Clássico: as “portas secretas”

19 de Dezembro de 2009 05:29
Estes são os chamados três pontos “psicológicos”. No papel, são apenas três pontos. Na mente, porém, tudo é diferente. Eles podem virar a cabeça de uma equipa para o resto da época.

 

Cada qual tem o seu encanto. Aimar, Hulk, Cardozo, Falcão. Podem ser, entre outros, relâmpagos num jogo preparado em papel quadriculado por Jesus e Jesualdo. Noventa minutos, num clássico são muito longos. Mais do que num simples jogo. Porque são mais do que três pontos normais. Estes são os chamados “pontos psicológicos”. Aqueles que definem poder, confiança e crença. Palavras, estados de alma e valores futebolísticos que crescem e entram dentro de quem ganha esse jogo “diferente” e irão acompanhar essa equipa nos seguintes. Os tais que valem “só” três pontos normais. Como teriam sido os de Olhão, onde o Benfica jogou com a cabeça em “projecção acelerada” uma semana, com o subconsciente na fogueira do clássico.
 
Preparar um jogo a partir das duvidas ou das certezas. Para o treinador, cada dúvida é um “adamastor” em forma de jogador e sua posição em campo. A táctica, um desenho. O Benfica em 4x1x3x2, o FC Porto em 4x3x3. Será o mais provável. Mas o FC Porto pode surpreender e surgir, como na época passada, num traiçoeiro 4x1x4x1. Tem jogadores para isso. E lançar Hulk como ponta-de-lança, a arrancar desde o corredor central. É mais difícil Jesus mexer. Sem Di Maria e Coentrão perde os relâmpagos das faixas que jogam “um-para-um” (isto é, encaram o defesa, fintam-no e vão embora). A lesão de Ramires e a interrogação sobre se Aimar vai estar bem. Sem ele, perde-se o cérebro criativo. Mas, no jogo, a cada segundo que passa, pode acontecer qualquer coisa. E tudo muda.
 
 
Um jogo destes tem muitas “portas secretas” e nem sempre são os melhores jogadores que as abrem. Os seus protagonistas favoritos são, muitas vezes, os chamados “operários”. Discreto, mas com um tiro que sai como se tivesse um silenciador na ponta da arma (chuteira), Guarin sabe seguir os ponteiros do relógio táctico e está mais atento a ver o espaço livre à sua frente. No outro lado, a “trave-mestra” do edifício encarnado, Javi Garcia, é um “farol” permanente. Com o seu futebol curto, linear, dá segurança sem necessitar de gestos excessivos. O importante, depois, é a sequência seguinte da jogada à sua frente. O último instante da organização ofensiva benfiquista tem sempre a presença de um “coelho”, Saviola, mas a melhor emboscada pode estar no lado contrário, nas tatuagens de um médio que faz do jogo “corte e costura”. É o estilo de Raul Meireles. O esforço que coloca no jogo parece secundarizar o talento. Mera ilusão. Ele nunca perde o seu guião táctico.   
 
Perto da área, ou dentro dela, Cardozo parece estático, movimentos curtos, até que a bola se aproxima. No lado oposto, junto da outra área, Hulk lembra uma “avalanche” perto de eclodir. Controla a bola e arranca. Um homem sozinho contra o “mundo”. A seu lado, os outros jogadores parecem feitos de “cartão”. Olham para ele e nem reclamam mesmo quando, com espaço fechado e outra opção ao lado, não faz o passe e deixa a jogada perder-se. Nisso, Cardozo tem outra sensibilidade. Vê-se, até, nos grandes planos.. Olhos em baixo, e, na próxima jogada, passa logo a bola. Entre os dois, no discurso e no método, está Falcão. O tipo de ponta-de-lança que olha de lado para toda a gente, defesas e colegas. Sabe levantar voo na hora certa, sabe recuar para dar um toque burocrático (mas indispensável) na bola e logo depois voltar para o seu lugar na área.
 
Mas o campeonato não acaba na Luz. Depois deste jogo, ainda falta muita vida. Na mente, porém, ficarão as suas “cicatrizes”. Três pontos “psicológicos” para carregar até ao fim da vida (campeonato). A “porta secreta” decisiva do título não estará neste clássico, mas será impossível de ser descoberta sem conseguir passar por ele com os chamados “olhos de póquer”, a suprema capacidade de disfarçar emoções. E ganhar, naturalmente.
 
 
 
 
Os bons
amigos
 
Era Vinicius de Morais quem dizia: “Os amigos não se fazem. Reconhecem-se!”. Filosoficamente, não sei se será bem assim. Sinceramente, cada vez mais acho que sim. No futebol (ou melhor, dentro de uma equipa de futebol) não tenho dúvidas. É mesmo assim. Sempre foi. Desde o tempo de Simões e Eusébio, Coutinho e Pelé, Gullit e Van Basten, Futre e Gomes. Diferentes épocas, clubes, estilos e cenários. A mesma cumplicidade. Na relva, com uma bola por perto.
 
Mas, pensemos no presente. No Benfica, há um jogador essencial para estabelecer essas relações no processo ofensivo da equipa. Saviola. É, no papel, o segundo avançado do 4x1x3x2. Nos movimentos, ele tem a geometria perfeita do avanço e do recuo. Quando recua, conecta com Aimar. Quando avança, conecta com Cardozo. Nessas manobras alternativas, faz tabelas e inventa espaços por entre (no meio) de adversários, dai dizer-se ser exímio a jogar entre linhas, sobretudo quando recua e fica entre os centrais e o médio mais defensivo adversário, um espaço oco que desequilibra as marcações mais duras.
 
No FC Porto, existem dois jogadores que, nos últimos jogos, têm demonstraso maior vocação para “fazer amigos” em campo. Um deles é Fucile, quando sobe desde a sua casa no lado direito da defesa e, percorrendo todo o corredor, vai até ao ataque, “falando” (trocando a bola ou dando indicações de movimentação) com o médio mais interior desse lado ou, quando chega perto dele, o ala-extremo respectivo. O outro, é Varela. Não será um grande craque, mas é hoje, até pela serenidade com que joga (uma grande evolução em relação ao jogador mais explosivo que era noutros clubes) o jogadores que melhor entende a equipa, isto é, que melhor entende e colabora com o resto de movimentos de jogadores que se movem perto dele. Quer no flanco, como extremo, como mais por dentro, como avançado solto, procura espaços através de tabelas fazendo todo o ataque jogar com noção colectiva.
 
As grandes jogadas individuais até podem, por vezes, decidir um jogo (como um clássico), mas os campeonatos, esses, decidem-se com as relações colectivas que se estabelecem dentro da equipa.  
 
 
 
 
 
 
 
A melhor
defesa
 
Em busca do “póquer” perfeito, para Jesus e Jesualdo cada jogador é como uma “carta”. Quem terá, na relva, o “Ás” que pode decidir o jogo? Aimar, Hulk, Cardozo, Falcão… É inevitável, neste exercício de busca pelo jogador decisivo, pensar em avançados, no remate para o golo. Mas, a chave (o “Ás”) pode estar no local oposto. Na frente desse caça-golos. É o “mundo privado” dos guarda-redes.
No clássico, Quim e Helton, os “eremitas” das duas balizas. Muito diferentes.
No estilo e no gesto. Helton é samba sorridente. Para o bem e para o mal. Cada bola convida a um voo. Mas quando ela está longe, parece que lhe falta o violão.
Quim fez toda a careira na Luz em “contra-mão” . Ainda hoje se diz que a qualquer momento vai mudar o titular. Insensível, mesmo sem aquela pinta galã de guarda redes (meio entroncado, camisola por fora dos calções, cabelo desgrenhado) vai entrando, jogo após jogo, com íman nas luvas.
E, para este clássico, fica uma aposta: ganha a equipa na qual o guarda-redes fizer a grande defesa do jogo. Será?
 
 
Nas alas,
os loucos
 
 
Sem Di Maria e Coentrão (ou até Ramires) pode Jesus recorrer a Carlos Martins como um substituto fundamental para um desses jogadores? Poder, pode. Mas não é a mesma coisa. A frase não é um “spot”, é uma constatação futebolística. Carlos Martins é capaz, sem duvida, de fazer coisas fantásticas num jogo, mas na maior parte dele, pela instabilidade emocional e táctica com que vive (joga), passa a maior parte do tempo à margem do seu funcionamento colectivo. Um estado de espírito que ultrapassa a disciplina táctica.
Colocado sobre uma faixa, em vez da zona central (o habitat natural dos cérebros da equipa), pode funcionar melhor. Isto é, o seu estilo, pode encontrar melhor espaço. Porque é nas alas que, historicamente, jogam os jogadores mais loucos, no bom sentido futebolístico do termo. Carlos Martins não é um ala, mas pensa emocionalmente como um ala. Por isso, acho que o seu melhor lugar, é lá. Depois, com o jogo, ele move-se! 
 
 
 
 
 
 
 
 

Artigos Relacionados

  • O "Saco azul" da táctica O `Saco azul` da táctica 8 de Março de 2012 O choque do clássico: “Vítor Pereira treinador do FC Porto na Luz” derrotou “Vítor Pereira treinador...
  • “Lost in translation”* “Lost in translation”* 7 de Fevereiro de 2012 O abraço de Mourinho a Sérgio Ramos. A importância de não perceber as palavras para tornar a história...
  • O “mercado Hulk” e os estrangeiros O “mercado Hulk” e os estrangeiros 7 de Janeiro de 2012 O erro de confundir futebol português com…jogador português. Não se pode proteger um (jogador) afogando...
  • Homens temporariamente sós Homens temporariamente sós 23 de Novembro de 2011 Perceber a posição do treinador, vendo os olhares que se trocam entre jogadores e banco durante o jogo
  •   As apostas “sem risco”  As apostas “sem risco” 30 de Junho de 2011 Vitor Pereira, a sucessão natural. FC Porto foge ao abalo dos alicerces do êxito conquistado que a ruptura...