Champions: Uma questão de filosofia

June 10, 2009 12:00 AM
Inter e Sevilha: A fidelidade a um estilo necessita de jogadores que o entendam e respeitem. Olympiakos, as aventuras de Zico; De Urziceni a Kazan

 

Uma equipa de futebol é uma espécie de animal futebolístico de hábitos. Tende a repetir comportamentos. Falo aqui em algo que ultrapassa os princípios de jogo. Falo em questões quase mecânicas. Penso nisso vendo o Inter a sofrer para entrar no jogo frente ao Rubin Kazan. O onze de Mourinho, com o seu meio-campo de granito (Cambiasso-Zanetti-Stankovic) tentava resgatar o 4x3x3. Este regresso ao passado táctico significava, porém, um recuo no estilo de jogo. Em vez da construção apoiada, com as linhas do meio-campo mais próximas até entrar na organização ofensiva, onde a mobilidade de Eto`o, com ou sem bola, arrasta defesas e abre espaços, regressava a um jogo de bolas longas, em profundidade, para o ponta-de-lança. Era assim que jogava quando nessa posição estava Ibrahimovic e as coisas até funcionavam porque a girafa sueca segurava a bola, aguentava marcações e fazia o resto (passe ou remate). Com Eto´o, porém, é diferente. Em vez de segurar a bola, ele pede velocidade e mobilidade. Pede o tal futebol mais apoiado. Ao jogar como se lá na frente ainda estivesse Ibra, confundiu Eto`o e todo o jogo da equipa.
Foi, também, uma forma de perceber a importância de Sjneider para impedir esse retrocesso táctico-mental da equipa. Com ele, o onze tem um trequartista puro (como o nome indica, o jogador vocacionado para, dividindo o campo em quatro partes, jogar no chamado terceiro espaço, o de construção final e ultimo passe criativo). Sem ele, regressam os hábitos antigos.
A fidelidade a um estilo necessita de jogadores que o entendam e respeitem. Nessa linha de coerência filosófica, o Sevilha é um dos melhores exemplos no futebol europeu. Na Liga espanhola, é o único onze capaz de se aproximar dos faraós de Madrid e Barcelona. Uma aproximação que não resulta das estrelas do onze, mas sobretudo da sua forma de jogar quase de olhos fechados, Há varias épocas num 4x4x2 aberto, com duplo-pivot (Zokora-Lolo ou Renato) e alas que se transformam em extremos (Jesus Navas, Adriano ou Capel). Mantendo o equilíbrio defensivo com defesa a «4» que só solta um lateral de cada vez, mantêm um pivot sempre posicional (Zokora) e faz a conexão no corredor central através do recuo de um avançado (Kanoutè) e a subida do outro pivot (gosto de ver Renato ou Romaric a fazer isso). Mais solto fica o outro avançado (Luis Fabiano). Em Glasgow, varreu o Rangers (0-4). É a força de pizarra (como os espanhóis chamam ao quadro táctico) agora desenhada por Manolo Jimenez. Parece simples visto da bancada. É a melhor sensação que se pode ter vendo uma equipa jogar. Porque, na verdade, é muito complicado tornar as coisas assim tão…simples!
  
 
 
Zico na Europa (Parte III)
 
Depois da Turquia (Fenerbahce) e Rússia (CSKA), Zico entra noutra aventura nos bancos europeus. Agora é a Grécia, vulcão do Olympiakos. Três atmosferas talvez demasiado emocionais para responder a uma questão que já coloquei uma vez neste espaço: o que vale verdadeiramente Zico como treinador? Ainda não encontrei uma resposta definitiva. O CSKA seria o ambiente mais sereno, mas apanhou uma equipa demasiado formatada ao método de Gazzaev, com três centrais, e acabou por não impor o seu novo estilo. O melhor sinal foi dado na Tuquia, com um belo Fenerbahce liderado por Alex, toque e avançados móveis.
Na Grécia, apanha um onze do Olympiakos em permanente estado de nervos. A equipa, pressionada pelos adeptos, acha-se sempre mais capaz do que o seu verdadeiro valor lhe permite. Os jogos europeus são a maior afirmação deste contraste. Ou entricheiram-se a defender, ou atacam como de cada contra-ataque dependesse o jogo e, nesse momento, desequilibram quase sempre a defesa. Foi a imagem que ficou do jogo contra o Arsenal (ver quadro em baixo) com Nikopolidis gigantesco a segurar o 0-0 até ao minuto 78. Do ataque, a certeza que Diogo é um craque. Penso é que joga demasiado adiantado. Mais do que um nº9 puro, nestes jogos marca mais a diferença quando recua entre-linhas.
São as viagens de Zico no Planeta do futebol. Aventuras para seguir nos próximos tempos.
 
 
  
 
De Urziceni a Kazan  
 
Roménia e Rússia. Unirea Urziceni e Rubin Kazan. Nomes estranhos entre a elite do europeia. De nariz no ar, mais pela rebeldia do que pela personalidade, travaram Stuttgart e Chelsea. Jogaram em sistemas diferentes. O Unirea em 5x4x1. O Rubin em 4x4x2. Formas diferentes de tentar controlar o meio-campo e defender sem perder de vista o contra-ataque.
No Unirea, não existe um médio patrão para pegar no jogo e o onze ressente-se disso, partindo-se muitas vezes na transição ofensiva, só voltando a ligar à corrente quando surgem os três avançados, Bilasco, mais fixo no centro, Varga e Bilan, vindos das alas. Muito bem Varga, que também pode jogar mais perto de Bilasco. Foi quando a equipa jogou (atacou) melhor.
No Rubin, um duplo-pivot Semak-Noboa segura o jogo e os alas ajudam muito a defender, pelo que permite o emergir de uma dupla atacante muito interessante: Bukharov mais em cunha e Dominguez, solto e muito móvel a entrar nos espaços vazios. Entendem-se muito bem e foram a nota de melhor futebol deixada pelo campeão russo  
 
 

 

 

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