Na hora de tentar revitalizar o seu ataque, Shehata, o sábio técnico, antigo lateral-direito da selecção que esteve no Mundial-90, um homem sempre de cara fechada, decidiu inserir um avançado mais dinâmico. Tirou Mido e meteu Amr Zaki. A reacção do insolente faraó da bola, discutindo e insultando o técnico em pleno relvado, perante 80 mil espectadores, ultrapassou o impensável.

“Eu? Porque me tiras a mím?"-pergunta Mido enfurecido em pleno relvado quando vê o seu número na placa de substituição.
- "Porque sou o treinador. Saí!"- grita o técnico Shehata na berma das quatro linhas
-"És burro! Se me tiras, és um burro!”- responde enfurecido Mido
"Pois este burro é quem manda e ordeno-te que saias já. Fora!” – grita Shehata.
No banco, estava uma lenda do futebol egípcio, Hossam Hassan, que no jogo anterior jogara a titular, fizera um golo e desatara a loucura no país que o trata como um Deus. Apesar disso, regressara ao banco, sem reclamar. Seria ele a colocar-se entre jogador e treinador para impedir que o cenário piorasse.
O Egipto chega à final da CAN, empurrado pelo seu público, mas está muito longe de ser uma grande equipa. Tem os traços típicos do seu futebol norte-europeu, adepto de bola no pé, jogo apoiado, toque curto e mudanças de velocidade nos últimos 25 metros, mas, no conjunto, revela muitas lacunas. Tacticamente, joga em 3x5x2, como é normal em muitas equipas egípcias.
Os três defesas El Saka-Gomas-Ibrahim são centrais de raiz. Fortes na marcação, mas com pouco jogo de cintura perante avançados rápidos. A saída de bola é, assim gerida pelos laterais ofensivos.
Consciente disso, Shehata inovou ao colocar o avançado Barakat na lateral direita, fazendo todo o corredor atrás e à frente, para além de ter liberdade para procurar zonas mais centrais, as suas por natureza. Nesse momento, El Saka fecha na faixa. Na esquerda, Wahab sobe e cruza muito bem.
O coração e motor do onze está, porém, no centro, com o trinco Shawky e o volante operário Ahmed Hassan, que, agressivo, assume a recuperação e condução da bola, com excelente toque de bola. No ataque, Moted, pode fazer dupla com Hassan, Zaki ou…Mido.
Neste contexto, um jogador merece destaque, claramente o mais elegante e influente do onze: Aboutrika, o tal avançado esguio e elegante descoberto por Manuel José para o Al Ahly num clube da II Divisão egípcia.
Ao contrário de Mido, não anda de Ferrari nem discute com o treinador, mas cada vez que toca na bola parece que a leva debaixo do braço, tal a segurança com que a conduz, partindo quase sempre em movimentos diagonais da esquerda para a direita, ao jeito do seu melhor pé, o direito. Com visão de jogo e perfeito timing de decisão, avança, passa e remata cirurgicamente.

Do outro lado, na grande final do Cairo, uma equipa com um perfume muito diferente: a Costa do Marfim de Drogba. Eliminou Camarões e Nigéria, mas para ser a mais forte selecção africana, ainda lhe falta alguns equilíbrios entre-linhas e bases tácticas mais sólidas, sobretudo defensivamente.
Tem, no corredor central, uma excelente dupla de trincos-volantes. Zokora, verdadeiro relógio do primeiro passe no inicio da transição defesa-ataque, e Yaya Touré, um craque «box to box» para jogar em qualquer equipa do mundo, mas, na linha atrasada, falta-lhe peso e classe. Touré e Maitê, embora posicionalmente cultos, alargam demasiado nas faixas para cobrir os laterais Boka, à esquerda, e Eboué ou Zoro, à direita. Marcam sempre à zona, e revelam pouca agressividade nos lances divididos. Por isso, colocar Romaric, em vez de Akalé, como médio-ala esquerdo é uma boa opção, pois abre a atacar e bascula na cobertura quando perde a bola
Vendo a qualidade do resto da equipa em termos ofensivos (esquematizada num 4x2x3x1 com dinâmica de 4x3x3) é, claramente, na transição ataque-defesa que Henri Michel tem de trabalhar para tornar o onze mais competitivo.