Em Gelsenkirchen ainda se pressente uma atmosfera que rasga o espirito de todos com a mesma frieza como um monstro de Karlsruhe, radicado na Baviera, chamado Oliver Kahn, derruba os adversários que lhe surgem pela frente. Na memória do Schalke 04, velho clube germânico, ainda estão os quatro minutos mais loucos da sua história, vividos na primavera passada, na últimos suspiros da Bundesliga mais disputada dos últimos 50 anos. Nesse curto espaço de tempo, conheceu tudo. Desilusão, esperança, euforia, medo e de novo total desilusão. Uma vertiginosa sucessão de emoções motivadas pela derrota, num ápice transformada em empate, do Império da Baviera em Hamburgo. Mais uma vez, o titulo máximo do futebol alemão fugia para os Panzers de Munique, morada do monstro Kahn e do grande Kaiser Beckenbauer.
Apesar da DFB (Deutsher Fussball-Bund) existir desde 1900, a Alemanha Federal foi o último país da Europa Ocidental a introduzir nas suas competições o campeonato nacional por pontos. A Bundesliga foi criada apenas em 62/63, até lá disputava-se um torneio nos moldes de Taça, por grupos regionais, com um jogo final. O inicio da prova coincidiu com a abertura da Academia de treinadores de Colónia, que em breve ira formar uma nata de técnicos cuja sagacidade formaria os mais talentosos jogadores da história do futebol alemão
Depois de uma ténue quebra no inicio dos anos 80, a Bundesliga, sempre com os Estádios cheios e uma média de quase 29 000 espectadores por jogo em 2000/2001, tornou-se numa das mais espectaculares Ligas europeias, sendo, junto com a inglesa, a comercialmente mais lucrativa do Velho Continente.
Quando em 62 teve a sua primeira edição, o Bayern ainda andava pela Liga Regional, mas com a chegada á primeira equipa dos jovens Maier, Beckenbauer e Muller, o embrião do gigante que hoje se ergue no futebol mundial já estava em ebulição,
O primeiro titulo surgiria em 69 sob a orientação do jugoslavo Branco Zeber que, astuto, soube entender a escola alemã e, em vez de grandes inovações tácticas, limitou-se a lapidar o glacial, possante e quase arrogante sistema germânico. Desde esse dia até hoje, nunca mais o Bayern Munich largou o domínio do futebol alemão.
Enquanto outros ciclicamente se apagavam, o emblema da Baviera, resistiu ás mudanças de ritmo e á erosão do tempo. Depois da geração Beckenbauer e Maier, anos 70, surgiu a de Rummenigue e Aughentauler, anos 80, e a de Matthaus e , anos 90, chegando ao final do século com o grande patriarca do futebol alemão, no momento em que os novos heróis são Scholl, Kahan, Elber e Jeremies, suporte de uma poderosa frente de ataque que mescla a arte do trio sulamericano, Elber, brasileiro, Roque Santa Cruz, paraguaio e Pizzarro, peruano, com o estilo glacial do panzer Janker, todos herdeiros da aura do Kaiser, hoje, com cabelos brancos, no cadeirão presidência.
SCHALKE, LEVERKUSSEN E DORTMUND:
DESAFIO A MUNIQUE
Coração industrial da velha Alemanha, a região do Rhur gerou os primeiros grandes clubes do futebol germânico, Dortmund e Schalke 04. Depois de um período de crise nos anos 70/80, época onde emergiu o futebol bonito de Colónia e Monchengladbach, nos últimos anos aprisionados num sobe e desce que os levou á 2ª Bundesliga várias vezes, os emblemas do Rhur industrial ressurgiram como grandes desafiantes do poderio bavaro.
Durante os anos 90, o Borussia Dortmund, campeão nacional em 95 e 96 e europeu em 97, foi o grande embaixador internacional do futebol alemão. No leme da revolução o técnico Hitzfeld e o libero Sammer. Poucos anos depois, a situação alterou-se. Hitzeld rumou a Munique onde é neste momento a alma táctica do Bayern, enquanto Sammer, vitima de lesão, foi obrigado a pendurar as chuteiras e é hoje o treinador do Borussia, ansioso de reviver as glórias do seu tempo de jogador. Respeitado por todos, Sammer já conquistou, como técnico, os corações de Dormund, mas depois do 4º lugar em 2000, todos sonham em atacar o titulo esta época, tendo contratado, para essa missão, uma fabulosa dupla atacante: o brasileiro Amoroso e o gigante checo Koller.
A poucos quilómetros, em Gelsenkirchen, o Schalke 04, volta a congeminar, sob a orientação do treinador holandês Huub Stevens, desde 96 no clube, novo ataque ao topo da Bundesliga. Sem alterar muito a base da equipa, dona de um esquema de jogo mecanizado que tem o principal apoio no experiente médio Andreas Moller e nos acutilantes avançados Mpenza e Asamoah –um nigeriano naturalizado alemão e que alinhou a época passada na selecção germânica- o clube não fez grandes contratações, apostando antes no regresso do belga Wilmots, após uma época apagada no Bordeaux.
Longe do Rhur, surgem as outras grandes forças da Bundesliga: o Leverkussen, patrocinado pela multinacional farmacêutica Bayer, e o histórico Kaiserlautern, desde os anos 50 envolto na aura misticismo que envolve o seu Estádio Fritz Walter, mítico capitão do onze campeão mundial 54, num tempo onde a base da selecção, seis jogadores, eram do Kaiserlautern
Após os ciclos dos credenciados Daum e Vogts, o Bayer Leverkussen aposta esta época num treinador que até este momento nunca treinara um grande da Bundesliga: Klaus Toppmoller, ex-Saarbrucken. Uma aposta arriscada do manager Reiner Calmund, o homem forte de um clube que
se reforçou esta época com o guarda redes goleador Butt, ex-Hamburgo, especialista na cobrança de penalties, e conta com estrelas como Ze Roberto, Kirsten e Neuville, para atacar um titulo que nunca conquistou em toda a sua história.
No Kaiserlautern está hoje, finda a era milagrosa de Rehagel, campeão em 99 após ter subido no ano anterior –caso único na história da Bundesliga- o antigo lateral esquerdo da Manschaft, campeão do mundo em 90, Andreas Breheme, antigo adjunto de Rehagel. Depois de um desatroso final de época, volta a apostar no mesmo onze base, onde as grandes figuras são Djorkaeff, Ramzy e o írascivel Super Mario Basler.
DEISLER:
A FACE DA NOVA GERAÇÃO
As razões para a queda e, digamos, pequena crise do futebol germânico a nível internacional são múltiplas. Em primeiro lugar, a condição atlética deixou de ser exclusivo dos alemães, pelo que, nesse campo, já não encontra a vantagem de choque de outrora. A par disso, a qualidade técnica do jogador alemão baixou. Concentrada excessivamente na resistência física e na força mental, a escola germânica perdeu o virtuosismo que também era comum encontrar em, sobretudo, muitos dos seus médios. Quando jogam juntos o contraste entre os jogadores de diferentes gerações, como por exemplo Hassler e Jeremis, é evidente. Enquanto o primeiro ainda solta o seu perfume técnico mesclado com o músculo, o segundo, apesar de ter um pulmão infinito, revela imensas limitações técnicas. Ora, neste momento, o futebol moderno vive uma nova encruzilhada, onde a técnica, face á crescente igualdade física entre todas as nações, surge como o único factor capaz de, no futuro, provocar desequilíbrios. A força, por si só, já não ganha jogos. É, no fundo, um regressar ás raízes do futebol.
Apesar do seu valor, nenhum dos habituais titulares da selecção na casa dos 26/29 anos, os da maturidade futebolística, casos de Nowotny, Hamann, Scholl, Ziege, Babbel e Jeremis, têm a classe dos seus antepassados. Neste contexto, como face da nova geração emerge a jovem promessa Deissler, do Herha Berlim, 22 anos, virtuoso, combativo e inteligente com a bola nos pés.
Na Bundesliga, os sistemas tácticos prefernciais continuam a nascer do tradicional 3x5x2. Hoje, porém, falta criatividade ao jogador alemão. Os seus amantes podem continuar a ver com portentosos remates de 30 metros, mas a falta, sobretudo, de médios ofensivos que garantam uma eficaz circulação de bola, o segredo de todas as grandes equipas, impede que atinjam o nível internacional dos anos 70/80.
Tacticamente, os alemães nunca ofereceram nada de novo ao mundo do futebol. Jogam hoje como há 30 anos atrás: Um libero sempre disposto a subir, laterais avançados, dois centrais de marcação, três médios e dois avançados com um falso ponta de lança nas costas. Um sistema que exige um grande líder, referência ausente nesta geração depois de uma lesão ter afastado Sammer, aos 27 anos, após eleito melhor jogador europeu do ano, em 1996.
BALAKOV E OUTROS TALENTOS
A Bundesliga não se resume porém a este grupo de elite. Observando as outras equipas, os amantes do bom futebol podem sempre deliciar-se com os rasgos de Yeboha, o possante ganês do Hamburgo e de Alex Alves, artista brasileiro do Hertha, ao lado da agressividade do austrieco Herzog, Werder Bremen, e do activo Kobiaschwili, motor do Freiburg, enquanto o pequeno génio Hassler, 35 anos, se prepara para realizar a sua ultima época, no Munchen 1860.
O rendimento exibicional do Sttugart é directamente proporcional á inspiração de Balakov. O problema está em que, com o passar dos anos, o búlgaro fantasista vai naturalmente perdendo fôlego e hoje, com 35 anos, o seu futebol mágico dificilmente dura 90 minutos ficando muitas vezes á espera de um livre á entrada da área para resolver os problemas que esta época serão certamente maiores.
ENERGIE COTTBUS:
A SOMBRA DA VELHA RDA
No plano futebolístico a reunificação germânica traduziu-se mais numa mera anexação da velha RDA pelo lado ocidental. Das equipas da antiga OberLiga –a Liga da RDA- subsistem hoje na Bundesliga apenas duas: o Hansa Rostock e o Energie Cottbus, orientado pelo ultimo seleccionador da RDA, Eduard Geyer, o que incute na equipa a atmosfera revivalista de um futebol outrora poderoso. Sem grandes recursos, jogando no modesto Stadion Freundschaft, o Energie vai jogar a sua segunda época na Bundesliga unificada. Os ventos de leste no inicio do Séc.XXI.
AS EQUIPAS E SUAS FIGURAS
BAYERN MUNIQUE
* Campeão em 1969, 1972, 1973, 1974, 1980, 1981, 1985, 1986, 1987, 1989, 1990, 1994, 1997, 199, 2000 e 2001
Em 2000/2001:1º
Treinador: Ottmar Hitzfeld
Principais Figuras e contratações: Robert Kovac(ex-Leverkusen), Niko Kovac(ex-Hamburgo), Pizarro (ex-Werder Bremen), Thiam (ex-Stuttgart); Kahn, Effenberg, Scholl, Elber e Jeremies.
Estrela: Olivier Kahn
Objectivo: Titulo
SCHALKE 04
Em 2000/2001:2º
Treinador: Huub Stevens
Principais Figuras e contratações: Mastellan (ex-Boca Juniors), Rozgonyi (ex-Magdeburg), Wilmots (ex-Bordeaux), Djordjevic (ex-Stuttgart), Vermant (ex-Brugge), Agali (ex-Hansa Rostock); Bohme, Thon, Asamoah, Mpenza.
Estrela: Andreas Moller
Objectivo: Titulo
BAYER LEVERKUSSEN
Em 2000/2001: 4º
Treinador: Klaus Toppmoller (ex-Saarbrucken)
Principais Figuras e contratações: Butt (g.r ex-Hamburgo), Basturk (ex-Bochum), Zepek (ex-Karlsruher), Sebescen (ex-Wolfsburg); Nowotny, Ze Roberto, Neuville, Kirsten.
Estrela: Zé Roberto (brasileiro)
Objectivo: Titulo
KAISERLAUTERN
* Campeão em 1991 e 1998
Em 2000/2001:8º
Treinador: Andreas Brehme
Principais Figuras e contratações: Lincoln (ex-Atletico Mineiro), Knavs (ex-FC Tirol) Riedl (ex-1860 Munchen), Malz (ex-Arsenal), Hengen (ex-Wolfsburg); Klose, Djorkaeff, Pettersson, Ramzy.
Estrela: Mario Basler
Objectivo: UEFA
BORUSSIA DORTMUND
*Campeão em 1963, 1995 e 1996.
Em 2000/2001:3º
Treinador: Matthias Sammer
Principais Figuras e contratações: Amoroso(ex-Parma), Koller (Anderlecht), Madouni (ex-Montpellier); Herrlich, Evanilson, Kohler Reuter.
Estrela: Amoroso (brasileiro)
Objectivo: Titulo
HERTHA BERLIM
Em 2000/2001:5º
Treinador: Jurgen Rober
Principais Figuras e contratações: Marcelinho (ex-Gremio), Goor (ex-Anderlecht), Pinto ex-Stuttgart), Lapaczinski (ex-Reutlingen), Neuendorf (ex-Leverkusen); Preetz, Alex Alves, Wosz e Beinlich.
Estrela: Sebastian Deisler
Objectivo: UEFA
TSV 1860 MUNIQUE
*Campeão em 1966
Em 2000/2001: 11º
Treinador: Werner Lorant
Principais Figuras e contratações: Weissenberger (ex-Arminia Bielefeld), Wiesinger (ex-FC Bayern), Rosler (ex-Ulm), Dheedene (ex-Anderlecht); Max, Winkler, Beierle e Agostino
Estrela: Tomas Hassler
Objectivo: Manutenção
WERDER BREMEN
*Campeão em 1965, 1988 e 1993
Em 2000/2001:7º
Treinador: Thomas Schhaf
Principais Figuras e contratações: Silva (ex-Sporting Cristal), Blank e Lisztes (ex-Stutgart), Wierzchowski (ex-Ruch Chorzow) e Klasnic e Wehlage (ex-St.Pauli); Verlaat, Bogdanovic, Ailton, Bode.
Estrela: Andreas Herzog
Objectivo: UEFA
HAMBURGO
*Campeão em 1979, 1982 e 1983
Em 2000/2001: 13º
Treinador: Frank Pagelsdorf
Principais Figuras e contratações: Albertz (ex-Glasgow Rangers), Pieckenhagen (ex-Hansa Rostock), Maltriz (ex-Wolfsburg), Watcher (ex-Uerdingen); Barabarez, Yeboah, Cardoso e Sporl.
Estrela: Tony Yeboah (ganês)
Objectivo: UEFA
WOLFSBURG
Em 2000/2001: 9º
Treinador: Wolfgang Wolf
Principais Figuras e contratações: Franz (ex-Magdeburg), Plassneger (ex-Saarbrucken), Ponte (ex-Leverkussen), Karhan (ex-Besiktas), Petrov (ex-Servete); Akpoborie, Juskowiack, Schnoor e Maltriz
Estrela: Dorinel Munteanu (romeno)
Objectivo: Manutenção
FREIBURG
Em 2000/2001:6º
Treinador: Volker Finke
Principais Figuras e contratações: Gerber (ex-St.Pauli), Ben Slimane (ex-Al Nasr), Zamatradse (ex-Winterthur); Kehl, Sellimi, Kohl e Zeyer
Estrela: Levan Kobiaschwili (Geórgia)
Objectivo: Manutenção
VFB STUTTGART
*Campeão em 1984 e 1992
Em 2000/2001:15º
Teinador: Felix Magath
Principais Figuras e contratações: Rui Marques (ex-Hertha), Morena e Vujevic (ex-Amadores); Ademar, Kuka, Ganea e Hildebrand
Estrela: Krassimir Balakov
Objectivo: Tranquilidade
FC COLÓNIA
*Campeão em 1968, 1977, 1978 e 1983
Em 2000/2001:10º
Treinador: Ewald Lienen
Principais Figuras e contratações: Reeb (ex-Leverkussen), Balitsch (ex-Wladhof Mannheim), Reich (ex-Kaiserlautern); Timm, Keller, Lottner, Scherz
Estrela: Archil Arweladse (Geórgia)
Objectivo: UEFA
ENERGIE COTTBUS
Em 2000/2001:14º
Treinador: Eduard Geyer
Principais Figuras e contratações: Schroter e Jungnickel (ex-Dinamo Dresden), Vincze (ex-Mannheim), Kaluzny (ex-Wisla Krakau), Topic (ex-Austria Viena); Franklim, Reghecampf, Antun, Piplica
Estrela: Vasile Miriuta (romeno)
Objectivo: Manutenção
HANSA ROSTOCK
Campeão da RDA: 1991
Em 2000/2001: 12º
Treinador: Friedhelm Funkel
Principais Figuras e contratações: Hirsch (ex-Unterhaching), Schober (ex-Hamburgo), Hill (ex-Willem II), Maul (ex-Hamburgo), Weisshaupt (ex-Freiburg); Wibran, Brand, Emara e Rydlewicz.
Estrela Andreas Jakobsson (sueco)
Objectivo: Tranquilidade
BORUSSIA MONCHENGLADBACH
*Campeão em 1970, 1971, 1975, 1976 e 1977
Em 2000/2001: 2º na 2.BUNDESLIGA
Treinador: Hans Meyer
Principais Figuras e contratações: Mieciel (ex-Legia Varsóvia), Ulich (ex-Slavia Praga), Munch (ex-Besiktas), Felgenhauer (ex-Greuther Furth); Van Lent, Van Houdt, Nielse, Zeljko.
Estrela: Marcel Wietczek
Objectivo: Tranquilidade
FC NUREMBERGA
*Campeão em 1968
Em 2000/2001: 1º na 2.BUNDESLIGA
Treinador: Klaus Augenthaler
Principais Figuras e contratações: Frey (ex-Werder Bremen), Michalke e Sanneh (ex-Hertha BSC), Muller (ex-Aachen), Schafer (ex-Lubeck); Gomis, Mockel, Tavcar, Gunther.
Estrela Martin Driller
Objectivo: Manutenção
FC ST.PAULI
Em 2000/2001: 3º na 2.BUNDESLIGA
Treinador: Dietmar Demuth
Principais Figuras e contratações: Yakubu (ex-Wattenscheid), Gibbs (ex-Miami), Inceman (ex-Aaachen), Bulat (ex-Sibenik), Held (ex-Schalke 04), Racanel (ex-Entracht Trier); Schinhardt, Meggie, Trulsen, Burger.
Estrela: Marcel Rath
Objectivo: Manutenção
* Titulos da Bundesliga (criada em 1962)