Em finais dos anos 70, em plena era de ouro do futebol belga, que se prolongou até meados dos anos 80, o Club Brugge emergiu como uma das mais fortes equipas europeias. No seu estilo escondia-se o perfil malicioso, feito de atrasos ao guarda redes, traiçoeiras defesas em linha e venenosos contra-ataques, que, nessa época, moldou uma sábia e mórbida escola táctica que então transformou o jogo belga numa espécie de futebol de autor. Com esse estilo, o Brugge foi finalista da Taça UEFA, em 1976, e da Taça dos Campeões, em 1978. Era um onze congeminado pelo mestre austríaco Ernst Happel, e cuja base estava num sublime quarteto defensivo formado por Bastijns, Leekens, Krieger e Maes, exímio em colocar os adversários fora-de-jogo, enquanto no meio campo brilhavam Cool e Van der Eycken.
Mais de duas décadas depois, muita coisa mudou. Olhando os seus clubes, conclui-se que esse estilo desvaneceu-se, sobretudo face ao seu escasso campo de recrutamento, sujeito ao maior ou menor talento de cada geração. Assim, o Club Brugge, tal como todo o futebol belga de clubes (actual 11º no Ranking UEFA), sem os talentos de outrora e incapaz de competir com os colossos financeiros do futebol europeu, há anos que abandonou a elite clubistica do velho continente, tendo, esta época, sido logo eliminado na primeira fase da Liga dos Campeões.
Um onze que é a base da selecção belga
No momento, depois de conquistar o titulo de campeão belga que lhe escapava desde 1998, o Club Brugge ambiciona resgatar esse prestígio internacional abalado. Para essa missão conta com uma equipa sólida e mecanizada, mescla de experiência e juventude, construída pelo jovem técnico norueguês Trond Sollied, 43 anos, e que já joga junta desde há várias épocas, revelando-se muito consistente na defesa e imaginativa no ataque. Tacticamente, o seu esquema preferido é o 4x3x3, mas, muitas vezes, sem a posse da bola, recua para 4x4x2.
Entre a velha guarda, os grandes símbolos são o avançado Verheyen, há 11 anos no clube, e o patriarcal guarda redes Verlinden, que faz 40 anos em Agosto próximo, e está há 15 na baliza do Brugge, sempre com a mesma postura, exímio a orientar a defesa, mas já sem a mesma capacidade de voar para a bola como antigamente fazia. A estes veteranos, Sollied juntou quatro médios de grande capacidade técnico-táctica: Simons, médio defensivo organizador de jogo, Englebert, um operário que corre 90 minutos, o virtuoso romeno Stoica, 23 anos, um jogador ao estilo Hagi, muitas vezes adormecido, mas que quando aparece inventa um lance genial para golo, e o esloveno Cech, sobre a esquerda, excelente a apoiar o trio ofensivo, onde está, para além do carismático Verheyen, o diabólico peruano Mendoza e o experiente Sandy Maertens, que reconquistou um lugar no onze após os noruegueses Saeternes e Lange, apostas pessoais de Sollied, se terem lesionado. No eixo da defesa, uma dupla de centrais que se complementaMaertens e Clement. Uma equipa que é base da selecção belga, excelente a nível interno, mas com dificuldades para se impor internacionalmente. Sinais dos tempos.
TROND SOLLIED: Um treinador na senda de Nils Eggen e Egil OLsen

Após longas décadas sem qualquer expressão a nível internacional, a Noruega, selecção e clubes, despertou os olhares do futebol mundial nos anos 90. No leme da revolução do futebol que veio do frio, um novo conjunto de possantes jogadores com maiores dotes técnicos e uma sábia casta de treinadores com astúcia táctica renovada. Permanecendo fieis aos ditames atléticos do futebol norte-europeu, souberam ao mesmo tempo dar-lhe pendor ofensivo e consistência colectiva no trato da bola. Como principais símbolos, dois homens: Egil Olsen, na selecção, e Nils Arne Eggen, no Rosenborg, em cujo banco esteve durante uma vida, saindo em 1998 para dar lugar a um jovem técnico vindo do Valerengen: Trond Sollied. Seguindo os ensinamentos daqueles mestres, sagrou-se campeão norueguês e, na época seguinte, rumou á Bélgica, para o Genk. Está no Club Brugge desde 2000/01, onde, ao inicio, causou polémica com o seu sistema de treinos, pois em vez de dar prelecções no balneário, Sollied prefere sempre o trabalho de campo, utilizando, como ditam os mestres noruegueses, os treinos de conjunto e o chamado jogo de sombras, interpretado pela equipa de reservas, que, sob as suas ordens, altera sistematicamente de esquema táctico, para assim testar a capacidade de reacção do onze titular.
A sua concepção de futebol necessita de jogadores fortes atleticamente, capazes de colocar em prática o ofensivo 4x3x3, e, ao mesmo tempo, na hora de defender, recuar no terreno e trabalhar na recuperação da bola. É esta a imagem de marca da nova escola norueguesa que Sollied, um treinador, por definição, ofensivo, personifica na perfeição. Falta-lhe, porém, alguma criatividade. Apesar disso, é uma escola e um estilo que, através dos seus jogadores e técnicos, já conquistou um lugar próprio no contexto do futebol internacional. Este Club Brugge, embora sem qualquer jogador norte-europeu é já, na sua forma de jogar, um bom exemplo disso.
AS ESTRELAS DO CAMPEÃO/2003

TIMMY SIMONS
Posição: Médio-defensivo
Idade: 26 anos (11/12/76)
Nacionalidade: Belga
O melhor jogador belga da actualidade. Sóbrio, tecnicamente evoluído, grande visão de jogo, atleticamente forte (1,86 m e 79 kg), lutador, precisão de passe e, embora sendo médio defensivo, o clássico nº6, por definição, possui capacidade de adaptação a qualquer lugar do meio campo. É, como disse Waseige, o jogador com que qualquer treinador sonha. Nas últimas três épocas não falhou um único jogo do campeonato belga. Chegou ao Brugge em 2000, vindo do Lommel. Tem talento e classe para jogar e triunfar em qualquer grande campeonato europeu.
GAETAN ENGLEBERT
Posição: Médio-ala direito
Idade: 26 anos (11/6/76)
Nacionalidade: Belga
Um médio ofensivo no estilo do velho Van der Elst que joga sobre o flanco direito mas que core o campo todo. Indiscutível na selecção belga, possui grande precisão de passe e, muitas vezes, quase carrega sozinho a equipa ás costas. É o marcador de serviço dos cantos e bolas paradas. Um jogador fundamental para a coesão do meio-campo.
GERT VERHEYEN
Posição: Avançado-centro
Idade: 32 anos (20/9/70)
Nacionalidade: Belga
A grande referência carismática da equipa, na qual se transformou um perigoso avançado centro, após passar grande parte da carreira como médio direito ofensivo. Não é um monstro de técnica, mas sabe tratar a bola, escondendo-a nos seus músculos, e possui uma força física que lhe permite entrar de trás e chocar sem medo com os defesas. Tem um remate potente e sabe jogar, em tabelas, com os colegas do sector.
ANDRES MENDOZA
Posição: Extremo-esquerdo
Idade: 25 anos (26/04/78)
Nacionalidade: Peruano
Está no Brugge desde 99/2000, vindo do Sporting Cristal, do Perú. Depois de uma época de adaptação, conquistou um lugar de titular indiscutível. Destaca-se pela forma como alia, em velocidade e rumo á baliza, a sua pujança física (1,82m e 73 Kg) com a velocidade, ultrapassando, assim, qualquer defesa, rompendo sobretudo pelo flanco esquerdo, o seu espaço preferido.