Bola, ritmo, circulação

27 de Março de 2011 16:04
Analisando o jogo do Chelsea de Ancelotti e o contraste que David Luiz provoca quando pega na bola

 

Observando os gigantes do futebol europeu, a equipa cuja quebra exibicional pode intrigar mais é a do Chelsea de Ancelotti. O último jogo com o Manchester City é um bom objecto de análise para esse case study. Por entre um mundo de problemas tácticos, a visão impressionante da categoria de David Luiz. Chegou, viu e…jogou. Partindo de uma perfeita colocação para intercepções/cortes e dobras, joga de cabeça levantada e assume em posse uma passada veloz e agressiva.
 
A caixa negra dos problemas tácticos do onze está, porém, noutros espaços. Principal sector: meio-campo. Desenhado em triângulo com Essien a pivot, Ramires vértice/ala direito, Lampard vértice esquerdo. Falta um construtor. Dirão que este meio-campo viveu muito tempo com este perfil técnico-estilistico (recorde-se Mourinho) e jogava muito. É verdade, mas com outra dinâmica individual, disponibilidade física de Essien-Lampard, outro pivot e outra ligação posicional com o ataque. Hoje, a ideia que fica, vendo o jogo, é que os três médios querem todos fazer tacticamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Circulam entre si e não dão profundidade, nem velocidade (travando a transição rápida e contra-ataque). Desta forma, é comum na saída de bola o Chelsea ter 7 jogadores atrás da linha de bola (os 4 defesas mais os 3 médios). A contratação de Torres quando a equipa precisava claramente de um médio-criativo é o maior contra-senso do mercado de Janeiro.
 
O único jogador do plantel que poderia, talvez, dar essa face mais criativa ao meio-campo seria Malouda, mas mesmo ele é mais um flanqueador esquerdo, onde jogou no último jogo (com Kalou na direita). É uma questão táctica que se cruza, depois, com o ataque, independentemente de Ancelotti desenhar o 4x4x2 ou o 4x3x3. Sem dialogar com o meio-campo (na criação da linha de passe e desmarcação subsequente) Torres quase nunca recebe a bola no espaço e tempo certo. Ver, neste cenário, Drogba no banco torna a opção mais perturbante.
Nada disto, porém, é um problema novo. Faltam cada vez mais jogadores criativos a meio-campo nas grandes equipas da Europa. As equipas cresceram quase todas em direcção a um meio-campo de um pivot e dois médios de transição mais fortes. Quando surge o tal médio criativo (estilo Snjeider) exige-se logo três médios mais de contenção atrás numa opção que caminha em direcção às variantes mais conservadoras do 4x4x2. 
 
Neste cenário táctico, voltando a Londres, as saídas de bola por David Luiz (também já com confiança para cair na faixa nesse momento e meter um passe longo diagonal virando jogo) destacam-se como a imagem mais personalizada e veloz do actual jogar do Chelsea.
 

 

 

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