BODIPO: OS GALÁCTICOS DA GUINÉ EQUATORIAL

22 de Novembro de 2003
Esta semana, ao mesmo tempo que nos belos relvados europeus se disputavam os play-offs do Euro-2004, em África, nas paisagens mais selvagens, em campos de relva queimada ou em quase pelados com a terra revolta por entre tufos de erva, várias nações africanas, iniciavam a fase de apuramento para o Mundial 2006. É um universo surrealista, futebol de outro continente, de outro mundo, de outro... tempo.
Em qualquer região, por maiores que carências que atravessem, a magia do futebol rasga, secularmente, a atmosfera de nações inteiras, muitas ainda com um património sócio-cultural frágil, marcado pelo tribalismo ou pela herança colonial. Um mundo de emoções por onde emerge uma pequena Republica situada a oeste, território espanhol até 1968, com apenas meio milhão de habitantes: a Guiné Equatorial. Trinta e cinco anos depois da independência, por fim, muitos filhos da terra, já nascidos em Espanha, a segunda geração daqueles que há décadas partiram em busca do sonho hispânico, regressaram, pela primeira vez, ás suas origens, para jogar pela selecção dos seus pais. No total, foram onze jogadores com dupla nacionalidade espanhola e guineense a serem recebidos como heróis, num ambiente de loucura, com o trôpego autocarro balançando, mal podendo andar, submerso por uma multidão em delírio, muitos deles pendurados no tejadilho da viatura só para ver de perto os rostos daquele sonho futebolístico, onde estavam os craques vindos das entranhas fútbol espanhol: Rondo(Elche) Cuyami (Palencia) Berila (Benidorm) Gregorio (Almeria) Zarandona (Caravanca) Chupe (Real Madrid B) e, entre outros, como grande estrela: Bodipo, goleador do Santander que nunca antes tinha visitado o seu país. Foi recebido pelo Presidente, desfilou pela capital Bata, atiraram-lhe flores como a um Rei, e, pela primeira vez, conheceu a avó, muito doente, numa pobre casita dos arredores. Depois foi o jogo, frente ao Togo, num terreno inacreditável, com terra revolta, e balneários que eram barracos. Seis horas antes do inicio, as torpes bancadas estavam repletas, com as pessoas, em delírio, umas em cima das outras. Ganhou o onze de Bodipo: 1-0, golo de penalty (indiscutível, diga-se) convertido por Berila. Nas bancadas, no campo e nas ruas, o espanhol mistura-se com o budi ou o combe, dialectos locais. É, em suma, o futebol em estado puro. Um cenário arrepiante que mais nenhum outro fenómeno provoca na alma e no corpo destas populações trucidadas pelo tempo, pela guerra e pelos incompreensíveis desígnios de Deus. Por instantes, porém, há outra entidade divina, o Deus do Futebol, que supera tudo, para que meninos descalços, atrás de uma bola de trapos, se sintam Barila ou Bodipo, Galácticos de África.

Futebol africano: Novo regulamento para jogadores com dupla-nacionalidade

No segundo jogo, diga-se, a Guine Equatorial não resistiu e perdeu 2-0, ficando (tal como outras 21 selecções derrotadas nesta primeira ronda) logo afastada do Mundial e da Can-2006 (visto o apuramento ser feito simultaneamente) e, consequentemente, durante dois anos, de qualquer jogo internacional oficial. É mais uma grave decisão macrocéfala vinda dos gabinetes da FIFA e da CAF que, pura e simplesmente, destruiu toda a magia vivida naquela tarde em Bata. Durante dois anos, o que será o futebol na Guine Equatorial, Burundi, Namíbia, Somália, Mauritânia, etc? Ao mesmo tempo, porém, um alteração nos estatutos da FIFA sobre a possibilidade dos jogadores alinharem, em certos casos, por duas selecções diferentes, poderá favorecer o futebol africano. As três condições estão no artº15: possuir dupla nacionalidade no momento da primeira internacionalização, optar por essa outra selecção antes dos 21 anos e nunca ter jogado pela selecção A desse anterior país. É um regulamento que visa sobretudo aqueles que jogaram nas selecções jovens dos países que os acolheram desde muito novos, e que, muitas vezes, após brilharem nos Sub-17 ou Sub-19, desaparecem nos seniores, Um dos países onde este novo artº15 terá grande aplicação será em França, onde abundam, nos centros de formação, milhares de garçons africanos, muitas vezes chamados ás jovens selecções francesas. É o caso, no presente, de Bamago, avançado do onze Sub-21. Findo o Euro da categoria, ele terá de optar, a nível sénior, por França ou Costa de Marfim. Não é claro que escolha a França, pois no super-competitivo futebol francês, poderá, como muitos outros casos similares de jovens africanos, nunca chegar a Internacional A, enquanto que no seu país de origem, poderá ser uma grande estrela. Durante 2004, porém, todos, independentemente da idade, podem mudar de selecção, desde que respeitem os outros dois requisitos. Face aos inúmeros jogadores nestas condições, esta fase de transição pode conturbar muitas regiões do Planeta do Futebol

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