Na encruzilhada da memória, mesmo antes do desmembramento da velha Jugoslávia, a Croácia, descobrira no futebol uma suprema forma de reconhecimento internacional. Na alvorada dos anos 90 as bombas devoraram a região das Balcãs e a antiga união estilhou-se em pedaços, mas, mesmo antes do rugido da guerra fratricida, a desintegração do país de Tito já começara nos relvados de futebol. Os jogos entre as equipas de Belgrado e Zagreb há muito que eram palco violento de rivalidades étnicas. Em Maio de 1990, num desses encontros do ódio entre o Dínamo Zagreb e o Estrela Vermelha emergiu um futebolista feito herói: Zvonimir Boban, quando o jogo após invasão de campo ter se transformado numa batalha campal, tomou, com apenas 21 anos, a defesa dos seus adeptos, atingiu a pontapé os policias servios que carregavam sobre eles. Num ápice, ele tornou-se o símbolo futebolístico da insubmissão croata. Teve então que viver fugido das autoridades servias durante meses. Falou-se em penas de prisão, irradiação como futebolista, mas, no final, a decisão da Federação Jugoslava seria, apenas, de o suspender por oito meses. Na prática, porém, a partir daquele dia, Boban, teve a plena consciência que a sua carreira futebolística em território jugoslavo tinha terminado.
Do Mundial de Juniores, em 87
ao 3x4x3 de Zaccheroni, em 99

A primeira grande aparição do herói croata nos palcos do futebol mundial remonta a 1987, no Chile, quando um talentoso grupo de jovens jugoslavos, orientados por Mirko Jozic, irrompeu no Mundial de juniores sub-20, conquistando o titulo mundial com um futebol que maravilhou toda a critica da altura. Entre esses talentos estavam tean-agers como Prosinecki, Suker, Boksic, Stoickovic e...Boban. Um must de talentos que, três anos depois, em 1990, formaria o bloco multi-étnico da fantástica equipa que brilhou no Mundial de Itália, em 1990. Era uma selecção perturbante e algo paradoxal. Nela conviviam jogadores de diferentes etnias, servios e croatas, sem qualquer sentimento por a bandeira sob a qual jogavam. Nesse grupo já não estava, no entanto, o rebelde Boban, afastado das competições após aquele acto de insubmissão.
Em 1992, quando muitos dos seus companheiros trocavam a bola pela arma de guerra, o herói Boban, nascido na pacata cidade de Imotski, não muito longe de Split, atravessou o Adriático e rumou a Itália, contratado pelo Bari. Uma ano depois ingressaria no Milan das estrelas, onde, apesar de muitas vezes, difícil de enquadrar tacticamente no 4x4x2 de Capello, não ter encontrado o seu verdadeiro espaço, jogou e deslumbrou durante nove épocas, culminada com a grande época como maestro da sedutora equipa de Zacheroni, profeta do 3x4x3, surpreendente vencedor do Scudetto 98/99.
Quando em 1995 a Croácia voltou a competir sob a sua bandeira, com a personalizada camisola de quadrados vermelhos, sentiu um sentimento único, que nunca tivera com a camisa jugoslava. Uma afirmação de identidade há muito ansiada e coroada com a conquista do terceiro lugar no Mundial-98, em França. Profundo conhecedor da terra balcânica, o escritor croata Predag Matvejevitch diz que com o passar do tempo o futebol, liberto de paixões mal formadas, cada vez mais tende a ocupar o seu verdadeiro lugar: os estádios. Não é, porém, um percurso fácil. A política e a bola continuam a caminhar lado a lado e, embora o mapa do mundo não dependa, muito naturalmente, do futebol de Boban ou Suker, para muitos foi ele que colocou a Croácia visível no mapa.
O Futebol como uma
lição de história

A pose altiva, uma pequena barbicha, o cabelo desalinhado e o olhar calmo por trás de uns pequenos óculos redondos. Um estilo refúgio de uma personalidade sedutora, dentro e fora dos relvados, que fizeram de Boban um rebelde intelectual do futebol. Uma imagem de culto que nascia durante estágios, nos quais passava horas mergulhado na leitura dos clássicos, Dostoievski, Dante, Voltaire, Ujevic e outros, para emergir, depois, nos relvados, com o porte real de quem lia o jogo pelo menos dez minutos antes de todos os outros jogadores em campo. O seu domínio de bola, com a cabeça levantada, como quem analisava um mapa em busca do melhor caminho a tomar, faziam dele um maestro sublime, personalizado, capaz de, ao mesmo tempo, impor autoridade e tranquilidade. Sob a zona central, com a batuta na ponta da sua divina chuteira direita, fazendo girar a bola, lembrava um jogador de outros tempos, onde ainda havia tempo para pensar e abordar cada jogada como um pintor renascentista abordava uma tela em branco.
Aos 34 anos ainda podia continuar a jogar, mas, como declarou, em finais de 2001, na hora de deixar o Celta, o seu último clube, onde Victor Fernandez o queria amarrar a um flanco num sistema de 4x4x2, “nesta fase final da carreira, nunca poderia aceitar um projecto em que não fosse o protagonista”. Nas suas palavras, escurecidas pela tristeza, estavam o lamento de nem sempre, ao longo da careira, ter podido vestir a sua amada camisola nº10. Os imperativos tácticos e a constelação de estrelas que era o Milan de inicio dos anos 90 (num tempo onde só podiam alinhar três estrangeiros) assim o ditou. Mesmo assim não se esquece daquele dia em que, corria a época de 92/93, Capello o colocou em campo como titular, em Turim, contra a Juventus, deixando de fora Gullit Savicevic e Papin.
Poderia, é certo, continuar a jogar na sua Croácia onde muitos ainda clamam pelo seu regresso á selecção, mas para Boban, a vida já tomara outros rumos, sempre com o futebol em mente, mas longe dos relvados. Fiel á sua vocação literária, encostou a bola num canto de sua casa, e inscreveu-se no curso de História da Universidade de Ciências Humanas de Zagreb onde hoje passa os seus dias, estudando, desde a antiguidade á idade média, todos os históricos segredos da civilização mundial.

A CARREIRA DO LEÃO DE IMOTSKI
JOGOS GOLOS
85/86 DINAMO ZAGREB 2 0
86/87 DINAMO ZAGREB 28 8
87/88 DINAMO ZAGREB 30 13
88/89 DINAMO ZAGREB 0 0
89/90 DINAMO ZAGREB 23 9
90/91 DINAMO ZAGREB 26 15
91/92 BARI 17 2
92/93 MILAN 13 -
93/94 MILAN 20 4
94/95 MILAN 21 1
95/96 MILAN 13 3
96/97 MILAN 28 1
97/98 MILAN 23 2
98/99 MILAN 27 2
99/2000 MILAN 17 6
2000/01 MILAN 16 2
2001/02 CELTA 4 0
TROFEÚS: 1 Liga dos Campeões (94), 4 vezes Campeão Italiano (93, 94, 96, 99), 1 SuperTaça Europeia (95), 2 SuperTaças de Itália (93 e 94).
Na selecção: 51 internacionalizações, pela Croácia (3º lugar no Mundial-98; 1/4 final do Euro-96)
Campeão do Mundo Sub-20 (em 87, pela Jugoslávia)