Como conciliar jogadores

September 2, 2008 12:00 AM
Estar em campo ao mesmo tempo não é suficiente para dizer-se que dois jogadores jogaram juntos. É como um “jogo de espelhos” táctico, por onde passam, no plano atacante, Makukula, Cardozo, Nuno Gomes, Liedson, Lisandro e o «RAIO X» ao novo Farías.
O futebol, como imagem de marca, vende-se muito melhor através das individualidades, criando ideais em torno das qualidades quase mágicas de um só jogador, do que através da projecção de um onze com o qual é mais difícil fazer-se uma conexão tão directa como o ideal de alegria. Makukula chegou ao Benfica e a primeira imagem que surge na mente dos adeptos é a sua vocação goleadora. A facilidade de remate, o poder físico entre os defesas mais duros e os golos. Tudo isto, porém, tem de encontrar em campo um ecossistema táctico que lhe permita viver. É a missão do treinador. Conciliar jogadores. Explorar talentos, disfarçar limitações, conciliar diferentes estilos. Não é fácil. Cada talento necessita de habitat próprio Depois, falta encaixar uns nos outros, em cada espaços, até que formem uma sociedade de onze jogadores com um ideal de jogo colectivo, dentro de um habitat comum. Por isso, para o treinador a imagem de Makukula a marcar golos só deve surgir depois de imaginar como o colocar na equipa. A noção colectiva nunca surge nas apresentações. É questão que tem turvado, esta época, o ataque do Benfica. Uma coisa é Cardozo e Nuno Gomes estar em campo ao mesmo tempo. Outra coisa, é Cardozo e Nuno Gomes jogarem juntos na frente de ataque. São coisas muito diferentes e raramente elas têm coexistido no plano atacante benfiquista. Tal implicaria, desde logo, um habitat táctico diferente. Em vez do 4x2x3x1, o 4x4x2 como principio táctico de complementaridade. Com essa noção no papel, os espaços onde os jogadores se moveriam seria depois, na prática, muito diferente do verificado na maioria dos jogos em que coexistiram em campo. Estariam mais próximos, manejando mutuamente avanços e recuos, passes e desmarcações.
Neste momento, todo o “mundo benfiquista” interroga-se se será possível atingir esse nível de cumplicidade entre Cardozo e Makukula. É uma dupla improvável nesse sentido. Ou seja, não têm os traços típicos para ler os pensamentos um do outro, encaixando reciprocamente nas forças e limitações de cada um. Porque, embora vivendo nos mesmos espaços, não se movem neles de forma complementar. Em tese, Makukula prefere jogar mais isolado entre os defesas. Não se sente incomodado com isso. Cardozo, pelo contrário, pede outro avançado ao lado que lhe crie os espaços que ele sozinho não é capaz de criar. Há, porém, uma questão prévia decisiva. Que ideia de jogo prévia existe para conciliar Cardozo-Makukula e como se vai treinar essa sociedade de gigantes. Porque, cada vez mais no futebol de “top”, joga-se como se treina. Estar em campo ao mesmo tempo não é suficiente para dizer-se que dois jogadores jogaram juntos. No Sporting, Liedson continua sem descobrir outro jogador que o entenda na perfeição. Uma espécie de complemento para o seu jogo. Um segundo avançado que, nas movimentações, lhe abra espaços para o golo. Esta “pequena sociedade” que deve ser uma dupla de pontas-de-lança diz muito da qualidade do plano ofensivo com que cada equipa entra nos jogos. No FC Porto, a entrada de Farias reforçou ainda mais a mobilidade de Lisandro. Sem ter de mudar o sistema, mudou apenas alguns dos seus princípios como se pode descobrir pelo «raio x» ao jogo de Farias. Sempre que se fala na melhor forma de aproveitar e conciliar jogadores, lembro-me de uma entrevista que ouvi já há alguns anos de um anónimo jogador mexicano que quando lhe perguntaram o que fizera o treinador para ele passar a jogar melhor, apenas respondeu que ele apenas o deixara “ser”. Há equipas onde é mais difícil “ser” do que outras. Mas é isso que pedem todas as personagens ofensivas que passaram por este texto. Cardozo, Makukula, Liedson, Farias e Lisandro. Essa possibilidade, mais do que de questões individuais, depende das questões colectivas de como a equipa joga. A imagem, afinal, mais difícil de construir e vender com sucesso.

Com Farias, o FC Porto não descobriu uma nova forma de jogar, mas ganhou uma nova forma de atacar e seduzir o golo.

Há quem acredite que em cada jogador existe um ponto sensível no qual basta tocar para ele soltar toda a sua qualidade antes misteriosamente escondida. Mais do que questões de motivação ou mentais, esse “toque” reside, muitas vezes, em saber qual o momento certo para o lançar em campo. Ver quando o jogo, a fase da equipa, , as circunstâncias que a rodeiam, estão no ponto ideal para receber esse novo elemento. Na Argentina, era conhecido como uma “fábrica de golos” mas, no Porto, Farias passou meia época escondido nos treinos. Os olhares desconfiados cresceram na sua direcção. Há também quem goste de dizer que o futebol é o “momento” Diria antes que vive do momento. O jogador, o treinador e a equipa. Todos vivem da capacidade de entender a altura para agarrar o momento certo e lançar o futuro. Farias entrou numa porta aberta pela saída de Tarik. Pela forma dele se mover e surgir na área como saído debaixo de uma tampa de saneamento, o onze ganhou a possibilidade de jogar com dois pontas-de-lança sem ter de desenhar o 4x4x2 no qual não sabe jogar. Como? Dos três avançados do 4x3x3 joga só com um extremo puro (Quaresma), mas os outros dois (Lisandro e o renascido Farias) aparecem, durante o jogo, juntos, embora não o iniciem lado a lado. Essa união ora nasce quando, alternadamente, um deles parte da faixa, ora quando jogam ambos verticalmente, um atrás do outro. Nessa altura, o lado direito, é um vazio que ilude os adversários. Descomprimem a marcação e então nele surgem Bosingwa, vindo de trás em velocidade, ou Lucho, vindo em diagonais desde o meio. É a diferença entre a táctica e a dinâmica.

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