BORUSSIA DORTMUND: A força e a técnica

April 12, 2000 12:00 AM
A grande equipa germânica dos anos 90, num tempo em que a economia já aprisionara o futebol. Imparavel, venceu pela primeira vez na história a Bundesliga e, no auge físico e técnico de uma fabulosa casta de jogadores e um treinador suíço, Hitzfeld, sagrou-se também campeão europeu. Mais do o tradicional futebol força alemão, soube cruzar, com mestria, a condição atlética com a técnica, consagrando, em épocas distintas, craques possantes como Emmerich, Held, Libuda, Reuter, Sammer, Kholer, Moller, Reuter, Riedle e muitos, muitos outros

Fundado em 19 de Dezembro de 1909
Liga Alemã/Bundesliga: 1956, 1957, 1963, 1995, 1996
Taça da Alemanha: 1965, 1989
Taça das Taças: 1966
Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões: 1997
O velho Continente chega ao final do século com as fronteiras de outrora esbatidas pela erosão do tempo, catalisador de movimentos sociais, que na alvorada do SecXXI convergiram para a chamada globazição, moldura de uma Europa Comunitária, dita de regiões, onde os mais poderosos ditam a velocidade e o ritmo de crescimento dos mas frágeis. No leme político e financeiro desta nova Europa, um colosso chamado Alemanha. Nem sempre, no entanto, foi assim. Há pouco mais de meio século atrás, a nação teutónica jazia esventrada, com capacete nazi, pelas bombas da Segunda Guerra Mundial. Findo o conflito, preparou-se para renascer das cinzas. Num tempo de reafirmação nacional e reconstrução de referências nacionais, o futebol foi um decisivo catalisador social para um povo que vivia vergado com o peso da derrota na guerra. A vitória no Mundial 54, seria o impulso desportivo para a reconstrução de um país recentemente dividido pelo Muro de Berlim. Neste espirito, a imprensa alemã anunciava que as qualidades necessárias para todos trabalharem na reconstrução podiam ser encontradas em cada um dos jogadores campeões do mundo: honestidade, modéstia, coragem e disciplina. A partir da imagem dos seus futebolistas, figuras emblemáticas de uma identidade colectiva, toda a nação encetou o que ficaria conhecido como Milagre económico, ponto de partida para a construção da grande potência que é hoje, a todos os níveis, a Alemanha reunificada. Dentro do novo mundo alemão, emerge a sudoeste, a região da Westphalia. No centro, a cidade de Dortmund, reflecte na sua imagem os novos tempos de prosperidade. Nos escombros da memória, fica o terrível ano de 1954, quando finda a guerra agoniava em ruínas, com o centro e a área metropolitana quase toda destruída. O futebol, tal como em todos os movimentos da história, abraçou todos estes momentos. Acompanhou a reconstrução e também hoje gerou um forte clube, desportiva e economicamente, o Borussia Dortmund, capaz de lutar pelo domínio do futebol alemão e europeu, como sucedeu, com sucesso, em grande parte dos anos 90.
As suas tradições no futebol europeu já remontam, no entanto, aos anos 60, quando, depois de atingir a meia final da Taça dos Campeões em 60/61, se tornou na primeira equipa germânica a vencer uma competição europeia. Sucedeu em 1966, no fervor de Glasgow, quando numa espécie de prenúncio do confronto que ingleses e alemães realizariam poucas semanas depois a nível de selecções, bateu o Liverpool de Shankly por 2-1, após ter afastado na meia final o West Ham, então detentor do trofeu, e conquistou a Taça das Taças. No seu onze, orientado por Multhap, alinhavam cinco grandes figuras da selecção alemã que no mês seguinte atingiria a final do Mundial-66: o guarda redes Tilkowski, os extremos Emmerich e Held, titulares da Manschft, o ala direito Libuda e o médio armador Sturm. O futebol alemão de clubes passava, finalmente, a integrar a vencedora elite europeia. Era o inicio de uma era gloriosa que teria o seu auge na década de 70. O Borussia de Dortmund, no entanto, só voltaria a emergir entre os grandes da Europa da bola no limiar do século. Tudo começou em 1986, com a chegada ao clube do presidente Gerd Niebaum e, sobretudo, do manager, director geral, Michael Meier Na mente de Niebaum está a intenção de investir os milhões necessários para reconstruir uma equipa capaz de reeditar o lendário sucesso de 66 e levar o Borussia, pela primeira vez na sua história, á conquista da Bundesliga. No seu passado remontavam apenas três velhas Taças da Liga, em 56, 57 e 63, todas ganhas antes do campeonato nacional por pontos. Meier, então já credenciado manager, era muito respeitado em todos os círculos do futebol alemão, ao lado de Uli Hoeness e Willi Lemke, os dois astutos homens que ocupavam, com grande exito, idêntico cargo no Bayern Munique e Werder Bremen. Pouco antes deixara o Bayer Leverkussen, onde estivera duas épocas, depois de sete anos no grande rival do Reno, o FC Colónia, onde construiu o seu enorme prestígio. Ele era o homem certo para começar a erguer o novo Borussia Dortmund.
Os primeiros sinais dos novos tempos surgiram em 1989 com a conquista da Super Taça e da Taça da Alemanha. Financeiramente em alta, o clube passa a contratar grandes nomes do futebol germânico. Em 1991, chega ao banco do Westfalanstadion, após oito anos na Suíça, o técnico que iria congeminar os melhores onzes da história de Dortmund, Ottmar Hitzfeld, contando para tal missão com um must de grandes jogadores, onde se destacava um grupo resgatado á Juventus, com Reuter, Kohler, Moller, o português Paulo Sousa e o possante central brasileiro Júlio César. Estrelas para um firmamento onde também passaram Riedle, Chapuisat, goleador suíço, Povlsen, avançado centro dinamarquês, Zorc, médio defensivo australiano, o jogador que, com 463 presenças, mais vezes vestiu a camisola amarela do Dortmund, as jovens esperanças germânicas Ricken e Reinhardt, e o magistral líbero Matthias Sammer, um homem nascido na região leste, que começara a destacar-se na ex-RDA, e que nas palavras de Hitzfeld, seria o Beckenbauer dos anos 90. Tudo parecia caminhar para a consagração de Sammer como a grande referência do futebol germânico dos anos 90. Uma lesão no joelho, pouco depois de ter vencido a Bola de Ouro de melhor jogador europeu, em 1996, iria, no entanto, obrigá-lo a encerrar prematuramente a carreira, com apenas 31 anos, após tentar por várias vezes, mas sem êxito, regressar aos relvados. A sua marca ficaria, no entanto, bem evidente no jogo do onze que, praticando um empolgante futebol ofensivo, rápido e de olhos postos na baliza, conquistaria dois consecutivos títulos da Bundesliga, em 94/95 e 95/96. Já não estaria presente, porém, no grande momento da história do Borussia Dortmund. Sucedeu em 1997, com a conquista, em Munique, frente á Juventus de Lippi, 3-1, da Liga dos Campeões Europeus. 14 anos depois da era do Hamburgo, uma equipa germânica voltava a conquistar a coroa europeia. Aquele Dream Team de Dortmund já tinha, no entanto, uma média de idades algo avançada, com muitos jogadores a entrar na casa dos 30 anos. Com o peso da idade a fazer-se sentir nas pernas da maioria e órfão do grande líder Mahias Sammer, o clube não conseguiu prolongar este ciclo de grandes vitórias e, aos poucos, foi perdendo fulgor. Entretanto, Hitzfeld, rumava para o Bayern Munique. Na herança deixava um dinâmico sistema de 5-3-2 com laterais ofensivos, Reuter e Heinrich, frequentemente transformados em extremos. Era tempo do Borussia renovar a equipa.
No estilo de jogo do fabuloso Borussia Dortmund dos anos 90 pode-se observar a evolução do futebol alemão nos últimos 50 anos. Depois de um período em que espelhou uma imagem demasiado rudimentar, percebeu finalmente que a força a por si já não ganhava títulos. Tacticamente era necessário maior dinâmica e a condição atlética necessitava de um novo perfume técnico que parecia ter ficado algo esquecida nos grandes campeões dos anos 70 e inicio dos 80. Por definição um desporto colectivo, o futebol é, na sua essência, um cruzamento de factores físicos, técnicos e culturais, espelhando a morfologia de cada povo. Em cada país, as suas diferentes doses, determinam um estilo. Ao longo do século, foram os alemães que encontraram o melhor equilíbrio, a simbiose que mais se aproximou da utópica definição de perfeição futebolística. Vislumbrando jogadores com a classe de Andreas Moller, Riedle e Sammer redescobriu-se a potência do futebol germânico em toda a sua dimensão. Riedle era um sublime ponta de lança voador, com perfil de pássaro, dono de um fabuloso jogo de cabeça mas longe do redutor estilo armário que imperou em muitas equipas alemãs. Dotado tecnicamente, era um predador dos espaços vazios, que, em Dortmund, esteve á altura do lendário legado deixado pelo terrível ponta de lança dos anos 70, Burgsmuller, autor de 135 golos na Bundesliga, o melhor goleador da história do clube. Moller era a personificação das virtudes do futebol alemão. Passada larga, bola dominada, cabeça levantada, potente remate de 30 metros, visão de jogo e um pulmão que atravessava todo o campo sempre ao mesmo ritmo. Em suma, era a força e a técnica em movimento. Sem o mágico bloco de meados dos anos 90, as últimos épocas da década não foram fáceis. Uma transição que sacrificou o treinador italiano Nevio Scala e o jovem Michel Skiebbe, de 33 anos, mais novo do que muitos dos seus jogadores, que assumira o banco após ter subido á Regionalliga a equipa satélite do Borussia. Na primeira equipa, porém, os resultados nunca estiveram com ele e, em 2000, o clube, perto de cair na II Divisão, acabou por ter de recorrer, em desespero, aos serviços da velha raposa do futebol alemão, Udd Latek. A equipa salvou-se in-extremis da descida e no banco passou a sentar-se o homem que, para muitos, já fora um gande treinador dentro das quatro linhas e com a bola nos pés: Matthias Sammer.

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