É quase como uma palavra mágica para pacificar qualquer discussão futebolística em torno do eterno dilema espectáculo-resultado: Redondo. Elegante, culto, em campo, arrumando o jogo e seguir a decorando-o com flores, ou fora dele, frequentando curso superior de línguas, ele marcou uma era de bom futbol ganhador em Madrid. É dele, porém, aquela frase sobre a recusa em jogar inserido num duplo-pivot defensivo: “Quando me colocam outro jogador ao lado, é como se me tapassem um olho!”.
Esta frase readquire actualidade devido ao facto de, na ânsia por solucionar a sua crise de jogo, o Real Madrid decidiu adquirir um jogador que, na essência, posição em campo, estilo e semelhança física, é um projecto de novo Redondo: Fernando Gago, um volante recuperador que, depois, com bola, sobe a construir. O novo pibe também sempre disse que prefere jogar sozinho à frente da defesa, no estilo dos célebres nº5 argentinos, numero que consagrou muitos craques que jogaram naquela posição, com uma atitude competitiva quase ditatorial em campo, caudillos futebolísticos, na condução da bola e forma de dar ordens ao resto da equipa. Capello é porém um dogmático táctico do duplo-pivot. Joga com ele, independentemente do sistema táctico, há uma dezena de épocas. Emerson, seu fiel escudeiro nessa posição, já o segue há sete anos.
Inserir Gago nesta prisão táctico-posicional é uma ameaça à essência do seu futebol. O natural será ficar o outro pivot (Emerson ou Diarra), mais fixo, mas para fazer girar o jogo como fazia no Boca, dando critério de circulação de bola desde a primeira zona de construção, necessita de ter uma visão periférica do campo e suas linhas de passe que só jogando sozinho nessa posição, no centro, como regista recuado, pode garantir.

Este é, no entanto, uma das grandes causas do fraco jogo do onze de Capello. Guti também sofre com isso, visto que o seu futebol também vive encurralado pelos mesmos condicionalismos tácticos. Dentro do plantel, ele é o jogador com mais capacidade para fazer passes de ruptura que rasgam as defesas contrárias. Capello percebeu isso ao dar-lhe a titularidade quando parecia condenado ao banco.
Em relação a Gago tem a vantagem de saber jogar de costas para a baliza ou para meio-campo adversário, algo em que os sul-americanos têm muitas dificuldades quando chegam à Europa.
O mundo de problemas do Real Madrid tem, no entanto, outros casos: A falta de entendimento do quarteto defensivo, a indefinição em relação a Beckham, a incapacidade de encaixar Robinho e Reyes, em relação aos quais Capello não consegue descobrir como aproveitar a capacidade de ambos em dar vida ao jogo pelos extremos, e a falta de mecanização da dupla atacante Ronaldo-Van Nistelrooy, dois nº9 fantásticos, mas a verdade é que, sempre que jogaram juntos, o Real perdeu. Não devido à presença deles, mas devido a que, com essa opção, retirou-se uma peça da zona de construção.
Reside nesse ponto a chave do problema do jogo merengue. Gago é um poeta do bom futebol. Capello quer eficácia. Nesse sentido, um duplo-pivot Guti-Gago seria o maior desafio táctico e estético da vida de Capello como treinador.