BOLÍVIA: O futebol que veio das nuvens

10 de Junho de 2003
Têm, nas suas fileiras, os dois melhores goleadores do futebol mundial nos últimos dois anos -Castillo, em 2001, e Botero, em 2002- mas, apesar dessa aterrorizadora veia goleadora, o futebol boliviano perdeu, nos últimos tempos, o embalo que, na década de 90, sob o impulso, no banco, do espanhol Azkargorta, e, no relvado, dos categorizados Sanchez e Etcheverry, lhe permitiu penetrar na elite sul americana. Mergulhada num mundo de problemas, sem seleccionador contratado e com os principais clubes a negarem os seus jogadores ao onze nacional, a Bolívia que visita Portugal é hoje uma selecção em busca de reconquistar o prestígio abalado.

Uma selecção de recurso

Como a maioria dos jogadores sul americanos, também os bolivianos possuem um elevado nível técnico individual no trato da bola, sobretudo vocacionado para acções ofensivas. Defensivamente menos dotados, revelam, desde 1993, data da chegada do basco Azkargorta, uma crescente cultura táctica que lhe permitiu, embora sem deslumbrar, aumentar o índice competitivo do seu jogo. Dez anos depois, a obra do basco de bigode farfalhudo ainda se faz sentir. Na hora em que todos os sectores do futebol boliviano discutem qual o treinador ideal para orientar a selecção andina rumo ao Mundial 2006 (fala-se no uruguaio Victor Pua e no chileno Nelson Acosta) o argentino Dalcio Giovagnoli, técnico do Wiltermann, o homem encarregue da missão patriótica de conduzir a selecção neste particular com Portugal, vive, no entanto, momentos complicados. Privado dos craques dos principais clubes bolivianos, o Bolívar e o Strongest, que, desde há três meses, recusam ceder jogadores á selecção em nome dos seus interesses no campeonato, teve de formar um onze de recurso. Na defesa, a principal referência é o central Juan Manuel Peña, 30 anos, ainda um resistente da mágica geração de 94, mas a grande esperança do futebol boliviano, nesse sector, mora no flanco direito, onde joga um dos melhores jovens laterais do actual futebol latino-americano: Luís Gatty Ribeiro, 23 anos, jogador do Bolívar, o chamado carrilero moderno, muito ofensivo, rápido, driblador e exímio em ir á linha executar precisos cruzamentos para o coração da área. A meio campo, para além de Ronald Garcia, há várias épocas no futebol português, destaque-se o volante Franz Calustro, 29 anos, do Wilstermann, um médio defensivo incansável, excelente táctica e tecnicamente: corta, recupera e entrega a bola jogável.

Botero e Castillo: Golos, golos e mais golos

Ao contrário do histórico onze de 94, que tinha a sua principal força na arte do meio campo, nesta nova selecção boliviana, as maiores estrelas vivem na linha atacante, onde moram os dois últimos melhores goleadores do mundo em campeonatos nacionais da I Divisão. São eles, o chico José Alfredo Castillo, 20 anos, actual jogador do Tecos do México, autor de 42 golos no ano de 2001, quando ainda alinhava no Oriente Petrolero, e Joaquin Botero, hoje a jogar no UNAM de Guadalajara, no México, autor, em 2002, de 49 golos, no campeonato boliviano, ao serviço do campeão Bolívar. Juntos formam uma dupla terrível, combinando a velocidade com a potência. Mais experiente, Botero maneja melhor as jogadas de corpo a corpo, ganhando muitas vezes no choque. Castillo vive mais dos espaços vazios, e possui um olfacto de golo impressionante. É difícil prever qual seria o rendimento de ambos se inseridos num campeonato europeu. Embora as suas épicas proezas goleadoras tenham sido logradas no fraco campeonato boliviano, a verdade é que a arte de fazer golos tem os seus mistérios em todo o mundo. Na Europa, não repetiriam, certamente, esses feitos homéricos, mas continuariam a ser, sem qualquer ponta de dúvida, avançados temíveis. Não os percam de vista no relvado do Jamor, pois, na Bolívia, dizer Castillo ou Botero é, muito simplesmente, dizer...golo!

ESTRELAS BOLOVIANAS A SEGUIR

Joaquin Botero Posição: Ponta de lança Idade: 25 anos (17/12/77) Clube: Pumas UNAM (México) O golo como forma de vida. Muito rápido, como grande capacidade de desmarcação e resistência, tem um instinto goleador mortífero. Destro natural (o pé esquerdo é muito fraco), forte de cabeça, é o tipo de ponta-de-lança que gosta de jogar sozinho, em cunha entre os centrais. Tecnicamente limitado, não é, longe disso, um driblador. Com 1,83 m. e 77 kg., segura muito bem a bola e sabe jogar para a equipa. Juan Manuel Peña Posição: Defesa-central Idade: 30 anos (17/1/73) Clube: Valladolid O chefe do sector defensivo. Pode jogar como líbero ou como central de marcação. Muito experiente, joga em Espanha, no Valladolid, há oito épocas, desde 95/96. Excelente sentido de entrada, no corte e no tackle. Sabe marcar em cima, jogar em antecipação, e, apesar de ser bem dotado tecnicamente, prefere quase sempre jogar simples, prático e sem inventar José António Castillo Posição: Avançado-centro Idade: 20 anos (2/9/1983) Clube: Universidade de Guadalajara (México) Outro goleador terrível. No campeonato boliviano, marcou 42 golos, em 2001, e 46, em 2002. No México continuar a fazer balançar as redes. Com 1,80m., move-se na área com grande versatilidade e instinto, revelando depois um remate colocado. Muito novo, possui grande margem de progressão. É curioso notar, porém, que ganha peso com muita facilidade. Quando chegou ao México, levava 10 quilos a mais... Júlio César Baldivieso Posição: Volante-central Idade: 31 anos (2/12/71) Clube: Al-Nassr (Arábia Saudita) Findo o reinado de Etcheverry, tornou-se líder natural da selecção. Começou a carreira como central, mas, com o passar do tempo, subiu no terreno e tornou-se num volante do meio campo, uma espécie de trinco moderno que marca o ritmo de jogo da equipa, muitas vezes quase carregando com ela ás costas. Com grande capacidade técnica, possui uma sublime visão de jogo e é exímio na cobrança de lances de bola parada. Ronald Garcia Posição: Médio Idade: 22 anos (17/12/80) Clube: Alverca Um médio que gosta de fazer circular a bola. Depois de um primeiro ano de adaptação, cresceu muito desde que chegou ao futebol português, melhorando a sua precisão de passe e leitura de jogo, tornando-se um elemento importante na manobra do meio-campo boliviano. Tecnicamente evoluído, é um elemento com o chamado sentido colectivo do jogo. Tudo atributos que o fizeram assinar pelo Benfica.
É o inicio de um novo ciclo. Enquanto El Diablo Etcheverry vive um dourado final de carreira nos EUA, e o magistral Platini Sanchez pendura as chuteiras para se tornar treinador do Boavista, a Bolívia inicia a dura missão de reconstruir uma selecção capaz de honrar o prestígio logrado por essa quase extinta geração de talentos, que, em 1994, atingiu, pela primeira e única vez na sua história através de uma fase de qualificação, a fase final de um Mundial. Nessa época, muitos atribuíram a maioria dos triunfos obtidos á pretensa vantagem que o onze boliviano retirava do facto de disputar os jogos em casa a uma altitude de 3.627 metros, perto das nuvens, na capital La Paz, onde o oxigénio começa a fugir e o ar rarefeito provoca estranhos efeitos na bola. Perante adversários com a língua de fora, incapazes de soltar o seu melhor futebol nessas condições, a Bolívia tornou-se um adversário quase imbativel. A razão dessas vitórias era, porém, mais futebolística, pois, desde sempre que as selecções bolivianas jogavam nessas condições e nem por esse lograram grandes resultados. Na base dessa histórica conquista esteve, acima de tudo, o enorme valor daquela geração de jogadores, a melhor da história do futebol boliviano. A base residia num talentoso quarteto do meio-campo, composto por Melgar, Etcheverry, Sanchez e um então jovem artista que, também saído Academia de Tahuichi -a maior escola de talentos do fútbol boliviano- tocava na bola como um maestro: Julio César Baldivieso. Hoje com 31 anos, cerebral e com perfeita leitura de jogo, ele é o grande organizador de jogo desta nova Bolívia, apesar de, ao longo da carreira (durante a qual passou, entre outros, pelo Newell`s, Argentina, Yokohama, Japão, Barcelona Guayaquil, Equador, Cobreloa, Chile, até chegar á Árabia Saudita, onde joga hoje, no Al-Nassr) ter sempre cultivado uma imagem de temperamental. No presente, com a braçadeira de capitão, refinou o carácter e, com uma qualidade técnica notável, rege o jogo de toda a equipa.

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