“Ninguém me ensina como ganhar um jogo!”. A lapidar frase de Mourinho, respondendo aos que criticam o jogo calculista e pouco atractivo praticado pelas suas equipas, diz muito da sua ideologia futebolística. Contrariando a histórica devoção inglesa pelo futebol ofensivo, o seu projecto passa, ao invés, por saber, essencialmente, manejar os diferentes ritmos de jogo, controlar os espaços, gerir a posse de bola, rígida disciplina táctico-posicional defensiva e marcações a meio campo. Uma filosofia que tem sempre subjacente –como já explicara no FC Porto- o profundo conhecimento do adversário, hipnotizado pela precisão de movimentos tácticos de marcação zonal feita por todo o terreno, acabando, depois, com pragmatismo e o valor individual dos seus jogadores, por ganhar friamente o jogo.
São assim as grandes equipas do futebol moderno. Podem, de facto, só fazerem felizes os seus adeptos e lançar o debate sobre a que ponto a táctica subverteu hoje a essência ofensiva do jogo, mas ninguém lhes pode apontar falta de eficácia. Por isso, no dia da apresentação no Chelsea, Mourinho elogiou a forma de jogar da Grécia de Rehhagel. Neste contexto, o espirito da equipa e a cultura de vitória vão sendo solidificados até ao ponto de fazer parte natural do seu bloco técnico-táctico, cada vez mais coeso. A pergunta que se coloca, porém, é se, depois de adquirir esse nível mental e futebolístico, o Chelsea de Mourinho irá evoluir para um sistema de jogo mais aberto. É, por isso, em vez do chamado picos de forma, conceito que Mourinho sempre contestou, deverá antes falar-se, em relação ás suas equipas, numa espécie de, digamos, pico de modelo de jogo, fase em que o 4x4x2 de referência poderá, em vez do conservador 4x5x1, evoluir mais facilmente para modelos de 4x3x3, com futebol pelos extremos, mas sem nunca perder o rigor defensivo.
Entre o 4x4x2 e o 4x5x1

Em termos de sistema de jogo, Mourinho profetiza no Chelsea, com as devidas adaptações individuais, a mesma ideologia táctica utilizada no FC Porto. A base é o 4x4x2 e suas diferentes variantes. Colocada de lado nas diversas equações do sistema, apenas a clássica variante com o meio campo em linha. Tacticamente, na mente de Mourinho está sempre uma maior dinâmica do sistema, ora através do famoso losango, estendendo-se em 4x1x2x1x2, com um médio de contenção, alas e enganche ofensivo, ora através de jogos de triângulos por todo o terreno, desenhados sobretudo pela subida dos médios, ora, numa versão mais conservadora, encolhendo-se para 4x5x1, reforçando a linha de cobertura defensiva, com volantes de marcação a toda a largura do terreno. As várias faces já foram vistas, esta época, nos jogos realizados até ao momento. Nestas diferentes dinâmicas o modelo pode variar, portanto, entre o 4x5x1, na hora de defender sem bola, e o 4x1x3x2, quando na conclusão da fase atacante, os médios sobem entre-linhas no apoio á dupla de pontas de lança ou procurando espaços para remate nas imediações da área, movimentos no qual Lampard e Tiago são exímios. No FC Porto, porém, Mourinho manejava dois sistemas: 4x4x2 e 4x3x3. Consciente que as equipas se começam a construir pela defesa, o seu actual sistema em Stamford Bridge é, no entanto, ainda, demasiado conservador, o que torna, muitas vezes, o 4x4x2 demasiado longo nas distâncias meio campo-ataque.
A aposta em Cole, os extremos e o caso-Lampard

Em termos de posicionamentos tácticos individuais, uma das principais inovações de Mourinho em relação á época passada, reside na colocação de Joe Cole (que com Ranieri passara toda a temporada saltando de flanco para flanco), no seu posto natural de médio ofensivo central atrás dos avançados. Como, no entanto, a equipa joga sem extremos, Cole acaba por, durante o jogos, ter a permanente tendência em descair para a flanco esquerdo. Assim, após nos dois primeiros jogos, frente ao Manchester United e o Birmingham, ter alinhado -numa clara demonstração de querer prioritariamente dar coesão colectiva ao jogo da equipa- com um linha de três médios de contenção, com Makelele no centro, Geremi sobre a direita e Smertin, sobre a esquerda, nas costas de Lampard, mais adiantado com liberdade para subir no terreno, Mourinho reformulou a sistematização preferencial, passando Tiago a surgir como volante sobre a direita, enquanto, com a entrada de Joe Cole, Lampard passou a jogar descaído sobre a esquerda.
É nesta situação particular que mora uma das principais questões deste Chelsea, no qual Lampard perdeu os galões de verdadeiro organizador de jogo que fora com Ranieri, num a missão que se estendera á selecção inglesa e na qual se revela um dos mais fortes médios ofensivos europeus a entrar de trás. Encostado á esquerda, perde influência, mas, vendo bem, esta tendência de Lampard, Tiago ou Cole descaírem, durante o jogo, para um flanco, deriva, sobretudo, do facto da equipa jogar sem flanqueadores ou extremos natos. Na capacidade de circulação de bola, este Chelsea revela, no entanto, uma crescente maturidade técnica, com um estilo cada vez mais continental, avançando no terreno em triangulações com grande precisão de passe.
O jogo com o Paris St.Germain e a entrada de Duff

O sistema táctico preferencial do Chelsea de Mourinho, neste inicio de época, ficou evidente, por exemplo, no jogo de estreia na Liga dos Campeões, em França, contra o Paris St.Germain, onde adoptou um 4x4x2 com marcação á zona por todo o campo. No desenho do meio campo, Makelele é o elemento mais defensivo, plantado á frente da defesa, jogando quase sempre curto em um-dois toques, executando o primeiro passe na saída para o contra-ataque, servindo a dupla transportadora Tiago-Lampard, na qual o inglês, embora partindo da esquerda, é o patrão. Na zona de conclusão, surge Joe Cole como médio ofensivo, apoiando a dupla de pontas de lança, na qual Drogba joga em cunha entre os centrais e Gudjohnssen ou Kezman jogam mais soltos, entrando nas suas costas ou, deambulando para os flancos, buscando triangulações com Cole, um criativo vagabundo com vocação ofensiva e rematadora, rasgando sobretudo pela esquerda, acabando o onze, na fase de conclusão desses movimentos atacantes, por desenhar o 4x3x3. ´
Toda esta dinâmica posicional que faz o onze funcionar quase como um harmónio que se encolhe a defender e alarga-se a atacar, fica mais evidente, porém, com a utilização de pelo menos um extremo, Duff, como sucedeu contra o Middlesbrough, pela primeira vez, desde o inicio, nesta a época. A sua entrada motivou, por si só, varias mudanças na anterior dinâmica táctica do 4x4x2. Assim, com Duff a ocupar o flanco esquerdo, Lampard regressou à sua zona natural, no centro, ao lado de Makelele, como interior-esquerdo com liberdade para subir e organizar jogo, enquanto Smertin surgiu, na outra faixa, como médio interior-direito. Nesta variante, a primeira linha do meio campo actuou mais subida no terreno do que nos outros jogos, pressionando alto na recuperação da bola. Com Duff encostado á linha, alargou-se o campo e surgiram os cruzamentos, ao mesmo tempo que crescia a dinâmica ofensiva aliada á posse da bola, motivado pelo facto do esquerdino irlandês poder jogar em todos os estilos, ora recebendo em corrida passes em profundidade, ora procurando rasgar em ataque continuado. Com os laterais muito recuados, foi difícil, no entanto, desenhar triangulações de penetração pela faixa, algo que se modificou no segundo tempo, altura em que Gallas (que jogou a lateral esquerdo) passou a subir mais no terreno, permitindo a Duff descobrir maiores espaços para cruzar.
Mesmo com sua presença, o onze continuou, porém, longe do 4x3x3, visto Gudjhonssen jogar, quase sempre, muito distante de Drogba, desamparado entre os centrais, num sistema mais próximo do 4x1x3x1x1 que seria invertido a partir da entrada de Kezman para a ala direita, abrindo a frente de ataque (a partir dos 65 minutos, com 0-0), incutindo maior velocidade e reaproximando o onze do 4x3x3. Para provar que Mourinho não se distrai, no entanto, nem por um segundo, depois do golo, nos últimos 5 minutos, prevendo o despejar de bolas para área por parte do Middlesbrough, Duff foi substituído para dar lugar a um terceiro central, o possante Huth.
Choque de culturas

Que efeitos teria no futebol inglês a conquista do titulo por uma equipa com um tipo de jogo tacticista e conservador como o de Mourinho? A questão é pertinente sobretudo porque, apesar de invadido por estrangeiros, o campeonato inglês continua a ser uma referência em termos de futebol aberto e ofensivo. Para o bem e para o mal. Para o bem, a nível interno, com os estádios cheios todas as semanas para ver equipas de rosto ofensivo sempre em busca da vitória. Para o mal, em termos internacionais, onde o desequilibro defesa-ataque e a falta de cultura táctica defensiva, leva a uma constante incapacidade para, nos momentos decisivos, driblar o jogo mais táctico, de marcação e contra ataque, típico dos onzes continentais.
Nunca, porém, uma equipa com estilo tipicamente continental, partindo de uma postura defensiva, venceu o campeonato inglês. Na mesma jornada em que o Arsenal deu um festival de futebol ofensivo frente ao Middlesbrough (vencendo 5-3 após estar a perder 1-3), o Chelsea de Mourinho, partindo de uma postura conservadora, bateu o Birmingham por 1-0, com um golo em contra-ataque após passar quase todo o jogo atrás da linha da bola. Por isso, é impossível dizer se o Chelsea será campeão inglês esta época, mas o que parece certo é que será, quase de certeza, a melhor defesa do campeonato.
Após vencer três títulos da Premier League, Wenger sente que para entrar na história, terá também de triunfar na Europa. Se, ao invés, tal com Ferguson, cair perante o rochoso futebol de Mourinho, já triunfador na Europa, todas as consciências inglesas terão de rever os seus conceitos táctico-futebolísticos. Por isso, mais do que um mero confronto entre duas grandes equipas, a Inglaterra assiste esta época a um verdadeiro choque de diferentes culturas futebolísticas.
DUAS VARIANTES DO 4X4X2
SISTEMA 1:
4X4X2 (versão 4x3x1x2)

É o sistema mais utilizado neste inicio de época, adoptado frente ao PSG, na estreia da Liga dos Campeões. Nesta variante, Lampard surge sobre a esquerda e Tiago a médio interior direito, com Makelele a trinco, destacando-se Cole como organizador ofensivo atrás da dupla de pontas de lança.
SISTEMA 2:
4X4X2 (com um extremo)

Utilizado no último jogo contra o Middlesbrough. Nesta variante sai o médio ofensivo central, Cole, e entra um extremo esquerdo, Duff. Ao mesmo tempo, Lampard recupera o corredor central e o sistema, com o jogo aberto a toda a largura do terreno, por força da entrada de um extremo, adquire um design mais atacante, por vezes perto do 4x3x3.