.
Nota positiva no onze de Juande Ramos para outra nova estrela. O mexicano Giovanni dos Santos. Com Berbatov no banco, sonhando com Manchester, foi o mexicano que abanou com o ataque, fazendo uma boa dupla com Bent, mais em cunha com os centrais. Perdeu o jogo (2-1) mas tem equipa para mexer na frente.
Noutro relvado, dia mágico para o Hull City. A estreia na Premier League com o veterano Nickly Barmby, velha glória de Liverpool, 34 anos, ainda com o mesmo espírito no jogo. É incrível como tantos jogadores ingleses conseguem dar essa sensação. É quase como se domassem o tempo. Bateu o Fulham com outro Giovanni, que outrora empolgara a Luz, a brilhar na caça ao golo.
São as primeiras emoções na relva inglesa. Onde a tradição permanece. Até a mais bela dos tempos modernos, expressa no toque circular, de pé para pé, com sedução e alegria do Arsenal. Nesse mundo de bom futebol, um novo profeta baixinho. O gaulês Nasri. Tudo isto é futebol «rock and roll».
Champions: Seguindo o Fenerbahce de Aragonés

O Fenerbahce está na elite da Champions mas os jogos com o Partizan na pré-eliminatória mostraram o peso da herança de Zico. Aragonês tenta reproduzir um pouco do estilo da sua Espanha na esquematização da equipa.
A base da equipa é a da época passada. Continua a apostar numa forte dupla de centrais chefiada pelo uruguaio Lugano, surgindo a seu lado Edu ou Gokhan. Nas alas, Gunul à direita, e Roberto Carlos à esquerda, mas distante do que foi no passado. Aos 35 anos perdeu muita da velocidade e a defender dá muito espaço ao extremo.
Como farol do onze à frente da defesa, outro bom jogador, mas também lento: o chileno Maldonado. Prende muito o jogo na saída da transição defesa-ataque. Esse momento só melhora quando Alex recua no terreno e pega na bola, levando-a para a frente. Com isso, porém, desgasta-se muito e depois quando surge na segunda linha onde podia desequilibrar pelo passe ou no um para um, já surge sem a mesma potência de jogo.
Nas alas, Boral à esquerda continua tacticamente perfeito. Fecha sem bola e abre a atacar com qualidade, arrancando para a área muito bem. Na direita, custa ver o veloz Kazim tantas vezes a jogar tão por dento, quando ele faz antes a diferença pela faixa, em movimentos verticais de ir à linha.
No ataque, Guiza fixo entre os centrais e Senturk no apoio. Uma boa dupla, com presença na área e mobilidade.
Passou o Partizan (2-2 e 2-1) mas fica a ideia de que o Fenerbahce de Aragonês é ainda uma equipa sem personalidade definida, a necessitar aumentar o ritmo.
(Nota: Na foto, dois protagonistas do onze turco de Aragones: Guiza e Alex)
Mas, Petit é um nº10?

O futebol alemão é a cara do seu estilo de jogo. Petit encaixou bem na musculatura do meio-campo do Colónia. Vejo-o jogar frente ao Eintracht Frankfurt e vejo um jogador solto, sempre a pedir a bola para assumir o jogo e subir no terreno para entrar nas manobras atacantes. Deixa de ser o mero trinco (a equipa joga com duplo-pivot defensivo) e vai para a segunda linha do meio-campo.
Entre os alemães, para quem o futebol se faz com eficácia e mecânica, o jogo de Petit conquista adeptos, levando até a imprensa a discutir qual a sua verdadeira posição.
Por isso, não estranhei muito que ainda esta semana alguns jornalistas alemães perguntassem se, afinal, Petit é um nº10? Não é, claro, expliquei, mas percebe-se a dúvida.
A expressão futebolística pode ser a mesma mas basta mudar o seu local para o efeito do discurso em campo e na bancada ser diferente. No habitat do estilo alemão, os argumentos do jogo de Petit têm outra importância.
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