Calidamente situada no terno ondular do Mediterrâneo, a Ilha de Chipre, próxima da costa africana, a meio caminho entre a Turquia e a Síria, viveu sempre, por força dessa sua localização geográfica de grande interesse estratégico, uma história de permanentes tumultos. Apesar da raiz dessas disputas territoriais remontar a eras longínquas, não é preciso recuar muito no tempo para sentir a sua pulsação. Durante a 1ª guerra mundial, em 1914, na sequência do apoio dado pelos turcos, anteriores dominantes, á Alemanha, a ilha foi anexada pela Inglaterra que, no entanto, só em 1952, a tornaria, oficialmente, sua colónia, após a renuncia da Turquia a todos os direitos sobre ela.
Com a soberania, os ingleses trouxeram também a semente do futebol. Fundada em 1934, a Federação Cipriota de Futebol seria filiada na FIFA apenas em 1948, após década e meia dependente da autoridade de Londres, realizando, no ano seguinte, o seu primeiro jogo internacional: contra Israel, derrota por 1-3.
Com o decorrer do tempo, porém, o desejo de autodeterminação por parte do povo cipriota, dividido entre a comunidade grega e turca, foi-se solidificando, até que em 1960, a ilha tornou-se, por fim, independente, dando origem á República Democrática de Chipre, passando, a partir dessa data, a deter, também, a sua selecção nacional de futebol, que, em 1960, participou, pela primeira vez na história, na fase de apuramento para o Mundial.
Onze anos após o pioneiro jogo de 1949, Chipre e Israel voltariam a encontrar-se, de novo com o resultado favorável aos árabes: 1-1 e 1-6!
O ódio étnico entre gregos e turcos, donos de culturas muito distintas, iria, no entanto, conduzir a ilha para um guerra civil, que eclodiria em 1974, quando a Turquia, decidida a recuperar o domínio total sobre o território, invadiu Chipre. Como consequência, a Ilha partiu-se em duas, e cada comunidade foi viver para cada um dos lados, - a norte, os turcos, a sul, os gregos- separadas por uma fronteira de arame farpado, a chamada Green Line, linha verde, supervisionada pela ONU, que se estende desde Famagusta, a leste, até Pyrgus, a oeste.
No plano desportivo, esta nova ordem politico-territorial, também traria consequências. Embora a Constituição cipriota determinasse, desde os anos 60, o futebol, tal como a religião, a educação e a cultura, como matéria de interesse comum, na prática a separação tornou-se efectiva, criando-se, assim, duas federações de futebol separadas, uma para os cipriotas gregos e outras para os cipriotas turcos.
Apesar das pressões da comunidade turca, a FIFA apenas reconhece, como sua filiada, a Cyprus Football Association, controlada pela comunidade étnica grega. Como sintoma desse domínio helénico, até 1975, um clube cipriota participou, com regularidade, na Liga grega. O conflito, no entanto, continua ainda hoje latente, fazendo actualmente de Nicósia a única capital dividida do mundo.
OS GRANDES MOMENTOS DO FUTEBOL CIPRIOTA
Nascido e criado num clima de grande tensão política e social, o futebol cipriota nunca atingiu, a nível de clubes e selecção, grande projecção internacional, sendo sempre um dos mais fracos da Europa, pelo que, no seu historial, mora um vasto legado de derrotas e pesadas goleadas (entre muitas, 12-0 da RFA, 8-0 da Escócia e Espanha e 7-1 da França, Holanda e Áustria).
Apesar desta tendência, a história do futebol cipriota regista, no entanto, alguns momentos altos.
A sua primeira vitória oficial aconteceu em 1968, quando venceu a Suiça por 2-1, em jogo para a Taça das Nações, antigo Europeu, mas o primeiro momento mágico sucedeu em 1973, quando, em jogo de apuramento para o Mundial-74, recebeu e bateu, em Nicósia, por 1-0, uma forte selecção da Irlanda do Norte que tinha no seu onze figuras como o guarda redes Pat Jennings e o fabuloso extremo George Best.
Após esse memorável jogo, resolvido com um golo de Antoniou a cinco minutos do fim, a selecção cipriota voltaria a espantar o mundo em 1982, quando, de novo em Nicosia, se opôs á Itália de Bearzot, que poucos meses antes se sagrara campeã do mundo em Espanha. Perante Chipre, porém, o onze de Bruno Conti, em jogo de apuramento para o Euro-84, revelou-se incapaz de ir além de um empate a um golo, que, nessa altura, lançaria todo o Calcio em acesa polémica. Pouco tempo depois, seria a vez da Checoslováquia também empatar em Chipre, 1-1.
Jogado sob forte calor, o futebol cipriota, privilegia o jogo apoiado, de toque curto, mas que não encontra eco no fraco nível técnico dos seus executantes. Apesar disso, porém, os jogos com Chipre já não são hoje o mesmo passeio futebolístico de outrora.
Nos últimos tempos, o futebol cipriota tem revelado um claro progresso competitivo, tendo ficado a apenas um ponto do play-off de apuramento para o Euro-2000, após vencer sensacionalmente, a Espanha, por 3-2, em 1998, ditando a saída do seleccionador espanhol Javier Clemente. Para todos, esse foi o momento mais alto de toda a história do futebol cipriota, -que no entanto seria depois goleado em Espanha po 8-0!- mas, que nessa altura, com 4 vitórias (sobre San Marino, 2, Israel e Espanha) em 8 jogos, subiu do 49º para o 29º lugar do Ranking UEFA, á frente de países como a Bulgária, Irlanda do Norte e Finlândia. Actualmente, ocupa o 65º lugar do Ranking FIFA.
DO ETERNO PAMBOS PITTAS
AO TALENTOSO CONSTANTINOU

Olhando o passado, é difícil, ou impossível, encontrar um jogador cipriota de verdadeiro nível internacional. Para a maioria deles, a maior ambição, é serem contratados por um clube grego e ir jogar para a Grécia, o que começou a acontecer, com frequência, a partir dos anos 70. A influência da cultura grega, aliás, é bem demonstrada, por exemplo, no nome dos seus principais jogadores, quase todos revelando ascendência helénica.
É o caso do seu jogador mais internacional de sempre, Pambos Pittas, que, desde 1984, vestiu por 82 vezes a camisola azul da selecção cipriota. Com 35 anos, é ainda, com as cores do Apollon Loimassol, um dos seus defesas mais personalizados.
Em 1977, toda a Europa fixou o olhar no goleador Sotiris Kaiafas, vencedor, ao serviço do Omonia Nicosia, da Bota de Ouro de melhor marcador europeu, com 44 golos. Ao mesmo tempo, no Apoel, destacavam-se Stylianou e Leonidas, que rumariam depois para a Grécia, para o Panionios e para o Olympiakos, respectivamente.
Nos anos 80, os jogadores de maior destaque foram o elegante Kanaris, do Omonia, o médio ala Kolyandris, do AEL Limassol, e o goleador Ioannou, do Apoel.
No presente, as duas grandes estrelas do futebol cipriota, também jogam na Grécia: São eles o médio Yiannakis Okkas e o avançado Michalis Constantinou.
Com perfil de driblador, Okis, 24 anos, actua no PAOK Salonica, após brilhar no Anorthosis Famagusta. Constantinou, 23 anos, joga no Iraklis Salonica, após se ter revelado no modesto Enosis Paralimniou. Muito habilidoso, ele é, sem dúvida, o jogador cipriota mais evoluído tecnicamente, com valor para jogar em qualquer campeonato europeu. Tem sempre a baliza nos olhos. Finta, remata bem e gosta de conduzir a bola em corrida. Com os seus golos, o Iraklis atingiu, esta época, um lugar na Taça UEFA. Fixem o seu nome. Numa altura em que o mercado de transferências ferve, Constantinou pode ser, a qualquer momento, uma surpreendente revelação.
HISTORIAL PORTUGAL-CHIPRE
Concentrados todos nos anos 70, década em que o futebol português se encontrava, internacionalmente, em plena travessia do deserto, apesar do valor de figuras como Alves, Humberto e Oliveira, então no auge, os confrontos oficiais entre Portugal e Chipre foram sempre favoráveis ao onze luso, que assim encontrava, frente á selecção cipriota, uma forma ténue de compensar o seu ego deficitário.
Revisitando esses jogos, fica o registo de no primeiro Portugal-Chipre da história, em 72, Eusébio, já na fase final da sua carreira, ter jogado mais recuado, atrás dos emergentes Nené, Artur e Jordão. Nos 6 confrontos realizados, Portugal venceu sempre e só por uma vez sofreu um golo. Em 76, quando para o Mundial/78 venceu em Limassol por 2-1, com golos de Nené e da jovem promessa Chalana. O ultimo embate, numa fase em que Portugal já não tinha qualquer possibilidade de chegar ao Mundial, verificou-se no final de 77, alinhando a selecção lusa um onze faltavam as suas principais figuras da época. No recordar de nova goleada, 4-0, fica o registo do primeiro golo ter sido apontado por Toni, o único que o actual treinador do Benfica faria em 33 jogos pela selecção das quinas.
QUADRO DE RESULTADOS
29/3/72 Lisboa Mundial/74 Portugal,4- Chipre, 0
10/5/72 Nicósia Mundial/74 Chipre,0- Portugal, 1
8/6/75 Limassol Taça das Nações Chipre,0-Portugal,2
3/12/75 Setúbal Taça das Nações Portugal.,1-Chipre,0
5/12/76 Limassol Mundial/78 Chipre,1-Portugal,2
16/11/77 Faro Mundial/78 Portugal,4-Chipre,0
A FICHA DAS GOLEADAS
1972, 4-0
Portugal- José Henrique: Rebelo, Humberto, Rolando e Carriço; Jaime Graça, Eusébio (depois Fernando Peres) e Toni; Nené (depois Dinís), Artur Jorge e Jordão
Seleccionador: José Augusto
Golos de Humberto, Nené, Artur Jorge e Jordão
1977, 4-0
Portugal- Bento; Artur, Humberto, Laranjeira e Murça (depois Vital); Pietra (depois Chico Faria), Alves e Toni; Seninho, Manuel Fernandes e Chalana.
Seleccionador: Juca
Golos de Toni, Chalana, Vital e Manuel Fernandes.

Okkas, um avançado com técnica e faro de golo