CAZAQUISTÃO: Futebol de leste com sabor asiático

19 de Agosto de 2003
NAÇÃO DA «NOVA EUROPA» QUE VEM DA ÁSIA CENTRAL PROFUNDA


Incomensurável território situado na região da Ásia central, fazendo fronteira com a China, o Cazaquistão foi a última republica a separa-se da antiga URSS, em 1991, data em que se tornou independente. Seguindo os ditames políticos, o seu futebol viveu longos anos submerso pela tutela soviética. Com a independência, recuperou a sua identidade própria e, em 2001, aproveitando as encruzilhadas geográficas que confundem o mundo, foi, depois de quase uma década inserido na CAF (Confederação asiática), admitido como membro da UEFA, da qual se tornou a segunda maior nação em termos de dimensão territorial. Este é o retracto do seu futebol.
A situação global do futebol das antigas republicas da ex-URSS assemelha-se a uma enorme Babouchka, a famosa boneca russa que se abre indefinidamente para deixar aparecer sempre outra e mais outra cada vez mais pequena. Cada uma delas, consoante o seu nível competitivo, seria uma dessas nações agora independentes. Entre elas, está a selecção que esta semana visita Portugal: a Republica do Cazaquistão, das mais pequenas em valor futebolístico, das maiores em dimensão territorial. Durante o tempo da união, o seu futebol viveu num anonimato quase total. Raramente os seus clubes se destacaram no campeonato da ex-URSS. Após a independência, enquanto selecção asiática, em cuja Confederação (AFA), muito naturalmente, tendo em conta a sua situação geográfica, se inseriu, o Cazaquistão esteve presente, em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, e, três anos depois, em 1999, no Mundial Sub-20. Nostálgicos do tempo passado na antiga URSS e inspirados nos exemplos de outras ex-nações da velha união (como Estónia, Azerbeijão, Letónia, etc) os seus directores nunca deixaram, no entanto, de lutar pelo direito de também ingressarem na UEFA, da qual passou a ser membro a partir 25 de Abril de 2002, após quase uma década, desde 1993, no futebol asiático. Nos relvados, o sonho concretizou-se primeiro a nível de clubes, em 2002/03, com a entrada do FC Zhenis, na pré-eliminatória da Liga dos Campeões. A nível de selecções, o passo inicial será dado pelos Sub-19 e Sub-17, que, no próximo ano, disputarão o apuramento para os Europeus da categoria. A selecção principal, por sua vez, após ter disputado, nos anos anteriores, a fase de qualificação para o Mundial, nos grupos asiáticos, passará a inserir-se, a partir da campanha para o Mundial-2006, nas poules de apuramento europeias. Até esse momento, limita-se a disputar jogos particulares.

De Bayshakov a Litvinenko: Figuras para as história

É necessário vasculhar de lupa e lanterna nos velhos registos da história do futebol soviético para encontrar, nas suas páginas amarelecidas pelo tempo, algum nome de um jogador do Cazaquistão digno de destaque. Busca-se, busca-se, e, por fim, surge, um nome: Seilda Bayshakov, o primeiro jogador nascido no Cazaquistão a ser convocado para a selecção principal da URSS. Sucedeu em 1977, num jogo contra a Hungria. Excelente jogador, Bayshakov alinhava no FC Kairat, e foi considerado á época como um dos melhores defesas do futebol soviético. Teria de se esperar mais de uma década para outro futebolista casaque se destacar na selecção da URSS: Yarovenko, também do FC Kairat, médio do onze campeão olímpico em 1988. Observando o último jogo realizado, na Polónia podemos vislumbrar uma selecção demasiado rudimentar, tacticamente ingénua até, e, apesar da atitude competitiva positiva, muito limitada tecnicamente, ao mesmo tempo distante da velocidade asiática e do tradicional jogo colectivo do velho sistema de leste. A derrota por 0-4 foi o corolário lógico para as debilidades técnico-tácticas exibidas que já tinham surgido nos jogos anteriores com selecções europeias (derrotas com as Ilhas Faroe, 2-3 e 1-2, e empate com Malta, 2-2). Como diria Rakhat Alieyev, Presidente da Federação de Futebol do Cazaquistão, todos estes primeiros jogos com selecções europeias foram quase como uma terapia de choque para o futebol casaque após tantos anos passados a jogar na Ásia. Neste contexto, é difícil destacar, actualmente, um jogador do Cazaquistão de nível internacional, sobretudo depois da sua principal figura nos últimos anos ter entrado na fase descendente da carreira: Oleg Litvinenko, o pequeno furacão, um veloz avançado de 30 anos, o melhor marcador da história da Liga do Cazaquistão, com 123 golos apontados entre 1992 e 2002, ao serviço sobretudo do Yelimai e do FC Kairat e eleito, em 1995, o melhor jogador asiático do ano. Em 2001/02, ingressou na equipa cipriota do Ermis Aradippou, mas sem grande sucesso. A sua maior coroa de glória mora, porém, em 7 de Julho de 2002, quando se tornou no primeiro jogador a marcar um golo pelo Cazaquistão contra uma equipa europeia, após a admissão na UEFA: em Almaty, frente á Estónia, e o jogo terminou 1-1.

Pakhomov, um russo em busca de milagres

Para orientar a selecção do Cazaquistão nesta difícil entrada no mundo do futebol europeu, foi eleito um experiente treinador russo: Leonid Pakhomov. Como jogador, foi estrela do Torpedo de Moscovo. Como treinador, iniciou-se nos escalões juvenis das equipas técnica da Federação Russa. Orientou o onze júnior, os Olímpicos e foi adjunto de Boris Ignatiev na equipa principal, altura em que foi convidado para seleccionador do Cazaquistão, em cujo banco está desde Dezembro de 2002. Nestes nove meses, procurou lançar as bases da reconstrução. Nesse contexto, hoje, a estrela Litvinenko, embora quase sempre convocado, vai muitas vezes para o banco, pois é intenção de Pakhomov apostar em jogadores mais jovens, para construir, com uma nova geração, que seja, no futuro, a nova estrutura-base do futebol do Cazaquistão. Nela pode-se destacar, face ás convocatórias realizadas e ás equipas apresentadas nos jogos anteriores, alguns jogadores de referência desta nova etapa. Na baliza, o titular indiscutível é Novikov, guarda redes do campeão FC Irtysh, talvez o único jogador de verdadeiro nível internacional a jogar no país. Na defesa, são os casos dos defesas Samchenk, Solshenko e Artemov, que já jogou no Shaktar Donetesk. A meio campo, destaque para dois nomes: Baltiev, actual jogador do Dinamo de Moscovo, e Lovchev, médio agressivo do FC Zhenis, eleito jogador do ano no Cazaquistão. Nasceu na Rússia, mas naturalizou-se casaque para jogar na nova selecção de Pakhomov, num processo também realizado por Guzenko (este de origem ucraniana) e por um dos melhores jogadores do onze: Musin, médio-defensivo do Sokol Saratov, que esteve quase a ir ao Mundial-2002 pela Rússia. O nome de que mais se fala no momento é, porém, o de Nurdauletov, do Irtysh, uma promessa de apenas 20 anos. Outras figuraa a salientar como pilares do projecto-Pakhomov, são os de Lunev, do FC Zhenis, e de Tarasov, do FC Sokol. Nomes desconhecidos das elites futebolísticas que surgem para agora para defrontar Portugal, num jogo que está a entusiasmar toda a Qazaqstan Respublikasy, a Republica do Cazaquistão.

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