BNEI SAKHNIN: O Milagre do Futebol

24 de Outubro de 2004
“ UM JOGO DE FUTEBOL NÃO DURA SÓ 90 MINUTOS. DURA 90 MINUTOS, MAIS TODA A VIDA DE QUEM O VIU NO ESTÁDIO...\".
A história do Bnei Sakhin ou como um simples clube de futebol composto por árabes e judeus tornou-se numa referência de paz por entre o violento conflito israelo-palestiniano. Da conquista da Taça de Israel a Newcastle, até á disputa da Taça UEFA. Uma história de utopias e sonhos, viajando por entre bombas e bolas de futebol, cenário das selecções da Palestina e Israel.

Mesquitas, sinagogas e um estádio de futebol

Entre os jogadores hebreus do Bnei Sakhnin, está o experiente Avi Danan, cuja família ortodoxa, sentiu, ao principio, dificuldade em aceitar esta sua opção de jogar num clube árabe, como no passado também já fizera seu irmão. Danan tem, no entanto, uma visão diferente do conflito e do mundo,. Os seus pais cresceram em Marrocos, entre árabes, pelo que desde pequeno que fala a língua deles, vivendo os seus costumes. Nos dias em que as bombas rasgam a atmosfera e um atentado provoca mais uma dezenas de mortos, muitas vezes é ele o primeiro, acompanhado dos outros jogadores judeus da equipa, a confortar e a dar condolências aos elementos árabes do grupo, muitos deles com famílias a viver nos territórios ocupados. É por isso que, quando lhe falam se é possível a paz para o médio oriente entre árabes e palestinos, Danan diz que basta olhar para os jogos do Sakhnin para entender a forma de tornar essa utopia em realidade. No fundo, o clube é, ao mesmo tempo, um símbolo de independência e integração. Findo os treinos, alguns jogadores, os árabes, cientes dos seus deveres religiosos, dirigem-se para a Mesquitas, outros, como Danem e seus irmão, buscam uma Sinagoga, para fazerem as suas orações. Esta intromissão do futebol árabe entre a elite do campeonato israelita é, no entanto, um fenómeno recente. A primeira vez que uma equipa árabe chegou á I Divisão de Israel foi em 1996, proeza lograda pelo Hapoel Taibe. Sem grande poder competitivo, foi despromovida logo na época seguinte e desde essa data nunca mais um onze árabe, cujos jogadores alinham quase todos por equipas hebraicas, voltara á divisão principal, até que, em 2003, o Bnei Sakhnin e o Nazarateh, outra equipa árabe, regressaram ao primeiro plano. Embora o Nazareth tenha descido na época seguinte, o onze de Sakhnin foi capaz de manter viva a alma árabe na elite do futebol israelita, salvando-se, na última época, por apenas um lugar, de nova descida de divisão. Ficou em 10º num campeonato de 12 equipas. A conquista da Taça levou, no entanto, todo o mundo árabe e palestiniano á loucura. Apesar destes recentes sucessos, o Bnei Sakhnin não possui estádio, nem um campo próprio para treinar, disputando os seus jogos, em casa, a 50 quilómetros da sua cidade, em Haifa. Gerido pela câmara local, o clube agoniza em graves dificuldades financeiras, pelo que este êxito desportivo representa um verdadeiro milagre. O jogador mais bem pago do plantel não ganha mais de cerca de 30.mil Euros por ano. Devido á sua conotação arabe-palestiniana, as prósperas empresas judaicas não patrocinam o clube. Algo que apenas a companhia telefónica Cell Com, buscando cativar a clientela árabe, se atreveu a fazer. Na noite em que o capitão Abas Suan recebeu a taça das mãos do Presidente israelita Moshe Katzav, todo o mundo tinha, no entanto, os olhos postos na equipa e nas camisolas vermelhas e brancas do Bnei Sakhnin. Toda esta história isto pode parecer efémera e sem grande significado por entre a aterrorizante força da guerra. O seu simbolismo de união ultrapassa, porém, o simples relvado de futebol, pois como disse o investigador Celso Unzelte: “Um jogo de futebol não dura só noventa minutos. Dura noventa minutos, mais toda a vida de quem o viu no estádio...”
Na noite de Newcastle, cidade banhada pelo tempestuoso mar do norte, a presença das bandeiras da Palestina nas bancadas de St.James Park, rasgavam a atmosfera e, na mente de todos, ultrapassavam as quatro linhas de um relvado de futebol. Embora no contexto da organização do futebol europeu, o Bnei Sakhnin seja uma equipa israelita que garantiu a presença na Taça UEFA através da conquista da Taça de Israel, o seu nome e emblema ultrapassam essa mera realidade geográfica e encontram a razão de ser, sobretudo, na sua génese criadora, um clube de raiz árabe, onde se abriga a causa palestiniana, capaz de, pela primeira vez na história, penetrar entre a elite dos clubes hebreus e vencer um titulo nacional. Uma conquista desportiva que, num país dilacerado por um milenar conflito sangrento entre árabes e judeus, revestiu também um grande significado político. A base da equipa, orientada pelo judeu Eyal Lachmann, é de origem árabe, mas dela também fazem parte três jogadores judeus, simbolizando o carácter multi-étnico de um grupo onde também estão quatro africanos (o camaronês Etchi Oben, o congolês Masudi, o nigeriano Agoye e o guarda redes Murambadoro, vindo do Zimbabwe) um brasileiro (Cléber) e um húngaro (Lendvai). Diferentes nacionalidades, diferentes culturas, diferentes opções religiosas, cruzando-se muçulmanos com católicos ortodoxos. Agora, estava em Inglaterra para disputar a primeira eliminatória da Taça UEFA. Num território onde cerca de 20% da população dos habitantes de Israel são árabes que, ao contrário dos palestinianos que permanecem nos territórios ocupados, adquiriram a nacionalidade israelita, a maravilhosa aventura do Bnei Sakhnin rumo ás competições europeias começara meses antes, numa noite de Maio, quando mais de 30 mil árabes israelitas rumaram ao Estádio nacional para defrontar o Hapoel Haifa, poderoso clube judaico, na final da Taça de Israel. Uma longa peregrinação futebolística que partira de vários pontos, desde o deserto de Negev, Jaffa e pequenas cidades nos arredores dos territórios ocupados, Gaza, West Bank e Cisjordânia, até ás distantes e sagradas terras da Galileia. Seria a primeira vez desde 1948, ano da independência do estado de Israel, que semelhante multidão de árabes devotos da causa palestina se reunira, em solo israelita, para, juntos, festejarem, dançarem e cantarem, numa alegria inverosímil que contrastava com o habitual desespero que molda o dia a dia das suas vidas, dilaceradas pela guerra que varre toda aquela região do médio oriente. Para tornar mais irónica esta história religiosa, política e futebolística, três dos quatros golos do Bnei Sakhnin foram marcados por jogadores judeus, decisivos para uma histórica vitória de 4-1. Um triunfo que foi saudado pelos dois lados das trincheiras da guerra, tendo, no mesmo dia, o clube recebido mensagens de felicitações de Yasser Arafat, histórico líder da OLP, e de Ariel Sharon, primeiro ministro israelita.

Eyal Lahaman, o treinador da união

O estilo de jogar da equipa é moldado á imagem do técnico Eyal Lahaman, devoto de um jogo essencialmente físico, tecnicamente limitado mas muito veloz, apostando sobretudo nos chamados jogadores ladrões de bolas, para, depois, lançar o contra-ataque. No fundo, Lahamam reconhece a fragilidade da equipa, e parte de uma postura defensiva. Foi nesse sistema táctico que conquistou a subida á I Divisão do futebol israelita. A sua origem árabe, cuja comunidade segue devotamente todos os seus jogos, torna, no entanto, muito difícil a contratação de jogadores hebreus, receosos em jogar num clube cuja cidade de origem, Sakhnin, se situa nas imediações da Galileia. Em muitos jogos, são acusados de traidores pelo publico israelita que, maioritariamente, enche os estádios, recebendo-os com cânticos de “morte aos árabes”, incapazes de compreender que judeus e palestinianos alinhem lado a lado equipa, ao mesmo tempo que na Faixa de Gaza explodem bombas que, dia após dia, matam milhares de mártires até á impotência da razão. Por outro lado, muitos palestinianos dos territórios ocupados não reconhecem a legitimidade representativa do Bnei Sakhnin com a causa árabe devido a jogarem sob a bandeira de Israel e serem, oficialmente, cidadãos israelitas, a chamada Migzar, (em tradução livre, a “secção”, como lhe chamam a comunidade judaica) ou, noutro rótulo, os “árabes de 48”, ano de fundação do estado de Israel. Para as autoridades judaicas, porém, eles são como que a prova da multi-étnica democracia israelita. Apesar deste debate, muitas vezes, como em Newcastle, nas bancadas, em vez das bandeiras de Israel com a cruz de David, para apoiar o Bnei Sakhnin surgem as orgulhosas bandeiras da Palestina. É este um dos factores mais responsáveis pelo ambiente tenso que invade a maioria dos jogos que o Sakhnin disputa no campeonato israelita, com o céu patrulhado por helicópteros, quase como num cenário de guerra do sul do Líbano.

A utopia do futebol palestiniano

Nascida num território que Deus abandonou, a selecção de futebol da Palestina é uma verdadeira lição de vida, na qual, ao lado dos sofridos jogadores árabes, mora uma grande legião de chilenos com origens palestinianas, reflexo de uma secular corrente migratória para a América Latina.
Aos 24 anos, Cléber Vieira Rodrigues estava longe de imaginar, quando assistia horrorizado, pela televisão, ás brutais imagens de violência do conflito entre israelenses e palestinianos, que a sua carreira de futebolista alguma vez se cruzasse com essas mesmas atmosferas. O inesperado convite surgiu quando se encontrava a jogar na Bélgica, no Club Liége. A intenção dos dirigentes do Sakhin era encontrar um novo avançado brasileiro capaz de dinamizar o seu ataque depois da saí do outro artísta canarinho que tanto contribuíra para os êxitos da época transacta: Gabriel Lima, um rápido extremo direito que chegara ao clube em 2002/03, vindo do Levski Sofia da Bulgária, após, no Brasil ter brilhado no Fluminense. As boas exibições com a camisola vermelha e branca do Sakhin levaram-no, porém, a sair para um emblema judeu, o Bnei Yehuda, equipa do meio da tabela, mas com maior poder económico. No jogo de estreia, Cleber fez um logo um golo e toda a equipa sentiu poder contar com ele, sobretudo após a excelente exibição realizada no jogo da pré-eliminatória da Taça UEFA, quando venceu o Partizani Tirana, em Telavive, por 3-0. Os jogos com o Newcastle, na primeira eliminatória da Taça UEFA, representaram, o momento mais alto da história do clube. Apesar de, em St.James Park, ter sofrido um golo logo no primeiro minuto, o onze, guiado pelas ordens de Eyal Lachman, soube controlar a pressão inglesa e, até ao final, só sofreria mais um golo (obtido por Kluivert, aos 42 minutos), acabando derrotado apenas por 2-0, ainda sonhando com a utópica reviravolta no jogo da segunda mão. Nas bancadas, os seus adeptos, empunhado bandeiras da Palestina sentiram os noventa minutos muito para lá de um simples jogo de futebol. Em Telavive, porém, a experiência da equipa de Souness foi, desde o inicio, mais forte e os ingleses venceram, sem apelo, por 5-1. A aventura europeia do Bnei Sakhnin chegava ao fim, mas para a história ficara a sua fabulosa lição de vida dada através do milagre do futebol.

A selecção da Palestina

Apesar das suas conotações com a comunidade palestiniana, toda esta atmosfera em torno do Sakhnin está longe de se repetir com a verdadeira selecção da Palestina, oficialmente reconhecida, tal como a sua Federação (fundada em 1928 e reeinscrita na FIFA em 1998), mas sem país para treinar e, muitas vezes, sem jogadores disponíveis suficientes para formar um onze, como sentiu o seleccionador austríaco trota-mundo Alfred Riedl, antigo treinador das selecções da Áustria, entre 1990 e 1992, Liechtenstein, entre 1997 e 1998, e Vietnam, em dois períodos, entre 1998 e 2001 e em 2003, para além de outras passagens por outros pontos do planeta do futebol, no Zamalek do Egipto, no Al Salmiya Club do Kuwait, OCK de Marrocos, Ittihad Jeddah da Arábia Saudita e, também, pelo Irão, onde, em 1996, foi supervisor da federação iraniana de futebol. Quando chegou á Palestina, no inicio deste ano, escolheu para adjunto Azmi Nasser, antigo treinador principal do Bnei Sakhnin. Riedl estava perante uma missão quase impossível. Para tentar reunir uma selecção competitiva, a Federação Palestiniana, impossibilitada face ao clima de guerra que se vive em todos os seus territórios ocupados, decidiu lançar um anuncio publico em vários jornais estrangeiros e, desde logo, na página de abertura do seu site oficial na internet: Procuram-se jogadores de futebol palestinianos para formar uma selecção. Os requisitos exigidos são ser cidadão palestiniano ou, mesmo vivendo noutro pais ou território, ter qualquer conexão familiar, pais ou avós, de origem palestiniana e nunca ter antes jogado por qualquer outra selecção nacional. Para filtrar as candidaturas, exige-se que, neste momento, os candidatos estejam a jogar num clube da I ou II Divisão do país onde residem.

Os palestinianos do Chile

Um dos países em todo o mundo com maior comunidade palestiniana é o Chile. A origem desta estranha grande diáspora palestiniana nessa nação sul americana, separada por 16 mil quilómetros, remonta a finais do Sec.XIX, nos tempos do domínio turco otomano, que então levara á ruína económica muitos antigos proprietários de terras da Palestina. Atraídos pela prosperidade que então se dizia existir nas paragens latino americanas, muitos decidiram partir á aventura nos Andes. Ao longo dos tempos, os fluxos migratórios palestinianos foram-se sucedendo, desde a ameaça da criação de uma nação sionista nas terras outrora árabes-palestinas, logo após a I guerra Mundial, até á criação de Israel, em 1948. No decorrer dessas várias épocas, a comunidade palestina no Chile foi crescendo cada vez mais, tendo, nesse percurso, fundado, inclusive, em 1920, um clube desportivo, o Club de Football Palestino, com o objectivo de levar pelo mundo o nome e a causa de um povo que vivia desterrado. Adoptado por vários sectores de Santiago, capital do Chile, o clube foi ganhando vida própria e, na sua história, conquistou dois títulos nacionais de campeão chileno, guiado por um dos melhores jogadores andinos de todos os tempos, o capitão Figueroa. Silenciosos resistentes á ditadura de Pinochet, todo o Chile reconhece hoje o grande contributo dado por esses emigrantes palestinianos (artistas, desportistas, intelectuais, etc) no seu país. Através de quase um século, sucederam-se as gerações, já nascidas no Chile, mas com origem na Palestina. Desta forma, quando a Federação Palestina de Futebol decidiu reconstruir a sua equipa de futebol buscando jogadores por todo o mundo, o principal viveiro de craques surgiu no futebol chileno, ao ponto de hoje, sete jogadores da selecção palestiniana terem sangue chileno: Pablo Abdala, Edgardo Abdala, Francisco Alam, Roberto Kettlun, Alejandro Naif e os irmãos Robero e Fabian Bishara. Foi com esse sotaque que surgiram, em 2002, no Kuwait, para disputar a Taça da Ásia, então orientados também por um treinador chileno que também esteve á frente do Club Palestino: Nicola Hadwa, nascido, em 1950, em Jala, velhos territórios palestinianos, e que chegara ao Chile, ao colo dos pais, com apenas um ano de idade. Nunca esqueceu, porém, as suas origens. O médio Abdala, por exemplo, nasceu na Argentina, e joga no Cobreleoa do Chile, país onde chegou com os seus avôs, refugiados de Ramalah. Também existiam jogadores vindos de outras paragens, como Suleiman Asad, a jogar nos EUA. Neste momento, um dos grandes objectivos, reside em convencer Facundo Sava, avançado argentino do Fulham, também com origens palestinas, a ingressar na selecção dos seus avós.
O local de concentração habitual da selecção é na cidade de Ismailia, no Egipto, onde o treinador austríaco Riedl se reúne com os jogadores, vindos do Chile e dos territórios ocupados, Gaza e Cisjordánia, para preparar os jogos. O grande problema reside em formar um verdadeiro grupo, com espirito de equipa, pois raramente a selecção completa está tida unida. Por outro lado, como o campeonato palestiniano se encontra suspenso desde 2000, quando a intifada, a “guerra das pedras”, se reacendeu, os jogadores árabes não tem sequer local para jogar ou treinar. Finda a concentração, regressam a suas casas, com um programa de treino para ser cumprido na tentativa de manter a forma. Nem sempre, porém, isso é possível. Muitas vezes, as razões, para falharem um jogo, ultrapassam questões de treino. Foi o que sucedeu, durante o apuramento para o Mundial 2002, quando todos sentiram a falta do médio Tarek al Quto, não devido a qualquer lesão, mas por, poucos dias antes, um rajada de metralhadora numa rua mártir da Cisjordania o ter atingido mortalmente. Depois das pioneiras participações nos apuramentos para os Mundiais de 1934 e 1938, a selecção da Palestina voltaria em 2001, após 66 anos de ausência a participar na fase de qualificação para um Mundial (sendo eliminada pelo Qatar na primeira poule), aventura que repete neste momento, integrada no Grupo 2 da zona asiática, da fase de apuramento para o Mundial 2006, onde iniciou a prova goleando Taiwan por 8-0 e empatando com o Iraque, 1-1. Cada jogo representa uma verdadeira batalha para os jogadores. Sem condições para organizar jogos nos seus territórios, a Palestina disputa os jogos teoricamente em casa no Qatar. No jogo seguinte, porém, cinco jogadores foram impedidos, pelas autoridades israelitas, de sair do país para se irem juntar aos seus colegas, devido á fronteira ter sido fechada por duas semanas. Impotentes para resolver o problema, apesar da insistência da FIFA, El Kurdi, Salama, Suwairki El Holi e Rusrus tiveram que ficar em casa. A Palestina perdeu por 3-0, mas, no final, o técnico Alfred Riedl só teve palavras para elogiar os seus jogadores. Noutros casos, é impossível para alguns deles, enquanto jogam futebol, esquecer as condições terríveis em que deixaram as suas famílias. Uma vez, logo após o fim de um jogo, o lateral direito Yamal Al Houly, ainda equipado, recebeu um telefonema para lhe dizerem que, enquanto jogava, um tanque israelita lhe tinha demolido completamente a casa, deixando-o sem nada. Embora não acredite em milagres, mais do que um utópica qualificação para a fase final Mundial 2006, o grande sonho de Alfred Riedl seria conseguir organizar um jogo amigável entre as selecções de Israel e da Palestina. As crescentes dificuldades levariam o austríaco Riedl a repensar a sua utopia, e, no último jogo, frente a Twain, (inserido na qualificação para o Mundial-2006), em Taipé, já foi o corajoso Gahassan Balawi que surgiu a orientar a equipa, antes do qual um novo incidente com as autoridades israelitas atacou a formação palestiniana, pouco antes de partir, quando o exército de Israel voltou a impedir a saída de sete jogadores palestinianos com o argumento de estarem incluídos numa lista negra. Em campo, porém, os resistentes lutaram heroicamente e, já em tempo de descontos, um golo de Mahamou Amir`s valeu nova histórica vitória ao onze palestiniano (1-0), dando novas asas para voar ao sonho de um povo mártir que, subitamente, vê no futebol um novo meio privilegiado para divulgar a sua causa por todo o mundo...

As novas fronteiras do futebol israelita

Aprisionado entre dois mundos numa encruzilhada de contornos políticos e religiosos, a história do futebol israelita divide-se entre dois continentes. Ásia, onde jogou até fins dos anos 70, e Europa, o seu novo artificial habitat competitivo inventado pela FIFA. Por isso, chamam-lhe um futebol asiático de expressão europeia.
Destemidos e orgulhosos, exibindo com orgulho, na camisola e nas bandeiras, a cruz de David, o segundo Rei israelita que, séculos antes de cristo, estabeleceu a sagrada Jerusalem como a capital do reino semita, local onde, tempos mais tarde, Salomão construiria o primeiro templo, os jogadores do Maccabi Telavive surgem, no relvado do Estádio Del Alpi, em Turim para defrontar a poderosa Juventus. Depois do Maccabi Haifa, em 2002/03, esta é a segunda vez que uma equipa israelita consegue o apuramento para a fase de grupo da Liga dos Campeões, no que é um reflexo directo do progresso competitivo verificado pelo seu futebol durante a última década, sobretudo se tivermos em conta que a maioria dos jogadores do Maccabi serem de origem hebraica. Um avanço que se reflecte, também, na sua selecção, cada vez mais perto de lograr uma histórica qualificação para a fase final de um Europeu ou Mundial, algo que, no passado, só sucedeu por uma vez, em 1970. Filiada na FIFA desde 1948 (anos em que foi criado o Estado de Israel, finda a segunda guerra mundial e após o abandono da Palestina pelas tropas britânicas, terminado o seu mandato) a selecção israelita vive, desde esse tempo, como um errante onze «trota-mundos», vagueando pelas várias confederações futebolísticas em busca de condições pacíficas para competir, visto, ao longo dos tempos, por força do barril de pólvora em que se tornou toda a região do médio oriente, a sua mera presença noutros países ser um foco de tensão capaz de fazer explodir os mais profundos ódios que envolvem todo o mundo árabe. Nesse sentido, a FIFA viu-se obrigada a retirá-la da sua posição natural, a Confederação Asiática e, sucessivamente, tentou descobrir o habitat ideal para a integrar. Uma astuta possibilidade de lidar com o “mapa mundo” futebolístico que fez com que Israel já disputasse o apuramento para a fase final do Mundial em cinco continentes diferentes: Ásia (1974, 1978), Europa (1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1982, 1994, 1998), Oceânia (1970, 1986 e 1990), África (1962) e América do Sul (1990, na poule final de desempate). Ou seja, em termos de confederações futebolísticas, Israel apenas não disputou qualquer jogo na área da CONCACAF.

Estrelas de Israel

Na única qualificação lograda, em 1970, Israel, para atingir o Mundial do México, teve de eliminar, por entre cangurus, a Austrália e a Nova Zelândia, num grupo que mesclava, no inicio, Ásia e Oceânia, desfeito pelo facto da outra nação asiática, a Coreia do Norte, se ter recusado a jogar com o onze israelita. Depois, na fase final, espantaria o mundo ao empatar com a Itália (0-0) e a Suécia (1-1), mas, no jogo decisivo, uma derrota com o Uruguai (0-2), ditaria a sua eliminação logo na primeira fase. Moram nesse tempo, por força dessa proeza, os maiores nomes da história do futebol israelita, entre eles o lendário Motale Spiegel, autor do único golo de Israel na fase final de um Mundial. Dois anos antes, em 1968, estivera presente nos Jogos Olímpicos, onde atingira os quartos-de-final. Durante o tempo em que competiu nas competições da Confederação Asiática, conquistou a Taça da Ásia em 1964, ano em que o torneio se disputou em Telavive, tendo batido a Índia, Coreia do Sul e Hong-Kong. Finda a geração de 70, o futebol israelita encetou uma longa travessia do deserto em termos internacionais. Nos anos 80, o seu grande símbolo nos relvados europeus foi o explosivo Rony Rosenthal, uma avançado com força e técnica, autor de golos espectaculares. Dominando a bola com a pujança de Golias e a destreza de David, causou fulgor no futebol inglês onde chegaria em 1990 após deixar marcas na Bélgica, com as camisolas do Brugge e do Standard de Liége. Em Inglaterra, jogou no Tottenham e no Watford, mas seria no fabuloso Liverpool que conheceria os anos de maior fulgor. Ainda hoje Anfield Road recorda as suas arrancadas imparáveis e os remates potentes de fora da área. Uma força da natureza que só penduraria as chuteiras no final de 1999, quando jogava já na III Divisão, no Huddersfield. Hoje é um embaixador do futebol israelita por todo o mundo. Outro jogador hebreu em destaque nessa época, foi Eli Ohana, um extremo tecnicista, muito elegante na condução da bola, driblador e com grande poder de cruzamento, membro da surpreendente equipa belga do Malines que em 1997 conquistaria a Taça das Taças, e que, mais tarde, em 90/91, jogou em Portugal, no Sp.Braga. Nos anos seguintes, destacou-se o médio artista Avi Nimini, que passou pelo At.Madrid e pelo Derby County, o playmaker Eyal Berkovich, também conquistador do futebol inglês, no Sothampton e no Aston Villa, e o veloz extremo Revivo, cujo estilo serpenteado de furar pelas defesas adversárias levou-o, em 1996, do Macabi Haifa para o Celta de Vigo e, depois, para o Fenerbache, na Turquia. Actualmente, destacam-se, o dinâmico médio flanqueador Benayoun, no Santander, onde também actua o médio Mehdi Afek, enquanto no Bolton, buscando uma oportunidade para entrar no onze titular de Allardyce, está uma jovem promessa de 22 anos, Bem Haim, talentoso defesa central vindo esta época de Telavive.

Maccabi Telavive, entre os grandes da Europa

O campeonato nacional de Israel começou a disputar-se na época 49/50, logo após a criação do novo Estado hebraico. Desde os primeiros tempos, o Maccabi Telavive, junto com o Petka Tikva e o Hapoel, emergiu como um dos principais clubes. A origem do nome Maccabi refere-se ao movimento sionista, os ancestrais maccabes, que, secularmente, são celebrados no festival judeu de Hanukah, onde se recorda a sua corajosa luta pela liberdade religiosa. No inicio do Séc XXI, os maiores distúrbios já nascem agora devido a outros focos de intolerância, evidente, por exemplo, nos jogos entre o Beitar Jerusalem e o Hapoel Telavive. Enquanto o clube de Jersulem é conotado com a extrema direita, o emblema de Telavive esteve sempre mais ligado aos trabalhistas de Ehud Barak. Depois de em 1969 e 1971, há mais de três décadas, ter conquistado por duas vezes o titulo de Campeão Asiático de clubes (vencendo na final o Yangtsee da Coreia do Sul, por 1-0, e o Police Club, do Iraque, por 4-0, respectivamente) o Maccabi Telavive compete agora entre os maiores clubes europeus na milionária Liga dos Campeões. Pelo sua equipa passaram, através dos tempos, os maiores jogadores da historia do futebol israelita, desde, nos anos 70, Spiegel, Zvi Rosen, Menahem Bello e Rahamim Talvi, todos membros da equipa que esteve no Mundial-70, até ás estrelas do presente, como Eli Biton, Zitoni, Strauber e o virtuoso Degu. Junto com eles já coexistem, também, desde 90/91, jogadores estrangeiros, quando, logo após Israel abrir as fronteiras do seu futebol, foi contratado o guarda redes soviético Alexander Ouvarov. Na actual equipa, treinada por outro símbolo do clube, Nir Klinger (seu antigo jogador durante oito anos e capitão da selecção de Israel, pela qual detêm o record de internacionalizações, 83), entre os craques nacionais, estão, na defesa, o nigeriano N`Dalla, o brasileiro Mauricio Giovanni, adquirido esta época ao Fortaleza, e o ganês Plantsil. No meio campo, o outro brasileiro do onze, o médio Bruno Reis, há três épocas no clube contratado ao Atletico Paranaense, e, no ataque, o camaronês Emile Mbamba e o ganês Ishmael Addo, contratado, esta época ao Maccabi Netanja para substituir o letão Prohorenkovs que saiu para o Dinamo de Moscovo. Nos grandes jogos internacionais, frente ao Bayern Munique, Juventus e Ajax, Nir Kingler, consciente do abismo competitivo que separa o seu onze desses monstros do Velho Continente, optou por um sistema essencialmente defensivo de 4x5x1, com o ganês Pantsil, um central muito personalizado, a chefiar a defesa, enquanto que, no ataque, como uma ilha entre os defesas adversários, ficava o seu compatriota Addo. Uma imagem que, afinal, também reflecte a situação actual do futebol israelita: uma ilha asiática rodeada de relva e equipas europeias por todo o lado.

“Um jogo de futebol não dura só noventa minutos. Dura noventa minutos, mais toda a vida de quem o viu no estádio...”

Celso Unzelte

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